De oprimidos e opressores
Fiz ontem, vejam lá, algumas considerações sobre a situação africana. E recebi um comentário interessante. Na sua crueza, não é muito diferente do que pensa de seus adversários uma Marilena Chaui, por exemplo, embora ela busque colocar um pouco mais de recheio filosófico em seu rocambole filototalitário. Lá vai a questão: “Reinaldo, por que [ele acentuou esse “que”, e eu já dei essa aula...] você fica sempre do lado dos opressores e não dos oprimidos? Isso é ser de direita, ou você quer ser do contra? Explica pra nós vai.”
Se eu tivesse de escolher uma dessas duas opções ou ir para a forca, eu diria que é porque “quero ser do contra” — de fato, tem mais a ver com meu temperamento. Mas depois me ocorre que só se é “do contra”, nesta acepção que designa o sujeito que sempre reclama, quando estão plasmados consensos. Como esses consensos, especialmente na esfera dos valores morais e culturais, são de esquerda, então esse meu gosto pelo “contra” acaba assumindo, na geografia dada, uma característica que dizem ser “de direita”. Não sei se confundo o pobre leitor que fez a pergunta, mas o fato é que comecei o parágrafo para lhe dizer que sou do contra e concluo afirmando que, dados os consensos (e só nessa circunstância), sou tambem de direita.
Alguns tontinhos, especialmente alguns desafetos da mesma profissão, acreditam que, sei lá, aderi a uma moda que acho divertida. Moda? Somos quantos mesmo? Quatro? Cinco? Seis no máximo. A nossa multidão não lota uma Kombi. Mas volto à indagação do meu amigo. Não é verdade que eu esteja sempre do lado dos opressores — em causas recentes ou passadas. Nunca defendi os fascistas, mas os meus “oprimidos” não eram os comunistas. Se leio sobre Roma Antiga, por exemplo, não é que eu hostilize os povos dominados — é que acredito firmemente que a expansão da cultura latina foi um bem para a humanidade.
Se eu pudesse ter escolhido, caro leitor, talvez tivesse impedido a expansão mercantil e as grandes navegações dos séculos 15 e 16. Os europeus teriam ficado quietinhos lá no canto deles; os nossos nativos passariam a eternidade batendo o pé no chão para acordar os mortos; os africanos continuariam lá tocando a sua vidinha buliçosa, cheia de cultos animistas — sobre a expansão do Islã, ainda não decidi se teria interferido ou não: conhecendo-me um pouco, acho que sim. E os chineses? Bem, chineses, indianos, japoneses protegeriam de olhares curiosos sua sabedoria milenar, cheia de significados para... chineses, indianos e japoneses. Mas o mundo não se fez assim, entende? Não se fez.
O que é estar sempre “do lado do opressor”? É não olhar com os olhos da moral contemporânea a expansão mercantil, por exemplo? Se os povos pré-colombianos tivessem dominado uma técnica que lhes permitisse sair ao mar, colonizando outras terras, o mundo seria mais justo? Tenho sólidas razões para duvidar disso. Como rejeito essa conversa mole de “Mãe África”. Os negros escravos dos brancos portugueses e brasileiros não sofreram mais aqui do que teriam sofrido nas mãos de seus senhores. Nego, com isso, os horrores da escravidão? De jeito nenhum! Eu apenas demonstro que as noções contemporâneas que temos de igualdade e de justiça são uma construção deste tempo. E cumpre que façamos o melhor do que fizeram de nós, em vez de tentar fazer a história voltar para trás.
Mas sua pergunta não é de todo descabida. Eu, com efeito, prefiro as reformas às revoluções; prefiro os processos de construção da igualdade, preservando o que tem de ser preservado, às rupturas, que, não raro, degeneram em violência, morte e novos horrores, mas aí com a chancela moral da “libertação”. Poucos regimes foram tão essencialmente autoritários, violentos e homicidas quanto a vigência do Terror jacobino, durante a Revolução Francesa. E poucos discursos foram tão humanistas quanto o daqueles revolucionários. Fascismo e socialismo, no século passado, falavam em nome da libertação.
Talvez eu seja, contra a minha própria inclinação, um otimista e acredite, veja que coisa, no progresso, dadas certas precondições, como democracia representativa, por exemplo. E tenho algumas convicções. Não aposto em iniciativas que contrariem a economia de mercado porque acho que ela está mais bem-adaptada a alguma coisa que chamo de “espírito humano”, à falta de uma definição mais precisa. O cérebro desse macaco sem pêlo, que somos nós, impele-nos, por alguma razão, à competição e à busca do novo. Falharam todas as tentativas de aprisioná-lo. Por que os MSTs da vida e sua pantomima revolucionária me entediam? Porque sei que eles vão continuar a consumir alguns bilhões de recursos públicos para... nada! Ou, sim, para alguma coisa: para continuar a alimentar a própria causa. Acredito na “tal luta dos oprimidos”? Acredito, por exemplo, em quem se organiza para a formalização da mão-de-obra empregada pela agroindústria. O MST quer outra coisa: uma espécie de éden comunista, já testado e rejeitado pela história.
Veja que coisa, leitor: considero que João Pedro Stédile é, ele sim, um opressor daquela gente que ele mobiliza. Até porque o seu modelo não prevê que os “sem-terra” recebam o seu quinhão para, sei lá, cuidar da vida e progredir como seres autônomos: eles passam a pertencer a uma categoria que há de persegui-los até a morte: serão para sempre assentados sem-terra, devendo vassalagem ao seu suserano: o MST. Quem é o opressor dessa história?
E arremato lembrando que o “discurso do oprimido”, como uma visão de mundo, é um contradição dada pelos próprios termos. O oprimido de verdade está esmagado pelo silêncio. Se o sujeito é dotado de uma fala organizada, então já é um ator político. E se, como tal, reivindica, ainda assim, a condição de um oprimido, ele já começou a construir o discurso do opressor — e do pior deles: aquele que busca o direito histórico ao uso legítimo da violência. Não se esqueçam de que na base do fascismo, por exemplo, estava um recalque. Diria mesmo que ele foi a explosão violenta do recalcado.
Ontem, os sem-terra se organizaram em Parauapebas, no Pará, para tentar libertar na marra um dos seus que tinham sido preso. Era seu particular senso de justiça em ação. Foram reprimidos pela Polícia, os pobrezinhos. A poucos ocorre que eles estavam lá para oprimir o estado democrático e de direito, que não se construiu da noite para o dia.
Por Reinaldo Azevedo
Tuesday, July 08, 2008
Monday, July 07, 2008
Eles não abrem mão do seu oprimido by Reinaldo Azevedo |
Certo! Lembrei que os países ricos não podem ser responsabilizados pelas ditaduras africanas; que elas matam o povo de fome muito mais do que qualquer crise de grãos. Grande revolta nas hostes “africanófilas” da elite esquerdista brasileira, a muitos milhares de distância dos conflitos de negros contra negros daquele continente — no Brasil é que uma parte dos negros acha que os inimigos são os brancos... Na África, ninguém dá bola para a cor da pele.
Também há os que estão nervosos porque afirmei que parte da crise de alimentos — se tem mesmo origem no etanol do milho — deve ser debitada na conta dos escatológicos do aquecimento global. Ué... O mundo não iria derreter? Não se prometeu o apocalipse? Então: tentaram evitar a catástrofe. Não adianta negar: o biocombustível mereceu o selo verde, e essa é uma das raízes do desequilíbrio.
Não seria a primeira vez que as escatologias amigas da humanidade, do bem, do belo e do justo provocariam desastres. Isso tem sido mais ou menos uma constante. Jamais se vai admitir, claro, mas grande parte do desastre africano se deve à forma como se deu a independência dos países subsaarianos: guerras de libertação, a maioria hostilizando os descendentes dos colonizadores. Resultado: junto com a independência, vieram as ditaduras, a hostilidade à produção e uma queda brutal na qualidade de vida.
A despeito das dificuldades que enfrenta, da pobreza, qual é o único país com chances reais de alcançar um padrão civilizado num horizonte que podemos alcançar? A África do Sul. O fim do odioso regime do apartheid, por contraste, deixou como herança a democracia que existia para os brancos: e ela se universalizou. O país está longe de ser um paraíso, mas também está longe do inferno dos seus vizinhos. Uganda é outro que vem saindo do atoleiro — o padrão de comparação é sempre o entorno —, e também tem conseguido tal resultado, vejam só, com a adesão, bastante recente, ao regime democrático. Vai durar? Vamos ver.
Mas ok. Conforta a moral militante a idéia de que os africanos são vítimas de europeus e de americanos desalmados? Regozijem-se. Essa gente quer um oprimido pra chamar de seu.
Também há os que estão nervosos porque afirmei que parte da crise de alimentos — se tem mesmo origem no etanol do milho — deve ser debitada na conta dos escatológicos do aquecimento global. Ué... O mundo não iria derreter? Não se prometeu o apocalipse? Então: tentaram evitar a catástrofe. Não adianta negar: o biocombustível mereceu o selo verde, e essa é uma das raízes do desequilíbrio.
Não seria a primeira vez que as escatologias amigas da humanidade, do bem, do belo e do justo provocariam desastres. Isso tem sido mais ou menos uma constante. Jamais se vai admitir, claro, mas grande parte do desastre africano se deve à forma como se deu a independência dos países subsaarianos: guerras de libertação, a maioria hostilizando os descendentes dos colonizadores. Resultado: junto com a independência, vieram as ditaduras, a hostilidade à produção e uma queda brutal na qualidade de vida.
A despeito das dificuldades que enfrenta, da pobreza, qual é o único país com chances reais de alcançar um padrão civilizado num horizonte que podemos alcançar? A África do Sul. O fim do odioso regime do apartheid, por contraste, deixou como herança a democracia que existia para os brancos: e ela se universalizou. O país está longe de ser um paraíso, mas também está longe do inferno dos seus vizinhos. Uganda é outro que vem saindo do atoleiro — o padrão de comparação é sempre o entorno —, e também tem conseguido tal resultado, vejam só, com a adesão, bastante recente, ao regime democrático. Vai durar? Vamos ver.
Mas ok. Conforta a moral militante a idéia de que os africanos são vítimas de europeus e de americanos desalmados? Regozijem-se. Essa gente quer um oprimido pra chamar de seu.
Sunday, July 06, 2008
Pernil gordo by J.R. Guzzo
"Para cada vez mais gente, e com o incentivo cada vez maior do poder público, empresas como Vale, Alcoa e Cargill são vistas como um pernil gordo, de onde sempre se pode tirar uma fatia – e sempre em nome dos pobres. Não há notícia, até hoje, de nenhum benefício concreto que esse tipo de postura tenha trazido para eles. Em vez de se tornarem cidadãos, são incentivados a se tornar parasitas"
A Vale, a maior empresa mineradora do Brasil, está envolvida em mais um problema no Pará. É apenas o último de uma série que não dá o menor sinal de estar perto do fim – algo perfeitamente natural quando se leva em conta que os "movimentos sociais", sempre com apoio de alguma facção da burocracia oficial, descobriram há tempos que criar caso com empresas de grande porte, dinheiro em caixa e uma reputação internacional a defender é um excelente negócio no Brasil de hoje. O incentivo para quem opera nesse ramo é a idéia geral, cada vez mais aceita, de que empresas como a Vale vivem em situação de pecado; se fazem tanto sucesso é porque estão, de algum jeito, do lado do mal. Sempre há ótimas chances, assim, de sair levando vantagem numa disputa com elas. Como uma companhia que se dedica à extração de minérios, opera na Amazônia e ocupa tanta terra para suas atividades pode ter razão em alguma coisa, seja lá o que for? Se do outro lado do conflito estiverem pessoas pobres, ou descritas como tal, fica tudo mais fácil ainda. No pior dos casos, acaba saindo uma "negociação" e a empresa concorda em ceder isso ou aquilo para livrar-se do problema – até aparecer o próximo.
O episódio mais recente da coleção, segundo relato dos repórteres Eduardo Scolese e João Carlos Magalhães, da Folha de S.Paulo, refere-se a uma possível queixa do Incra, na qual a Vale é citada por ter comprado, entre 2003 e 2007, o direito de ocupar os lotes de 53 assentados num projeto de reforma agrária no interior do Pará – na área onde está investindo cerca de 2 bilhões de dólares para a implantação, já avançada, de uma mina de níquel. A empresa pagou aos assentados até 9.500 reais o alqueire, o triplo do preço de mercado. Na hora de fechar o negócio, não parece ter havido objeções; todos receberam seu dinheiro e deixaram a área. Mas uma parte dos vendedores, agora, diz que foi iludida e se arrepende da transação. Não está claro se pretendem devolver o dinheiro que lhes foi pago. Informa-se, apenas, que estão infelizes e que autoridades do Incra, de quem receberam os lotes, estão mais infelizes ainda – estudam, no momento, que tipo de providências poderiam tomar contra a Vale.
Segundo as normas em vigor, os assentados em projetos de reforma agrária não podem vender os lotes que receberam; na teoria, quem não quer mais a sua área tem de devolvê-la ao Incra, que a entregará, também na teoria, a um novo interessado. Na prática, é claro, vive acontecendo a venda de lotes por assentados que ficam com o dinheiro, vão embora e eventualmente recebem um novo pedaço de terra em outro lugar. É igualmente claro que fica tudo por isso mesmo – a menos que o comprador seja alguém como a Vale. Aí aparece uma oportunidade de ganho, em dinheiro ou em ideologia, e a coisa fica complicada. Complicada só para o comprador, naturalmente, pois o vendedor é pobre, e em sua condição de pobre nunca pode estar errado, segundo a melhor doutrina em vigor na máquina pública brasileira.
A Vale sustenta que não fez nada de ilegal: diz que o Incra acompanhou as transações diretamente, desde o começo, e que não pagou aos assentados pela propriedade da terra, mas sim a título de indenização pelas benfeitorias existentes nos lotes. O episódio, de uma forma ou de outra, acabará tendo o seu desfecho no devido tempo. A questão que fica, mais uma vez, é a crescente insegurança que tantas empresas enfrentam para tocar o seu negócio no Brasil atual, sobretudo em lugares como o Pará, onde os sinais da existência de leis na vida real vão se tornando a cada dia menos visíveis. Também ali, recentemente, outra empresa de mineração, a Alcoa, comprou uma área de mata nativa, vizinha ao local onde está instalando uma operação de beneficiamento de bauxita, para preservar o verde – e mostrar que a atividade industrial pode conviver com a defesa do ambiente. Má idéia. A mata foi invadida por sem-terra que derrubaram quase todas as árvores, na certeza de que destruir a propriedade de empresas como a Alcoa é hoje em dia um procedimento aceito como normal pela autoridade pública; faz parte da "dinâmica social". E a Alcoa? Se tiver sorte, não será multada pelo Ibama.
Empresas como Vale, Alcoa, Cargill (que há mais de um ano enfrenta todo tipo de dificuldade para operar um porto de exportação de soja em Santarém, também no Pará) e tantas outras não são consideradas como um fator de progresso num ambiente de miséria. Não se leva em conta que produzem renda, impostos, empregos e oportunidades, cumprem a legislação trabalhista e não operam com caixa dois. Para cada vez mais gente, e com o incentivo cada vez maior do poder público, são vistas como um pernil gordo, de onde sempre se pode tirar uma fatia – e sempre em nome dos pobres. Não há notícia, até hoje, de nenhum benefício concreto que esse tipo de postura tenha trazido para eles. Podem, aqui e ali, acabar levando uns trocados, mas sua vida não melhora em nada; em vez de se tornarem cidadãos, são incentivados a se tornar parasitas. Ganhar, mesmo, só ganham os profissionais do mercado da pobreza.
A Vale, a maior empresa mineradora do Brasil, está envolvida em mais um problema no Pará. É apenas o último de uma série que não dá o menor sinal de estar perto do fim – algo perfeitamente natural quando se leva em conta que os "movimentos sociais", sempre com apoio de alguma facção da burocracia oficial, descobriram há tempos que criar caso com empresas de grande porte, dinheiro em caixa e uma reputação internacional a defender é um excelente negócio no Brasil de hoje. O incentivo para quem opera nesse ramo é a idéia geral, cada vez mais aceita, de que empresas como a Vale vivem em situação de pecado; se fazem tanto sucesso é porque estão, de algum jeito, do lado do mal. Sempre há ótimas chances, assim, de sair levando vantagem numa disputa com elas. Como uma companhia que se dedica à extração de minérios, opera na Amazônia e ocupa tanta terra para suas atividades pode ter razão em alguma coisa, seja lá o que for? Se do outro lado do conflito estiverem pessoas pobres, ou descritas como tal, fica tudo mais fácil ainda. No pior dos casos, acaba saindo uma "negociação" e a empresa concorda em ceder isso ou aquilo para livrar-se do problema – até aparecer o próximo.
O episódio mais recente da coleção, segundo relato dos repórteres Eduardo Scolese e João Carlos Magalhães, da Folha de S.Paulo, refere-se a uma possível queixa do Incra, na qual a Vale é citada por ter comprado, entre 2003 e 2007, o direito de ocupar os lotes de 53 assentados num projeto de reforma agrária no interior do Pará – na área onde está investindo cerca de 2 bilhões de dólares para a implantação, já avançada, de uma mina de níquel. A empresa pagou aos assentados até 9.500 reais o alqueire, o triplo do preço de mercado. Na hora de fechar o negócio, não parece ter havido objeções; todos receberam seu dinheiro e deixaram a área. Mas uma parte dos vendedores, agora, diz que foi iludida e se arrepende da transação. Não está claro se pretendem devolver o dinheiro que lhes foi pago. Informa-se, apenas, que estão infelizes e que autoridades do Incra, de quem receberam os lotes, estão mais infelizes ainda – estudam, no momento, que tipo de providências poderiam tomar contra a Vale.
Segundo as normas em vigor, os assentados em projetos de reforma agrária não podem vender os lotes que receberam; na teoria, quem não quer mais a sua área tem de devolvê-la ao Incra, que a entregará, também na teoria, a um novo interessado. Na prática, é claro, vive acontecendo a venda de lotes por assentados que ficam com o dinheiro, vão embora e eventualmente recebem um novo pedaço de terra em outro lugar. É igualmente claro que fica tudo por isso mesmo – a menos que o comprador seja alguém como a Vale. Aí aparece uma oportunidade de ganho, em dinheiro ou em ideologia, e a coisa fica complicada. Complicada só para o comprador, naturalmente, pois o vendedor é pobre, e em sua condição de pobre nunca pode estar errado, segundo a melhor doutrina em vigor na máquina pública brasileira.
A Vale sustenta que não fez nada de ilegal: diz que o Incra acompanhou as transações diretamente, desde o começo, e que não pagou aos assentados pela propriedade da terra, mas sim a título de indenização pelas benfeitorias existentes nos lotes. O episódio, de uma forma ou de outra, acabará tendo o seu desfecho no devido tempo. A questão que fica, mais uma vez, é a crescente insegurança que tantas empresas enfrentam para tocar o seu negócio no Brasil atual, sobretudo em lugares como o Pará, onde os sinais da existência de leis na vida real vão se tornando a cada dia menos visíveis. Também ali, recentemente, outra empresa de mineração, a Alcoa, comprou uma área de mata nativa, vizinha ao local onde está instalando uma operação de beneficiamento de bauxita, para preservar o verde – e mostrar que a atividade industrial pode conviver com a defesa do ambiente. Má idéia. A mata foi invadida por sem-terra que derrubaram quase todas as árvores, na certeza de que destruir a propriedade de empresas como a Alcoa é hoje em dia um procedimento aceito como normal pela autoridade pública; faz parte da "dinâmica social". E a Alcoa? Se tiver sorte, não será multada pelo Ibama.
Empresas como Vale, Alcoa, Cargill (que há mais de um ano enfrenta todo tipo de dificuldade para operar um porto de exportação de soja em Santarém, também no Pará) e tantas outras não são consideradas como um fator de progresso num ambiente de miséria. Não se leva em conta que produzem renda, impostos, empregos e oportunidades, cumprem a legislação trabalhista e não operam com caixa dois. Para cada vez mais gente, e com o incentivo cada vez maior do poder público, são vistas como um pernil gordo, de onde sempre se pode tirar uma fatia – e sempre em nome dos pobres. Não há notícia, até hoje, de nenhum benefício concreto que esse tipo de postura tenha trazido para eles. Podem, aqui e ali, acabar levando uns trocados, mas sua vida não melhora em nada; em vez de se tornarem cidadãos, são incentivados a se tornar parasitas. Ganhar, mesmo, só ganham os profissionais do mercado da pobreza.
As Farc no papel do otário by Roberto Pompeu de Toledo
Roberto Pompeu de Toledo
A libertação de Ingrid Betancourt coroou o
fim de um resistente mito latino-americano
De Sierra Maestra a San José del Guaviare cumpriu-se um ciclo na história da América Latina. Em Sierra Maestra, no sul da ilha de Cuba, onde, na passagem do ano de 1956 para o de 1957, se juntou o pequeno grupo de seguidores de Fidel Castro para iniciar a luta contra a ditadura de Fulgencio Batista, nasceu o mito do guerrilheiro romântico, destinado a pairar sobre a vida do continente pelo próximo meio século. Em San José del Guaviare, localidade da Colômbia em cujas cercanias foram resgatados, na quarta-feira passada, Ingrid Betancourt e outros catorze reféns das Farc, o mito, já abalado por sucessivas derrotas e desgastado pela velhice e pelo descrédito, conheceu um fim humilhante. As Farc, sua última encarnação, perderam o cacife que lhes restava sem direito a um único tiro para lhes salvar a honra. Foram vencidas, como o caipira que cai no conto-do-vigário, pelo truque de um adversário mais esperto.
A imagem do guerrilheiro que desce da montanha com a promessa de um mundo novo foi muito ajudada pelo clima reinante à época em que surgiu em cena. As barbas de Fidel Castro dialogavam com os cabelos compridos dos Beatles. Na salada geral dos anos 60, não importava que uns tivessem um fuzil na mão e outros pregassem paz e amor, que uns mirassem num regime de força e outros se refestelassem na anarquia; eram todos partes de um sonho em que tudo parecia possível. Em contraste, ao falecer, no início do ano, o líder das Farc, Manuel Marulanda, já não podia ombrear sequer com o antigo ídolo do rock reduzido a cantor de churrascaria. Era pior: o cantor que perdera a voz, e mal dedilhava a guitarra desafinada. A Manuel Marulanda, el Tirofijo, segundo o apelido que tentava insuflar-lhe alguns trocados de prestígio, coube o destino cruel, para um guerreiro, de morrer na cama. Ao contrário de Che Guevara, não conheceu, nem conhecerá, a glória das camisetas e dos pôsteres.
O Muro de Berlim desabou, a Guerra Fria chegou ao fim, o capitalismo mostrou-se dono de muito mais que sete fôlegos. Não repisemos essas histórias. As causas pelas quais as Farc não encontraram o mesmo terreno favorável da guerrilha cubana são conhecidas. Fiquemos com a questão do mito. Na América Latina, tão mais dada à retórica do que à ação, tão mais tentada pela fantasia do que pela realidade, a noção de que um pequeno grupo de jovens, um ideal na cabeça, uma barba no queixo e um fuzil na mão, fosse capaz de reinaugurar o mundo sobreviveu a mais de uma geração. A derrota de Che Guevara na Bolívia não a arrefeceu, muito pelo contrário. Serviu de inspiração para movimentos guerrilheiros (muitas vezes degenerando em terrorismo) que floresceram da Venezuela ao Uruguai, da Nicarágua ao Chile, passando pela Argentina e pelo Brasil.
Um dos últimos, o Sendero Luminoso, do Peru, já exibia os sinais de fadiga que haveriam de culminar nas Farc: a prática do crime pelo crime, o casamento com o narcotráfico. A imagem do líder do Sendero, Abimael Guzmán, exibido numa jaula dentro da qual esperneava como um gorila e rugia como um urso, depois de preso e levado a julgamento, no começo dos anos 90, distanciava-se irremediavelmente do olhar romântico do Che, tal qual capturado na foto de Alberto Corda. Na etapa seguinte, os ativistas das Farc iriam merecer o epíteto infamante de narcoguerrilheiros. E em meses recentes destacaram-se como torturadores dados a manter seus seqüestrados presos a troncos de árvores.
As Farc cumpriram à perfeição o roteiro imaginado pelo cientista político americano Eric Hoffer: "Toda grande causa começa como um movimento, vira um negócio e finalmente degenera numa quadrilha". Ou melhor, até anteciparam a ordem prevista por Hoffer, na medida em que os ramos de negócio que abraçaram, o narcotráfico e o seqüestro, já se confundiam com atividades quadrilheiras. Não há mito que resista. A imagem que hoje comove o mundo não é a do guerrilheiro vencido, como, nos anos 60, a de Guevara morto. É a de Ingrid Betancourt, a vítima da guerrilha.
O arremate veio na forma como foram libertados os reféns, na semana passada. Na aurora do mito, esperta era a guerrilha, e os governos é que eram feitos de bobo. Os tupamaros, nos primeiros tempos, antes de o conflito com a ditadura uruguaia virar um torneio de sangue, eram especialistas em brincar de esconder com os agentes da repressão. Faziam uma manifestação-relâmpago em certo lugar e quando a polícia chegava estavam em outro. Assaltavam um banco e corriam para distribuir o dinheiro entre os pobres. Na operação de resgate da semana passada, agentes do governo colombiano fingiram-se de guerrilheiros e assim obtiveram a pacífica entrega dos reféns. Pode ser que a história não seja bem essa, e tenha envolvido o suborno de algum chefe ou chefete da guerrilha. Em qualquer caso, as Farc entraram de trouxas na história. É difícil, mas vá lá que o mito até possa ter resistido à degenerescência do ideal em negócio, ou do negócio em crime. Não pode resistir à fama de otário.
A libertação de Ingrid Betancourt coroou o
fim de um resistente mito latino-americano
De Sierra Maestra a San José del Guaviare cumpriu-se um ciclo na história da América Latina. Em Sierra Maestra, no sul da ilha de Cuba, onde, na passagem do ano de 1956 para o de 1957, se juntou o pequeno grupo de seguidores de Fidel Castro para iniciar a luta contra a ditadura de Fulgencio Batista, nasceu o mito do guerrilheiro romântico, destinado a pairar sobre a vida do continente pelo próximo meio século. Em San José del Guaviare, localidade da Colômbia em cujas cercanias foram resgatados, na quarta-feira passada, Ingrid Betancourt e outros catorze reféns das Farc, o mito, já abalado por sucessivas derrotas e desgastado pela velhice e pelo descrédito, conheceu um fim humilhante. As Farc, sua última encarnação, perderam o cacife que lhes restava sem direito a um único tiro para lhes salvar a honra. Foram vencidas, como o caipira que cai no conto-do-vigário, pelo truque de um adversário mais esperto.
A imagem do guerrilheiro que desce da montanha com a promessa de um mundo novo foi muito ajudada pelo clima reinante à época em que surgiu em cena. As barbas de Fidel Castro dialogavam com os cabelos compridos dos Beatles. Na salada geral dos anos 60, não importava que uns tivessem um fuzil na mão e outros pregassem paz e amor, que uns mirassem num regime de força e outros se refestelassem na anarquia; eram todos partes de um sonho em que tudo parecia possível. Em contraste, ao falecer, no início do ano, o líder das Farc, Manuel Marulanda, já não podia ombrear sequer com o antigo ídolo do rock reduzido a cantor de churrascaria. Era pior: o cantor que perdera a voz, e mal dedilhava a guitarra desafinada. A Manuel Marulanda, el Tirofijo, segundo o apelido que tentava insuflar-lhe alguns trocados de prestígio, coube o destino cruel, para um guerreiro, de morrer na cama. Ao contrário de Che Guevara, não conheceu, nem conhecerá, a glória das camisetas e dos pôsteres.
O Muro de Berlim desabou, a Guerra Fria chegou ao fim, o capitalismo mostrou-se dono de muito mais que sete fôlegos. Não repisemos essas histórias. As causas pelas quais as Farc não encontraram o mesmo terreno favorável da guerrilha cubana são conhecidas. Fiquemos com a questão do mito. Na América Latina, tão mais dada à retórica do que à ação, tão mais tentada pela fantasia do que pela realidade, a noção de que um pequeno grupo de jovens, um ideal na cabeça, uma barba no queixo e um fuzil na mão, fosse capaz de reinaugurar o mundo sobreviveu a mais de uma geração. A derrota de Che Guevara na Bolívia não a arrefeceu, muito pelo contrário. Serviu de inspiração para movimentos guerrilheiros (muitas vezes degenerando em terrorismo) que floresceram da Venezuela ao Uruguai, da Nicarágua ao Chile, passando pela Argentina e pelo Brasil.
Um dos últimos, o Sendero Luminoso, do Peru, já exibia os sinais de fadiga que haveriam de culminar nas Farc: a prática do crime pelo crime, o casamento com o narcotráfico. A imagem do líder do Sendero, Abimael Guzmán, exibido numa jaula dentro da qual esperneava como um gorila e rugia como um urso, depois de preso e levado a julgamento, no começo dos anos 90, distanciava-se irremediavelmente do olhar romântico do Che, tal qual capturado na foto de Alberto Corda. Na etapa seguinte, os ativistas das Farc iriam merecer o epíteto infamante de narcoguerrilheiros. E em meses recentes destacaram-se como torturadores dados a manter seus seqüestrados presos a troncos de árvores.
As Farc cumpriram à perfeição o roteiro imaginado pelo cientista político americano Eric Hoffer: "Toda grande causa começa como um movimento, vira um negócio e finalmente degenera numa quadrilha". Ou melhor, até anteciparam a ordem prevista por Hoffer, na medida em que os ramos de negócio que abraçaram, o narcotráfico e o seqüestro, já se confundiam com atividades quadrilheiras. Não há mito que resista. A imagem que hoje comove o mundo não é a do guerrilheiro vencido, como, nos anos 60, a de Guevara morto. É a de Ingrid Betancourt, a vítima da guerrilha.
O arremate veio na forma como foram libertados os reféns, na semana passada. Na aurora do mito, esperta era a guerrilha, e os governos é que eram feitos de bobo. Os tupamaros, nos primeiros tempos, antes de o conflito com a ditadura uruguaia virar um torneio de sangue, eram especialistas em brincar de esconder com os agentes da repressão. Faziam uma manifestação-relâmpago em certo lugar e quando a polícia chegava estavam em outro. Assaltavam um banco e corriam para distribuir o dinheiro entre os pobres. Na operação de resgate da semana passada, agentes do governo colombiano fingiram-se de guerrilheiros e assim obtiveram a pacífica entrega dos reféns. Pode ser que a história não seja bem essa, e tenha envolvido o suborno de algum chefe ou chefete da guerrilha. Em qualquer caso, as Farc entraram de trouxas na história. É difícil, mas vá lá que o mito até possa ter resistido à degenerescência do ideal em negócio, ou do negócio em crime. Não pode resistir à fama de otário.
POR QUE NÃO ME UFANO by Daniel Piza
POR QUE NÃO ME UFANO
Demoraram, mas enfim perceberam que os dados divulgados por institutos atrelados ao governo como o Ipea não são divulgados sem ''recortes'' interpretativos. É como se todos os índices positivos da atualidade fossem produto de fatores surgidos depois de 2003. Mas basta olhar com calma os dados de renda para ver que a média brasileira continua empacada na faixa dos últimos 15 anos. Veja também o caso da formalização de vagas de emprego medida pelo Caged, invariavelmente anunciada como ''criação de empregos''.
Já o índice oficial de inflação, o IPCA, continua muito abaixo de todos os outros, como o IPC e o IGP-M. Que a cesta básica tenha subido 52% em 12 meses é um alerta laranja, no mínimo. Mas o governo diz que não passa de ''alarmismo'', que foi a inflação mundial que subiu um pouco. Então tá: quando as coisas vão bem, o mérito é do governo, não da conjuntura internacional; quando vão mal, a culpa é do mundo. E tome juros altos!
Demoraram, mas enfim perceberam que os dados divulgados por institutos atrelados ao governo como o Ipea não são divulgados sem ''recortes'' interpretativos. É como se todos os índices positivos da atualidade fossem produto de fatores surgidos depois de 2003. Mas basta olhar com calma os dados de renda para ver que a média brasileira continua empacada na faixa dos últimos 15 anos. Veja também o caso da formalização de vagas de emprego medida pelo Caged, invariavelmente anunciada como ''criação de empregos''.
Já o índice oficial de inflação, o IPCA, continua muito abaixo de todos os outros, como o IPC e o IGP-M. Que a cesta básica tenha subido 52% em 12 meses é um alerta laranja, no mínimo. Mas o governo diz que não passa de ''alarmismo'', que foi a inflação mundial que subiu um pouco. Então tá: quando as coisas vão bem, o mérito é do governo, não da conjuntura internacional; quando vão mal, a culpa é do mundo. E tome juros altos!
"How Are We Doing?" The answer is "pretty good."



The American economy is in a rough patch. But the long-term trends are good—and there is a price to economic pessimism.
When a presidential election year collides with iffy economic times, the public’s view of the U.S. economy turns gloomy. Perspective shrinks in favor of short-term assessments that focus on such unpleasant realities as falling job counts, sluggish GDP growth, uncertain incomes, rising oil and food prices, subprime mortgage woes, and wobbly financial markets.
Taken together, it’s enough to shake our faith in American progress. The best path to reviving that faith lies in gaining some perspective— getting out of the short-term rut, casting off the blinders that focus us on what will turn out to be mere footnotes in a longer-term march of progress. Once we do that, we see the U.S. economy, a $14 trillion behemoth, is doing quite well, thank you very much.
So many data points add up to steady, continuing progress for average Americans—and there’s no reason not to expect the future will bring further progress (see examples in the charts above). Bad news will pop up from time to time, just as it has in every decade of American history. Some people will take the negatives—the hiccups on the long road to progress—for harbingers of worse times to come.
W. Michael Cox and Richard Alm of the Federal Reserve Bank of Dallas answer the question "How Are We Doing?" The answer is "pretty good."
Sobre lagartixas e dragões by GUSTAVO FRANCO

AS PESSOAS estão exageradamente assustadas com a inflação, a começar pelo ministro da Fazenda, e isso é muito bom.
Felizmente, exatos 14 anos depois do Plano Real, a memória do flagelo da hiperinflação permanece viva, ainda que embaçada. Sabe-se que foi uma tragédia, mas apenas os maiores de 32 anos tiveram a chance de ver, já maiores de idade, a criatura caminhar sobre território brasileiro. Na verdade, aqui esteve durante vários anos, quando foi alimentada por idéias de economistas heterodoxos, como estes que estão aboletados no Ipea, e tratada com banhos frios, feitiços e confiscos, às vezes mais danosos que o mal que a criatura nos causava.
A inflação acumulada em 12 meses até junho de 1994, medida pelo IPCA, atingiu 6.432,7%. Vale refletir sobre a grandeza desse número. Em junho de 1994, a inflação foi de 50% no mês, que equivalem a 12.875% anuais, ou cerca de 2% por dia útil. A meta de inflação para 2007 seria a inflação de um simples fim de semana, naqueles tempos loucos. Um feriadão já seria suficiente para estourar a meta.
Mas a criatura desapareceu em julho de 1994. No ano calendário de 1997, a inflação foi de 5,2%, e em 1998 chegamos a 1,6% para o ano inteiro, nossa melhor marca. Vida se assentou, especialmente depois dos sacolejos de 1999, 2002 e 2004, que abriram várias tumbas, e expuseram diversos esqueletos que, afinal, não saíram andando e devorando as pessoas, como alguns temiam.
Diante da excitação das últimas semanas em torno da aceleração da inflação de 4,5% anuais para 6,0% anuais, a primeira impressão, entre os mais velhos, é a de estamos lidando com lagartixas e não com dinossauros.
A presunção, talvez inocente, é de que esses não são fabricados a partir daquelas, mas os maiores de 50 anos sabem que a exposição prolongada a doses regulares de idéias econômicas radioativas podem metamorfosear animais frágeis em serpentes, que depois viram dragões. Não é muito provável, é claro, e, por isso mesmo, o ministro da Fazenda tem razão em dizer que não há motivo para pânico. Entretanto, esse tipo de desmentido é uma espécie de contradição em termos: se é preciso que o ministro diga algo assim, é por que há motivo para pânico.
E o motivo é muito simples: o ministro, e com ele o governo, não mostra nenhuma convicção de que o problema da inflação tem como causa a política fiscal, o mesmo velho problema. Para não repetir Milton Friedman sobre refeições gratuitas, vale lembrar Machado de Assis, no mesmo espírito: não se pode ir à Glória sem pagar o bonde.
Friday, July 04, 2008
A ética agora é roubar by João Mellão Neto
A ética agora é roubar
João Mellão Neto
Tamanho do texto? A A A A
Quando Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua cátedra de sociólogo emérito, declarou, meses atrás, que a "ética do PT é roubar", não foram poucos os protestos escandalizados que ouviu. Hoje em dia, não haveria mais do que murmúrios envergonhados. Quando a corrupção grassa por toda parte, quando o próprio presidente empresta o seu prestígio para defender notórios larápios, é para começar a acreditar na cruel sentença do ex-presidente.
Para quem, por dever de ofício (sou jornalista), vem acompanhando com acuidade a história desse partido, a declaração de Fernando Henrique não tinha nada de surpreendente.
Os primeiros petistas, lá pelos inícios dos anos 80, nutriam uma interpretação muito particular do que fosse corrupção. Para eles, tratava-se de um problema menor, que seria automaticamente banido, uma vez implantada a sociedade sem classes. "O verdadeiro roubo, na sociedade, se dá entre patrões e proletários: tudo o mais advém disso." Como corolário deste raciocínio, não haveria nada de mais entre burgueses espoliando burgueses (isso é próprio do capitalismo) ou, então, entre pseudo-socialistas extraindo verbas do erário (é um dinheiro expropriado da burguesia para ser usado contra a própria burguesia).
Esse discurso, obviamente, não pegou. Não porque os petistas o considerassem de alguma forma equivocado, mas sim porque, na leitura deles, a sociedade brasileira, em especial a classe média, se arraigava a valores conservadores, tais como honestidade, integridade, austeridade e escrúpulo no trato do dinheiro público.
Após apanharem fragorosamente nas urnas por sucessivas eleições, os petistas decidiram fazer uma releitura de seu discurso. Não daquele básico, de extração marxista, razão de ser do partido, mas sim do discurso voltado para as massas. O PT, ao menos nas palavras,tornou-se um partido pequeno-burguês típico, bradando contra a imoralidade, exigindo cadeia para os corruptos e, paranoicamente, encontrando larápios em potencial até mesmo debaixo dos próprios colchões.
Não havia um pingo de sinceridade nesse discurso. Ele serviu apenas como escada para o PT ganhar as eleições. Tanto isso é verdade que foi abandonado com a maior sem-cerimônia, tão logo Luiz Inácio Lula da Silva galgou as rampas do Palácio do Planalto.
Se não o primeiro, o principal sinal de que as coisas haviam mudado se deu com aquele que ficou conhecido como "o escândalo do mensalão". Como teria agido um governo minimamente ético naquelas circunstâncias, desde que não tivesse nada a temer? Teria agido de forma determinada, de modo que não pairasse a menor suspeita sobre a sua lisura no episódio, a começar pela demissão sumária de seu então chefe da Casa Civil. O presidente Lula não só se manteve omisso durante todo o episódio como também atestou, por escrito, a idoneidade de Roberto Jefferson e, posteriormente, a do próprio José Dirceu.
Sucessivos escândalos foram vindo à luz e Lula, numa recorrência espantosa, foi sempre dando sinais de inequívoca simpatia pela causa dos acusados. Foi assim no caso do ex-presidente da Câmara dos Deputados e foi assim no caso do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula entregou-se ao requinte de ressuscitar até mesmo os mortos, como tem ocorrido várias vezes, sendo o caso mais recente o do ex-presidente do Senado Jader Barbalho.
Simpatia pelos deserdados de Deus? Duvido. O mais provável é que o presidente e o seu staff entendam que todo esse pessoal não tenha cometido ilícito algum. Ao menos dentro daquela ética - abandonada provisoriamente, porém jamais esquecida - do partido desde a sua fundação.
Se for assim, estamos mal. O homem público convencional, quando comete um delito, ao menos tem a exata noção do que fez de errado e por quê. Os petistas, não. Cometem as maiores barbaridades e vão dormir de bem com o travesseiro, porque acreditam que tudo o que fizeram teve uma motivação justa: a "causa". Se, decerto, nos anos 60 vários de seus atuais membros se dispunham a matar, ou até mesmo a morrer, em benefício dessa maldita "causa", que mal podem ver, agora, em surrupiar algum dinheiro do erário?
Nesta Nova República delinqüente, a classe média está emparedada. Tradicional reduto dos bons valores republicanos, desta vez ela não tem voz.
Conscientemente ou não, o PT a pinçou com tenazes de aço. Do lado dos pobres, apaziguou-os com a mesada do Bolsa-Família - mesada, sim, porque se trata de um punhado de dinheiro doado sem contrapartida, erodindo a ética do trabalho. Do lado dos ricos, porque com a política dos juros baixos e o crédito a perder de vista lhes propiciou ganhar mais dinheiro do que em toda a sua vida. A classe média, para variar, ficou bradando no deserto - quando não falando sozinha. Ela, sem dúvida, vai votar na oposição nas próximas eleições. Mas o que importa? O PT já amealhou votos suficientes para vencê-la com folga. E, para os petistas, isso é crucial. Calcula-se que, entre empregos diretos e indiretos, o Partido dos Trabalhadores (santa ironia!) tenha uns 40 mil parasitas vivendo à custa do governo. O que farão eles no caso de uma derrota?
Ora, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. O atual modelo econômico tem pés de barro. Essa fartura geral e irrestrita não é fruto de uma eventual maestria de Lula, mas reflexo da maior onda de prosperidade que o mundo conheceu desde a 2ª Guerra Mundial.
Retirem essa poderosa escada e o resultado é que ficarão todos ali. Desesperados, pendurados no pincel.
João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado
João Mellão Neto
Tamanho do texto? A A A A
Quando Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua cátedra de sociólogo emérito, declarou, meses atrás, que a "ética do PT é roubar", não foram poucos os protestos escandalizados que ouviu. Hoje em dia, não haveria mais do que murmúrios envergonhados. Quando a corrupção grassa por toda parte, quando o próprio presidente empresta o seu prestígio para defender notórios larápios, é para começar a acreditar na cruel sentença do ex-presidente.
Para quem, por dever de ofício (sou jornalista), vem acompanhando com acuidade a história desse partido, a declaração de Fernando Henrique não tinha nada de surpreendente.
Os primeiros petistas, lá pelos inícios dos anos 80, nutriam uma interpretação muito particular do que fosse corrupção. Para eles, tratava-se de um problema menor, que seria automaticamente banido, uma vez implantada a sociedade sem classes. "O verdadeiro roubo, na sociedade, se dá entre patrões e proletários: tudo o mais advém disso." Como corolário deste raciocínio, não haveria nada de mais entre burgueses espoliando burgueses (isso é próprio do capitalismo) ou, então, entre pseudo-socialistas extraindo verbas do erário (é um dinheiro expropriado da burguesia para ser usado contra a própria burguesia).
Esse discurso, obviamente, não pegou. Não porque os petistas o considerassem de alguma forma equivocado, mas sim porque, na leitura deles, a sociedade brasileira, em especial a classe média, se arraigava a valores conservadores, tais como honestidade, integridade, austeridade e escrúpulo no trato do dinheiro público.
Após apanharem fragorosamente nas urnas por sucessivas eleições, os petistas decidiram fazer uma releitura de seu discurso. Não daquele básico, de extração marxista, razão de ser do partido, mas sim do discurso voltado para as massas. O PT, ao menos nas palavras,tornou-se um partido pequeno-burguês típico, bradando contra a imoralidade, exigindo cadeia para os corruptos e, paranoicamente, encontrando larápios em potencial até mesmo debaixo dos próprios colchões.
Não havia um pingo de sinceridade nesse discurso. Ele serviu apenas como escada para o PT ganhar as eleições. Tanto isso é verdade que foi abandonado com a maior sem-cerimônia, tão logo Luiz Inácio Lula da Silva galgou as rampas do Palácio do Planalto.
Se não o primeiro, o principal sinal de que as coisas haviam mudado se deu com aquele que ficou conhecido como "o escândalo do mensalão". Como teria agido um governo minimamente ético naquelas circunstâncias, desde que não tivesse nada a temer? Teria agido de forma determinada, de modo que não pairasse a menor suspeita sobre a sua lisura no episódio, a começar pela demissão sumária de seu então chefe da Casa Civil. O presidente Lula não só se manteve omisso durante todo o episódio como também atestou, por escrito, a idoneidade de Roberto Jefferson e, posteriormente, a do próprio José Dirceu.
Sucessivos escândalos foram vindo à luz e Lula, numa recorrência espantosa, foi sempre dando sinais de inequívoca simpatia pela causa dos acusados. Foi assim no caso do ex-presidente da Câmara dos Deputados e foi assim no caso do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula entregou-se ao requinte de ressuscitar até mesmo os mortos, como tem ocorrido várias vezes, sendo o caso mais recente o do ex-presidente do Senado Jader Barbalho.
Simpatia pelos deserdados de Deus? Duvido. O mais provável é que o presidente e o seu staff entendam que todo esse pessoal não tenha cometido ilícito algum. Ao menos dentro daquela ética - abandonada provisoriamente, porém jamais esquecida - do partido desde a sua fundação.
Se for assim, estamos mal. O homem público convencional, quando comete um delito, ao menos tem a exata noção do que fez de errado e por quê. Os petistas, não. Cometem as maiores barbaridades e vão dormir de bem com o travesseiro, porque acreditam que tudo o que fizeram teve uma motivação justa: a "causa". Se, decerto, nos anos 60 vários de seus atuais membros se dispunham a matar, ou até mesmo a morrer, em benefício dessa maldita "causa", que mal podem ver, agora, em surrupiar algum dinheiro do erário?
Nesta Nova República delinqüente, a classe média está emparedada. Tradicional reduto dos bons valores republicanos, desta vez ela não tem voz.
Conscientemente ou não, o PT a pinçou com tenazes de aço. Do lado dos pobres, apaziguou-os com a mesada do Bolsa-Família - mesada, sim, porque se trata de um punhado de dinheiro doado sem contrapartida, erodindo a ética do trabalho. Do lado dos ricos, porque com a política dos juros baixos e o crédito a perder de vista lhes propiciou ganhar mais dinheiro do que em toda a sua vida. A classe média, para variar, ficou bradando no deserto - quando não falando sozinha. Ela, sem dúvida, vai votar na oposição nas próximas eleições. Mas o que importa? O PT já amealhou votos suficientes para vencê-la com folga. E, para os petistas, isso é crucial. Calcula-se que, entre empregos diretos e indiretos, o Partido dos Trabalhadores (santa ironia!) tenha uns 40 mil parasitas vivendo à custa do governo. O que farão eles no caso de uma derrota?
Ora, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. O atual modelo econômico tem pés de barro. Essa fartura geral e irrestrita não é fruto de uma eventual maestria de Lula, mas reflexo da maior onda de prosperidade que o mundo conheceu desde a 2ª Guerra Mundial.
Retirem essa poderosa escada e o resultado é que ficarão todos ali. Desesperados, pendurados no pincel.
João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado
Tuesday, July 01, 2008
''Generosidade'' versus liberdade by Ilan Goldfajn
''Generosidade'' versus liberdade
A preocupação de curto prazo é a inflação, sem dúvida. Mas o risco maior para o crescimento no médio e no longo prazos se situa numa outra esfera. Melhor explicar com frases que ilustram o ponto. O ministro das Minas e Energia afirmou que ''não se cogita absolutamente de mudar os contratos existentes. Estamos sendo absolutamente generosos'' e, ''na medida em que as empresas apenas estejam auferindo lucros em demasia, deveremos rever essa situação, em benefício de todos'' (Valor Econômico, 27/6). Comentava sobre os ''contratos'' de exploração de petróleo e o desejo do governo de criar mais uma estatal para a nossa vasta coleção. Os ''lucros em demasia'' a serem revertidos são no setor de mineração. O ministro reflete um conflito que transcende a sua área de atuação: os contratos assinados viraram um incômodo e o respeito a eles passou a ser visto como uma generosidade dos atuais dirigentes. A construção institucional feita no passado - respeito a contratos, regulação via agências do Estado e menos intervencionismo - mede forças contra o desejo atual de controlar, dirigir, estatizar.
Há vários exemplos de mudança de direção, como o desmonte do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - publicações canceladas, funcionários dispensados - e a discussão dos portos - querem licitar portos, mesmo que, absolutamente, privados e já regulados. O cerne do debate sobre o crescimento futuro vai se concentrar neste ponto: haverá liberdade e facilidade para produzir, investir, arriscar e gerar valor no Brasil?
Na discussão macroeconômica, fala-se em claro e bom som da necessidade de resolver os gargalos da economia (ou seja, desobstruir os impedimentos à elevação da produção no médio prazo), de aumentar a oferta disponível, para não ter de desacelerar a demanda, e de incentivar as exportações. No dia-a-dia, a clareza macroeconômica cede lugar a uma combinação cinzenta de ideologias e interesses.
A discussão dos portos é emblemática. Há um visível esgotamento da capacidade portuária no Brasil com o bem-vindo aumento do comércio exterior. Mas existem limites orçamentários para aumentar os investimentos públicos no setor. Como em outras áreas, o progresso vai depender da capacidade de atrair para o setor capitais privados que estejam dispostos a correr o risco do investimento em troca da expectativa de um retorno futuro. O governo tem de ser capaz apenas de mostrar estabilidade macroeconômica e regulatória (manter as regras que ele mesmo estabeleceu) e reduzir os entraves burocráticos a novos investimentos. Mas não é isso o que acontece.
Há interferência na decisão econômica, que deveria ser dos que atuam no setor. Não me refiro aqui à regulação necessária na economia. Afinal, há bens públicos a defender, como o meio ambiente ou o combate à barreira a entradas de novos concorrentes para evitar a formação de cartéis e monopólios. Isso já existe com as diversas agências reguladoras montadas no passado (e sendo enfraquecidas desde então). Nesse caso dos portos, interfere-se arbitrando que a existência de portos estritamente privados tenha de ser justificada apenas com sua carga própria, mesmo que o porto venha também a ser utilizado por terceiros, o que reduziria os custos operacionais pelos ganhos de escala. Ou seja, coloca-se um entrave, cujo custo é claro (retrai investimentos) e o benefício coletivo, duvidoso (qual é o ganho para o cidadão?). Os portos públicos encontram-se também prejudicados pela arbitrariedade das regras e ineficiência do setor público (há custos altos e monopólios sindicais criados pelo governo). Mas isso não é razão para impedir o progresso dos portos privados, mas sim demandar mudanças nas regras ineficientes do governo.
O irônico é que no momento em que a realidade impera e se sinaliza que se ''aceita'' remover esse obstáculo (afinal, quem não quer mais investimentos?), a ideologia e o desejo de controle imperam, e o governo anuncia que, como contrapartida, pretende requisitar plano de outorgas e licitar todos os novos portos, mesmo os privados. Ou seja, se alguém quer investir em portos, vai caber ao governo decidir se é viável e/ou desejável. Por trás dessa iniciativa está um conflito comum hoje no governo: o desejo da nova Secretaria Especial de Portos (criada para acomodar conflitos políticos) de dirigir e decidir sobre o setor para além da regulação exercida pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Essa nova exigência de planos de outorga e licitação deve atrasar e/ou desestimular os novos investimentos. Enquanto isso, continuaremos a debater em público, em abstrato, sobre os gargalos da economia e por que o Brasil não consegue crescer mais, sem gerar inflação.
O Ipea e o Indec - Se a sociedade não tomar cuidado, o Ipea vai-se converter no nosso Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (Indec)). O Indec, o ''IBGE argentino'', encontra-se num estado de profunda perda de credibilidade, cujas conseqüências vão além do atual governo dos Kirchners. Ao longo dos últimos anos, o governo argentino foi intervindo, censurando suas publicações, demitindo funcionários que se recusaram a seguir as diretrizes governamentais e divulgando estatísticas falsas com o intuito de mostrar uma situação mais favorável ao governo. Por exemplo, a inflação oficial publicada é de ''apenas'' 9,1%, nos últimos 12 meses, enquanto a verdadeira ronda os 30%. A conseqüência é a desconfiança nas instituições e nos números da economia, o que prejudica não só a economia (quem vai investir numa economia baseada em números falsos?), mas a própria democracia. A direção do Ipea, depois de dispensar funcionários competentes por divergências ideológicas, recentemente cancelou a publicação do seu boletim trimestral. Alega que quer concentrar-se nas questões de longo prazo, mas insiste em tecer comentários sobre a taxa de juros de curto prazo no Brasil: comportamento típico do atual Indec.
A preocupação de curto prazo é a inflação, sem dúvida. Mas o risco maior para o crescimento no médio e no longo prazos se situa numa outra esfera. Melhor explicar com frases que ilustram o ponto. O ministro das Minas e Energia afirmou que ''não se cogita absolutamente de mudar os contratos existentes. Estamos sendo absolutamente generosos'' e, ''na medida em que as empresas apenas estejam auferindo lucros em demasia, deveremos rever essa situação, em benefício de todos'' (Valor Econômico, 27/6). Comentava sobre os ''contratos'' de exploração de petróleo e o desejo do governo de criar mais uma estatal para a nossa vasta coleção. Os ''lucros em demasia'' a serem revertidos são no setor de mineração. O ministro reflete um conflito que transcende a sua área de atuação: os contratos assinados viraram um incômodo e o respeito a eles passou a ser visto como uma generosidade dos atuais dirigentes. A construção institucional feita no passado - respeito a contratos, regulação via agências do Estado e menos intervencionismo - mede forças contra o desejo atual de controlar, dirigir, estatizar.
Há vários exemplos de mudança de direção, como o desmonte do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - publicações canceladas, funcionários dispensados - e a discussão dos portos - querem licitar portos, mesmo que, absolutamente, privados e já regulados. O cerne do debate sobre o crescimento futuro vai se concentrar neste ponto: haverá liberdade e facilidade para produzir, investir, arriscar e gerar valor no Brasil?
Na discussão macroeconômica, fala-se em claro e bom som da necessidade de resolver os gargalos da economia (ou seja, desobstruir os impedimentos à elevação da produção no médio prazo), de aumentar a oferta disponível, para não ter de desacelerar a demanda, e de incentivar as exportações. No dia-a-dia, a clareza macroeconômica cede lugar a uma combinação cinzenta de ideologias e interesses.
A discussão dos portos é emblemática. Há um visível esgotamento da capacidade portuária no Brasil com o bem-vindo aumento do comércio exterior. Mas existem limites orçamentários para aumentar os investimentos públicos no setor. Como em outras áreas, o progresso vai depender da capacidade de atrair para o setor capitais privados que estejam dispostos a correr o risco do investimento em troca da expectativa de um retorno futuro. O governo tem de ser capaz apenas de mostrar estabilidade macroeconômica e regulatória (manter as regras que ele mesmo estabeleceu) e reduzir os entraves burocráticos a novos investimentos. Mas não é isso o que acontece.
Há interferência na decisão econômica, que deveria ser dos que atuam no setor. Não me refiro aqui à regulação necessária na economia. Afinal, há bens públicos a defender, como o meio ambiente ou o combate à barreira a entradas de novos concorrentes para evitar a formação de cartéis e monopólios. Isso já existe com as diversas agências reguladoras montadas no passado (e sendo enfraquecidas desde então). Nesse caso dos portos, interfere-se arbitrando que a existência de portos estritamente privados tenha de ser justificada apenas com sua carga própria, mesmo que o porto venha também a ser utilizado por terceiros, o que reduziria os custos operacionais pelos ganhos de escala. Ou seja, coloca-se um entrave, cujo custo é claro (retrai investimentos) e o benefício coletivo, duvidoso (qual é o ganho para o cidadão?). Os portos públicos encontram-se também prejudicados pela arbitrariedade das regras e ineficiência do setor público (há custos altos e monopólios sindicais criados pelo governo). Mas isso não é razão para impedir o progresso dos portos privados, mas sim demandar mudanças nas regras ineficientes do governo.
O irônico é que no momento em que a realidade impera e se sinaliza que se ''aceita'' remover esse obstáculo (afinal, quem não quer mais investimentos?), a ideologia e o desejo de controle imperam, e o governo anuncia que, como contrapartida, pretende requisitar plano de outorgas e licitar todos os novos portos, mesmo os privados. Ou seja, se alguém quer investir em portos, vai caber ao governo decidir se é viável e/ou desejável. Por trás dessa iniciativa está um conflito comum hoje no governo: o desejo da nova Secretaria Especial de Portos (criada para acomodar conflitos políticos) de dirigir e decidir sobre o setor para além da regulação exercida pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Essa nova exigência de planos de outorga e licitação deve atrasar e/ou desestimular os novos investimentos. Enquanto isso, continuaremos a debater em público, em abstrato, sobre os gargalos da economia e por que o Brasil não consegue crescer mais, sem gerar inflação.
O Ipea e o Indec - Se a sociedade não tomar cuidado, o Ipea vai-se converter no nosso Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (Indec)). O Indec, o ''IBGE argentino'', encontra-se num estado de profunda perda de credibilidade, cujas conseqüências vão além do atual governo dos Kirchners. Ao longo dos últimos anos, o governo argentino foi intervindo, censurando suas publicações, demitindo funcionários que se recusaram a seguir as diretrizes governamentais e divulgando estatísticas falsas com o intuito de mostrar uma situação mais favorável ao governo. Por exemplo, a inflação oficial publicada é de ''apenas'' 9,1%, nos últimos 12 meses, enquanto a verdadeira ronda os 30%. A conseqüência é a desconfiança nas instituições e nos números da economia, o que prejudica não só a economia (quem vai investir numa economia baseada em números falsos?), mas a própria democracia. A direção do Ipea, depois de dispensar funcionários competentes por divergências ideológicas, recentemente cancelou a publicação do seu boletim trimestral. Alega que quer concentrar-se nas questões de longo prazo, mas insiste em tecer comentários sobre a taxa de juros de curto prazo no Brasil: comportamento típico do atual Indec.
Monday, June 30, 2008
Lula é neoliberal? by Mailson da Nóbrega
Em sua propaganda política, o PPS tachou o governo Lula de neoliberal e incompetente. Atacou os juros e o câmbio, os mesmos alvos da esquerda e dos autochamados "desenvolvimentistas" (como se houvesse "antidesenvolvimentistas"). Não discuto a competência deste governo, mas neoliberal ele não é.
O neoliberalismo, seja lá o que signifique para essas pessoas, surgiu nos anos 1970, em reação aos excessos da intervenção estatal na economia, vista como uma das principais causas da estagflação (fenômeno então inédito). A ala libertária pregava a redução drástica da ação do Estado, alegando que seu controle sobre a economia é indesejável, pois gera ineficiência e corrupção.
Os órfãos do falido socialismo real e os saudosistas do nacionalismo econômico desancaram o tal neoliberalismo. Seus seguidores seriam prisioneiros de um deus-mercado, adeptos do Estado mínimo, influenciados por doutrinas alienígenas, insensíveis aos problemas sociais e por aí afora.
Para júbilo dos críticos, o neoliberalismo ganhou uma face: o Consenso de Washington. Em artigo de 1989, o economista John Williamson sugeriu medidas a seu ver apropriadas para os países em desenvolvimento. Suas idéias - "prudência macroeconômica, liberalização microeconômica e orientação externa" - se contrapunham a déficits públicos, excessivo endividamento externo e confiança nos empreendimentos estatais, que caracterizavam a América Latina e explicavam a sua crise.
Em artigo de 2000, Fabio Giambiagi demoliu, um a um, os argumentos dos críticos. Mostrou que não procediam os ataques aos pontos básicos da política econômica: a política cambial, a abertura comercial, o tratamento ao capital estrangeiro, a privatização, a política monetária, a política fiscal e os gastos sociais.
As idéias do Consenso de Washington não eram novidade. Vinham sendo adotadas com sucesso no Chile, cujo governo socialista manteve a política econômica do regime militar. A esquerda chilena foi a primeira da América Latina a entender que a gestão macroeconômica não tem ideologia. Dos anos 1990 para cá, o Chile foi o país de maior crescimento na região.
Williamson se arrependeu do título dado às idéias e reconheceu que não atribuíra a importância devida às questões institucionais. Curiosamente, foi o Brasil, depois do Chile, quem melhor construiu instituições inibidoras de políticas econômicas irresponsáveis.
Na oposição, Lula condenava o que entendia como neoliberalismo. No governo, manteve prudentemente os rumos e assim contribuiu para a atual fase de estabilidade e prosperidade, cujas causas básicas são a boa gestão macroeconômica, reformas microeconômicas e os ganhos derivados dos preços das commodities que exportamos.
A inflação se manteve sob controle graças à autonomia operacional do Banco Central, à elevação dos superávits primários e à percepção, pelos mercados, de que o presidente é o fiador dessa auspiciosa realidade. Maior taxa de crescimento, redução das desigualdades e grau de investimento - que Lula comemora, com razão - são três dos mais importantes efeitos da política econômica que os críticos chamam de neoliberal. Apesar do esperneio, tudo indica que essas políticas terão continuidade nos próximos governos, até porque são expressão de atitudes responsáveis.
Os críticos enxergam nos EUA a pátria das idéias neoliberais. Por isso, comemoraram o seu fim, sem nenhuma razão. Ao contrário do que se tem dito, a ação do Federal Reserve para evitar a quebra do Bear Sterns não marca o fim do neoliberalismo nem significa que os americanos seguem políticas diferentes das que recomendavam para outros países. A medida constituiu uma decisão natural, guiada pelo interesse público, que há décadas faz parte do cardápio de qualquer banco central responsável, como ocorreu no caso do Proer brasileiro.
Em resumo, confunde-se responsabilidade com neoliberalismo. Por isso, é um despautério chamar Lula de neoliberal. Afora a política econômica e outros gatos pingados, seu governo escandaliza os apóstolos das idéias ditas neoliberais. Basta ver o dirigismo na infra-estrutura, a resistência à privatização, o desprezo pela autonomia das agências reguladoras e o anticapitalismo que permeia o governo, particularmente na política agrária.
O neoliberalismo, seja lá o que signifique para essas pessoas, surgiu nos anos 1970, em reação aos excessos da intervenção estatal na economia, vista como uma das principais causas da estagflação (fenômeno então inédito). A ala libertária pregava a redução drástica da ação do Estado, alegando que seu controle sobre a economia é indesejável, pois gera ineficiência e corrupção.
Os órfãos do falido socialismo real e os saudosistas do nacionalismo econômico desancaram o tal neoliberalismo. Seus seguidores seriam prisioneiros de um deus-mercado, adeptos do Estado mínimo, influenciados por doutrinas alienígenas, insensíveis aos problemas sociais e por aí afora.
Para júbilo dos críticos, o neoliberalismo ganhou uma face: o Consenso de Washington. Em artigo de 1989, o economista John Williamson sugeriu medidas a seu ver apropriadas para os países em desenvolvimento. Suas idéias - "prudência macroeconômica, liberalização microeconômica e orientação externa" - se contrapunham a déficits públicos, excessivo endividamento externo e confiança nos empreendimentos estatais, que caracterizavam a América Latina e explicavam a sua crise.
Em artigo de 2000, Fabio Giambiagi demoliu, um a um, os argumentos dos críticos. Mostrou que não procediam os ataques aos pontos básicos da política econômica: a política cambial, a abertura comercial, o tratamento ao capital estrangeiro, a privatização, a política monetária, a política fiscal e os gastos sociais.
As idéias do Consenso de Washington não eram novidade. Vinham sendo adotadas com sucesso no Chile, cujo governo socialista manteve a política econômica do regime militar. A esquerda chilena foi a primeira da América Latina a entender que a gestão macroeconômica não tem ideologia. Dos anos 1990 para cá, o Chile foi o país de maior crescimento na região.
Williamson se arrependeu do título dado às idéias e reconheceu que não atribuíra a importância devida às questões institucionais. Curiosamente, foi o Brasil, depois do Chile, quem melhor construiu instituições inibidoras de políticas econômicas irresponsáveis.
Na oposição, Lula condenava o que entendia como neoliberalismo. No governo, manteve prudentemente os rumos e assim contribuiu para a atual fase de estabilidade e prosperidade, cujas causas básicas são a boa gestão macroeconômica, reformas microeconômicas e os ganhos derivados dos preços das commodities que exportamos.
A inflação se manteve sob controle graças à autonomia operacional do Banco Central, à elevação dos superávits primários e à percepção, pelos mercados, de que o presidente é o fiador dessa auspiciosa realidade. Maior taxa de crescimento, redução das desigualdades e grau de investimento - que Lula comemora, com razão - são três dos mais importantes efeitos da política econômica que os críticos chamam de neoliberal. Apesar do esperneio, tudo indica que essas políticas terão continuidade nos próximos governos, até porque são expressão de atitudes responsáveis.
Os críticos enxergam nos EUA a pátria das idéias neoliberais. Por isso, comemoraram o seu fim, sem nenhuma razão. Ao contrário do que se tem dito, a ação do Federal Reserve para evitar a quebra do Bear Sterns não marca o fim do neoliberalismo nem significa que os americanos seguem políticas diferentes das que recomendavam para outros países. A medida constituiu uma decisão natural, guiada pelo interesse público, que há décadas faz parte do cardápio de qualquer banco central responsável, como ocorreu no caso do Proer brasileiro.
Em resumo, confunde-se responsabilidade com neoliberalismo. Por isso, é um despautério chamar Lula de neoliberal. Afora a política econômica e outros gatos pingados, seu governo escandaliza os apóstolos das idéias ditas neoliberais. Basta ver o dirigismo na infra-estrutura, a resistência à privatização, o desprezo pela autonomia das agências reguladoras e o anticapitalismo que permeia o governo, particularmente na política agrária.
A prosperidade não é o problema by Diogo Costa
Diqing Jiang saiu da China para fazer cursos de pós-graduação nos EUA. Hoje trabalha comigo em Washington. Na última virada do ano chinês, Diqing ligou para sua família. Fazia quatro anos que ele não visitava a China. "Vamos ter porco neste ano-novo, mãe?", perguntou ao telefone. Ele se lembrava de comer carne de porco apenas uma vez por ano. Mas as coisas haviam mudado: "Meu filho, agora podemos comer porco quando quisermos, não precisamos mais esperar o ano-novo." Diqing estava desatualizado. A China estava enriquecendo. Sua família estava enriquecendo. Prosperidade significa mais comida na mesa.
Mas o que Diqing vê como bênção é considerado por observadores internacionais uma espécie de maldição. O preço dos alimentos não pára de aumentar. Os jornais mostram fotos de protestos em diversos países, as famílias dos países ricos vêem seu poder aquisitivo diminuir e as dos países pobres sentem a fome apertar. O principal culpado, dizem especialistas dentro e fora do Brasil, é o aumento da renda per capita nos países do Sudeste Asiático. André Petry escreveu na revista Veja (28/5) que "o que ajudará a perpetuar o problema é o aumento do consumo de alimentos, sobretudo na China e na Índia".
Leitores de Shakespeare podem se lembrar de Lancelote em O Mercador de Veneza. Num diálogo com Jéssica, uma judia, sobre seu casamento com Lorenzo, um cristão, Lancelote ironiza que um maior número de judeus convertidos ao cristianismo aumentará o preço da carne de porco.
Os preços informam a relação de oferta e demanda sobre determinado produto. É verdade que uma expansão significativa da demanda mundial por alimentos eleva o preço desses produtos. Mas a história não acaba aí. Um aumento de preços cria incentivos para que recursos materiais e intelectuais sejam deslocados para saciar a nova demanda. Investe-se capital e implementam-se novas tecnologias para a produção de alimentos. No longo prazo, esse processo aumenta a produtividade - e os alimentos ficam mais baratos. Esse processo é o que o economista Julian Simon chamava de a história da economia agrícola.
O problema, portanto, não é o aumento da demanda. É o não-aumento da oferta. A demanda por computadores e carros aumentou nos últimos anos, mas esses produtos ficaram mais baratos. Uma investigação que pretenda solucionar o problema deve perguntar-se por que o ajuste da produção está tendo dificuldades para acompanhar o maior consumo de alimentos.
É aí que entram as perversas intervenções governamentais. Nos EUA, a política do etanol desviou a produção do milho para os tanques dos carros e aumentou o preço do cereal, mundialmente. Na Europa, os subsídios agrícolas - que chegam a US$ 53 bilhões anuais - fecham o mercado à competição dos agricultores de países em desenvolvimento, o que limita as possibilidades de avanço agrícola em diferentes partes do mundo. Em países pobres, uma terrível combinação de falta de infra-estrutura nas estradas, blitze que causam engarrafamentos intermináveis e impostos que encarecem técnicas de refrigeração e conservação de alimentos faz metade da comida se estragar antes que chegue ao consumidor. E ainda há as restrições ao livre-comércio. Metade de toda a comercialização mundial de arroz não é feita num ambiente de livre mercado, mas é administrada por conselhos políticos. Não surpreende, por isso, que apenas de 5% a 7% do arroz do mundo seja comercializado internacionalmente.
Restringir as exportações, como fizeram os governos da Rússia, Argentina e Índia, só piora o problema e torna ainda mais distante a existência de um livre mercado de produtos agrícolas. As conseqüências são óbvias. Imagine se os Estados brasileiros criassem tarifas para o comércio doméstico. Se o Rio Grande do Sul impusesse um imposto sobre o arroz exportado para a Bahia ou se o Rio de Janeiro cobrasse 30% de tarifa de toda a soja vinda de Mato Grosso, menos arroz e soja chegariam às prateleiras, e a um preço mais alto. É isso que as restrições comerciais fazem em escala mundial. Estima-se que a remoção de todas as barreiras comerciais enriqueceria o mundo em até US$ 2,6 trilhões por ano.
Uma demanda global de alimentos exige uma oferta global de alimentos. Países pobres e ricos devem abandonar as barreiras de importação e exportação que impedem a circulação de comida - e tornam múltiplas refeições um luxo, fazendo da nutrição um privilégio de poucos. O aumento do consumo mundial é o incentivo que move o progresso agrícola e permitiu que cada vez menos terra e trabalho fossem necessários para alimentar cada vez mais gente. A história do moderno mundo capitalista indica que, no longo prazo, com o aumento populacional, a comida fica mais barata, seja medida em relação ao preço do trabalho ou aos bens de consumo.
Essa é uma razão para vermos com bons olhos o aumento do consumo de alimentos no Continente Asiático. Mas não a principal. O maior motivo para comemorarmos esse aumento na demanda é pensar que milhões de pessoas podem comer, e comer melhor. Mais indianos já podem fazer duas refeições por dia. Os chineses não precisam mais se alimentar quase que exclusivamente de grãos. A família de Diqing não precisa esperar pela virada do calendário para comer carne de porco.
A prosperidade de milhões de seres humanos merece ser celebrada como uma conquista civilizacional de dimensões globais. São os obstáculos ao direito dos povos de comercializar livremente que devem ser condenados e demolidos. Os Lancelotes de nossa época estão errados. Em longo prazo, nem o cristianismo nem o capitalismo aumentam o preço da carne de porco.
Mas o que Diqing vê como bênção é considerado por observadores internacionais uma espécie de maldição. O preço dos alimentos não pára de aumentar. Os jornais mostram fotos de protestos em diversos países, as famílias dos países ricos vêem seu poder aquisitivo diminuir e as dos países pobres sentem a fome apertar. O principal culpado, dizem especialistas dentro e fora do Brasil, é o aumento da renda per capita nos países do Sudeste Asiático. André Petry escreveu na revista Veja (28/5) que "o que ajudará a perpetuar o problema é o aumento do consumo de alimentos, sobretudo na China e na Índia".
Leitores de Shakespeare podem se lembrar de Lancelote em O Mercador de Veneza. Num diálogo com Jéssica, uma judia, sobre seu casamento com Lorenzo, um cristão, Lancelote ironiza que um maior número de judeus convertidos ao cristianismo aumentará o preço da carne de porco.
Os preços informam a relação de oferta e demanda sobre determinado produto. É verdade que uma expansão significativa da demanda mundial por alimentos eleva o preço desses produtos. Mas a história não acaba aí. Um aumento de preços cria incentivos para que recursos materiais e intelectuais sejam deslocados para saciar a nova demanda. Investe-se capital e implementam-se novas tecnologias para a produção de alimentos. No longo prazo, esse processo aumenta a produtividade - e os alimentos ficam mais baratos. Esse processo é o que o economista Julian Simon chamava de a história da economia agrícola.
O problema, portanto, não é o aumento da demanda. É o não-aumento da oferta. A demanda por computadores e carros aumentou nos últimos anos, mas esses produtos ficaram mais baratos. Uma investigação que pretenda solucionar o problema deve perguntar-se por que o ajuste da produção está tendo dificuldades para acompanhar o maior consumo de alimentos.
É aí que entram as perversas intervenções governamentais. Nos EUA, a política do etanol desviou a produção do milho para os tanques dos carros e aumentou o preço do cereal, mundialmente. Na Europa, os subsídios agrícolas - que chegam a US$ 53 bilhões anuais - fecham o mercado à competição dos agricultores de países em desenvolvimento, o que limita as possibilidades de avanço agrícola em diferentes partes do mundo. Em países pobres, uma terrível combinação de falta de infra-estrutura nas estradas, blitze que causam engarrafamentos intermináveis e impostos que encarecem técnicas de refrigeração e conservação de alimentos faz metade da comida se estragar antes que chegue ao consumidor. E ainda há as restrições ao livre-comércio. Metade de toda a comercialização mundial de arroz não é feita num ambiente de livre mercado, mas é administrada por conselhos políticos. Não surpreende, por isso, que apenas de 5% a 7% do arroz do mundo seja comercializado internacionalmente.
Restringir as exportações, como fizeram os governos da Rússia, Argentina e Índia, só piora o problema e torna ainda mais distante a existência de um livre mercado de produtos agrícolas. As conseqüências são óbvias. Imagine se os Estados brasileiros criassem tarifas para o comércio doméstico. Se o Rio Grande do Sul impusesse um imposto sobre o arroz exportado para a Bahia ou se o Rio de Janeiro cobrasse 30% de tarifa de toda a soja vinda de Mato Grosso, menos arroz e soja chegariam às prateleiras, e a um preço mais alto. É isso que as restrições comerciais fazem em escala mundial. Estima-se que a remoção de todas as barreiras comerciais enriqueceria o mundo em até US$ 2,6 trilhões por ano.
Uma demanda global de alimentos exige uma oferta global de alimentos. Países pobres e ricos devem abandonar as barreiras de importação e exportação que impedem a circulação de comida - e tornam múltiplas refeições um luxo, fazendo da nutrição um privilégio de poucos. O aumento do consumo mundial é o incentivo que move o progresso agrícola e permitiu que cada vez menos terra e trabalho fossem necessários para alimentar cada vez mais gente. A história do moderno mundo capitalista indica que, no longo prazo, com o aumento populacional, a comida fica mais barata, seja medida em relação ao preço do trabalho ou aos bens de consumo.
Essa é uma razão para vermos com bons olhos o aumento do consumo de alimentos no Continente Asiático. Mas não a principal. O maior motivo para comemorarmos esse aumento na demanda é pensar que milhões de pessoas podem comer, e comer melhor. Mais indianos já podem fazer duas refeições por dia. Os chineses não precisam mais se alimentar quase que exclusivamente de grãos. A família de Diqing não precisa esperar pela virada do calendário para comer carne de porco.
A prosperidade de milhões de seres humanos merece ser celebrada como uma conquista civilizacional de dimensões globais. São os obstáculos ao direito dos povos de comercializar livremente que devem ser condenados e demolidos. Os Lancelotes de nossa época estão errados. Em longo prazo, nem o cristianismo nem o capitalismo aumentam o preço da carne de porco.
Sunday, June 29, 2008
A boçalidade dos aiatolás das proibições by Reinaldo Azevedo
A boçalidade dos aiatolás das proibições
Today, June 29, 2008, 4 hours ago | noreply@blogger.com (Reinaldo Azevedo)
A lei que pode cassar a carta de motorista, com multa de quase R$ 1 mil, de quem tomar uma taça de vinho ou uma lata de cerveja é uma boçalidade. Coisa típica de país em que as leis são flagrantemente desrespeitadas pelos próprios governantes, que dividem o seu reinado com o crime organizado, mas que decidem ser draconianos com o cidadão comum. Abstenho-me de perguntar se Lula e Roberto Teixeira estavam sóbrios quando discutiam o caso Varig, por exemplo. Até porque tenho certeza: sim, eles estavam.
Não há nada que possamos fazer bêbados que Lula e Teixeira não façam muito pior estando sóbrios.
Será que estou aqui a defender que as pessoas saiam barbarizando por aí, já que o país, no ponto de vista legal, está se transformando num lupanar — para usar vocábulo acima da linha da cintura, embora a palavra designe o que vai abaixo? É claro que não. Apenas sustento que é uma estupidez impor limites tão baixos para o consumo, o que coloca o país entre os mais restritivos do mundo.
Como foi tomada essa decisão? Quais são os números? Há casos de acidentes graves no trânsito provocados por quem tomou uma lata de cerveja apenas? Ou uma taça de vinho? Duvido. É rigidez de país bananeiro — que contou, no caso, com a soma de várias militâncias da estupidez e do obscurantismo pseudo-humanistas. E reitero: que a lei seja dura, sim. Mas para punir o alcoolismo no trânsito.
Obscurantismos
Os lobistas da droga devem estar felizes a esta altura, não? A lei já lhes faculta carregar um fuminho apenas para seu consumo. No máximo, o sujeito leva um pito. Se, numa festa, o valente fumar maconha até ficar com os olhos esgazeados ou cheirar pó até eles ficarem vidrados, nada a temer: pode soprar o canudo, que a passagem está livre. É um homem de bem. Perigoso é o pobre contador que vem atrás, coitado, ou um gerente de banco: tomaram uma cerveja... Como é mesmo? “Dançou, playboy!”. Ah, sim: também dá pra mandar ver no ecstasy. O viciado tem até direito a bebedouro, garantido por lei. É um despropósito!
Alguns idiotas, proxenetas do onguismo que pretende nos sufocar com seus carinhos — embora, de fato, encham de dinheiro os seus bolsinhos —, acusam o lobby da indústria da bebida de ser contra isso ou aquilo. Eu quero que o lobby da bebida, do fumo ou das comidas que engordem se dane. O que acho insuportável é esta, com vou chamar?, “medicalização” da cultura, que nos transforma a todos em menores idiotizados, estupidificados pela suposta desinformação, dependentes de que o papai estado venha nos dizer: “Não fume, não beba, não consuma calorias, não isso, não aquilo... Nós só queremos o seu bem”.
Alguém poderia dizer: “Curioso, Reinaldo! Por que fazem o contrário com o sexo, botando máquinas de camisinha nas escolas?” Não há contradição nenhuma, mas coerência na estupidez. A “camisinha” também é a transformação do sexo apenas em questão médica: “Encape o bicho, e aí tudo é permitido”. Em qualquer caso, trata-se de diminuir o espaço da arbitragem individual.
A única nota algo dissonante nessa cruzada dos aiatolás da saúde é a tolerância com as drogas — e até o estímulo ao consumo. Mas até ela se explica se formos fazer a genealogia dessas “idéias purificadoras”: os “inteliquituais” dessa nova cultura são caudatários daquele tempo em que elas contestavam o “sistema”, entendem? Não beber, não fumar, não consumir gorduras, tudo isso é uma variante contemporânea daquela “contestação”. Não por acaso, acusam-se os lobbies de fazer pressão contra as proibições por razões “puramente de mercado”. Há uns idiotas achando que, assim, ajudam a combater o capitalismo.
Não deixa de irônico
No fim das contas, isso tudo não deixa de ser irônico — e olhem que não dirijo; a lei nem me atinge pessoalmente. Já aconteceu de eu me dizer católico aqui e ali, e as pessoas me olharem como se eu fosse um ET. Algumas me vêem até com certa piedade. Outros desandam a falar de sua vida venturosa, tão plena daquelas alegrias que, para uma pobre vítima do Vaticano, estariam vedados. Porque vocês sabem, não? Católicos ficam vendo pecado em tudo, torturando-se diante de qualquer prenúncio de prazer, mortificando-se... Ou, então, hipócritas que somos, caímos em tentação para rezar uma penca de ave-marias depois.
Quem diria, não? Estou começando a me sentir permissivo diante do triunfo dessa nova religião. Daqui a pouco, teremos de rezar algumas vezes por dia com a cabeça voltada para o Ministério da Saúde: sem fumar, sem beber, sem consumir gorduras, prontos para, com o sangue limpinho, ser sugados pelos mosquitos de José Gomes Temporão.
Estatísticas enganosas
Caso se espalhem alguns milhares ou milhões de bafômetros e se imponha o terror, é bem possível que caia o número de acidentes provocados por ingestão de álcool. É que os realmente embriagados terão sido tirados de circulação. E os idiotas dirão então: “Estão vendo? A lei foi eficaz”.
Ela foi eficaz porque pegou os bêbados — o que se pode fazer com uma lei mais racional —, não porque agrediu os nossos direitos e diminuiu a nossa joie de vivre
Today, June 29, 2008, 4 hours ago | noreply@blogger.com (Reinaldo Azevedo)
A lei que pode cassar a carta de motorista, com multa de quase R$ 1 mil, de quem tomar uma taça de vinho ou uma lata de cerveja é uma boçalidade. Coisa típica de país em que as leis são flagrantemente desrespeitadas pelos próprios governantes, que dividem o seu reinado com o crime organizado, mas que decidem ser draconianos com o cidadão comum. Abstenho-me de perguntar se Lula e Roberto Teixeira estavam sóbrios quando discutiam o caso Varig, por exemplo. Até porque tenho certeza: sim, eles estavam.
Não há nada que possamos fazer bêbados que Lula e Teixeira não façam muito pior estando sóbrios.
Será que estou aqui a defender que as pessoas saiam barbarizando por aí, já que o país, no ponto de vista legal, está se transformando num lupanar — para usar vocábulo acima da linha da cintura, embora a palavra designe o que vai abaixo? É claro que não. Apenas sustento que é uma estupidez impor limites tão baixos para o consumo, o que coloca o país entre os mais restritivos do mundo.
Como foi tomada essa decisão? Quais são os números? Há casos de acidentes graves no trânsito provocados por quem tomou uma lata de cerveja apenas? Ou uma taça de vinho? Duvido. É rigidez de país bananeiro — que contou, no caso, com a soma de várias militâncias da estupidez e do obscurantismo pseudo-humanistas. E reitero: que a lei seja dura, sim. Mas para punir o alcoolismo no trânsito.
Obscurantismos
Os lobistas da droga devem estar felizes a esta altura, não? A lei já lhes faculta carregar um fuminho apenas para seu consumo. No máximo, o sujeito leva um pito. Se, numa festa, o valente fumar maconha até ficar com os olhos esgazeados ou cheirar pó até eles ficarem vidrados, nada a temer: pode soprar o canudo, que a passagem está livre. É um homem de bem. Perigoso é o pobre contador que vem atrás, coitado, ou um gerente de banco: tomaram uma cerveja... Como é mesmo? “Dançou, playboy!”. Ah, sim: também dá pra mandar ver no ecstasy. O viciado tem até direito a bebedouro, garantido por lei. É um despropósito!
Alguns idiotas, proxenetas do onguismo que pretende nos sufocar com seus carinhos — embora, de fato, encham de dinheiro os seus bolsinhos —, acusam o lobby da indústria da bebida de ser contra isso ou aquilo. Eu quero que o lobby da bebida, do fumo ou das comidas que engordem se dane. O que acho insuportável é esta, com vou chamar?, “medicalização” da cultura, que nos transforma a todos em menores idiotizados, estupidificados pela suposta desinformação, dependentes de que o papai estado venha nos dizer: “Não fume, não beba, não consuma calorias, não isso, não aquilo... Nós só queremos o seu bem”.
Alguém poderia dizer: “Curioso, Reinaldo! Por que fazem o contrário com o sexo, botando máquinas de camisinha nas escolas?” Não há contradição nenhuma, mas coerência na estupidez. A “camisinha” também é a transformação do sexo apenas em questão médica: “Encape o bicho, e aí tudo é permitido”. Em qualquer caso, trata-se de diminuir o espaço da arbitragem individual.
A única nota algo dissonante nessa cruzada dos aiatolás da saúde é a tolerância com as drogas — e até o estímulo ao consumo. Mas até ela se explica se formos fazer a genealogia dessas “idéias purificadoras”: os “inteliquituais” dessa nova cultura são caudatários daquele tempo em que elas contestavam o “sistema”, entendem? Não beber, não fumar, não consumir gorduras, tudo isso é uma variante contemporânea daquela “contestação”. Não por acaso, acusam-se os lobbies de fazer pressão contra as proibições por razões “puramente de mercado”. Há uns idiotas achando que, assim, ajudam a combater o capitalismo.
Não deixa de irônico
No fim das contas, isso tudo não deixa de ser irônico — e olhem que não dirijo; a lei nem me atinge pessoalmente. Já aconteceu de eu me dizer católico aqui e ali, e as pessoas me olharem como se eu fosse um ET. Algumas me vêem até com certa piedade. Outros desandam a falar de sua vida venturosa, tão plena daquelas alegrias que, para uma pobre vítima do Vaticano, estariam vedados. Porque vocês sabem, não? Católicos ficam vendo pecado em tudo, torturando-se diante de qualquer prenúncio de prazer, mortificando-se... Ou, então, hipócritas que somos, caímos em tentação para rezar uma penca de ave-marias depois.
Quem diria, não? Estou começando a me sentir permissivo diante do triunfo dessa nova religião. Daqui a pouco, teremos de rezar algumas vezes por dia com a cabeça voltada para o Ministério da Saúde: sem fumar, sem beber, sem consumir gorduras, prontos para, com o sangue limpinho, ser sugados pelos mosquitos de José Gomes Temporão.
Estatísticas enganosas
Caso se espalhem alguns milhares ou milhões de bafômetros e se imponha o terror, é bem possível que caia o número de acidentes provocados por ingestão de álcool. É que os realmente embriagados terão sido tirados de circulação. E os idiotas dirão então: “Estão vendo? A lei foi eficaz”.
Ela foi eficaz porque pegou os bêbados — o que se pode fazer com uma lei mais racional —, não porque agrediu os nossos direitos e diminuiu a nossa joie de vivre
Friday, June 27, 2008
Indivíduos, não manada by Reinaldo Azevedo

Today, June 27, 2008, 9 hours ago | noreply@blogger.com (Reinaldo Azevedo)
Vocês sabem, não? 99,4% do nosso material genético é igualzinho ao dos chimpanzés. Assim, há, é inegável, um macaco em nós. É um tanto assustador que tenhamos feito todo o resto só com 0,6%... É nessa parte ínfima que está o ser que pondera. A esmagadora maioria do que vai no nosso íntimo ainda sobe em árvore e faz cocô na cabeça alheia, pratica canibalismo, infanticídio, assalto em bando... Isto mesmo: bando é coisa de chimpanzé. Eu tenho horror a bando. Só os indivíduos na sua singularidade me interessam.
É por isso, por exemplo, que acho que o estado deve ser contido e vigiado pelo indivíduo, e não o contrário, como ocorre costumeiramente. Sim, o meu ideal político — e dizem que isso é ser de direita — é ter um estado cada vez menor e um espaço cada vez maior para a arbitragem individual. Dou um exemplo: faz sentido proibir cigarro em restaurante? Faz. Num restaurante de não-fumantes, sim. Mas por que não pode haver um outro para fumantes? Sei, cigarro predispõe ao câncer. No limite extremo, as pessoas têm o direito de optar por isso, por mais estranho que a muitos possa parecer. Ter de vir o estado para determinar: “É proibido fumar em local fechado”, sem abrir a brecha para seres privados fumarem em locais privados, previamente combinados, é uma estupidez da tentação legiferante.
“Ah, mas você é contra a descriminação das drogas no Brasil”. Sim, sou. Mas não posso ser contrário a que a pessoa decida cheirar cocaína até virar uma uva passa, ainda que eu ache que ela não deva fazê-lo. O que eu tenho com isso? No que respeita à organização social, no entanto, a minha restrição é de outra natureza: o Brasil não pode fazer tal opção sozinho. E, como não pode, a comercialização de determinadas substâncias constitui crime e é a base que financia o chamado “crime organizado”. Assim, é inescapável considerar que optar por consumir cocaína ou maconha faz do consumidor um elo da cadeia criminosa. E, segundo cá o meu tribunal, o certo seria que respondesse por isso.
Mas não quero que essa questão da droga — falo dela porque é recorrente — contamine o espírito do texto: ser contra a manada. As imposições politicamente corretas mundo afora (com maior determinação no Brasil) fazem justamente isto: tiram do indivíduo o direito à arbitragem e tentam, o que é grave, perigoso, cassar o direito à opinião. Peguemos o tal projeto que criminaliza a chamada “homofobia”: ora, as leis já punem a discriminação de homossexuais. Ir além disso, tentando policiar a linguagem, é avançar no arbítrio individual. “Ah, e se o sujeito pregar a organização de hordas para intimidar homossexuais?”. Bem, aí é crime — ou melhor: isso já é crime.
O mesmo vale para publicações desta ou daquela natureza. Alguns militantes islâmicos que hoje acusam a existência de “islamofobia” no mundo acham perfeitamente aceitável que sua religião persiga um escritor acusado de... ofender o Islã! E o que é, afinal, que ofende o Islã? Bem, só sendo islâmico para sabê-lo. Aí não dá. Devemos nos subordinar a eles? Eu acho que não. Como acho uma bobagem que se proíba a publicação de Mein Kampf, dos Protocolos ou de livros que neguem o Holocausto. Negar pode: não pode é se organizar em hordas — ou pregar tal organização — para perseguir judeus. Peguem o caso do delinqüente Mahmoud Ahmadnejad, presidente do Irã: ele afirma que o fato de alguns países ocidentais proibirem a publicação de livros revisionistas é exemplo de que a revisão faz sentido...
O espírito da democracia está contido na máxima de Tocqueville de que os males da liberdade se corrigem com mais liberdade — desde que, é claro, você não permita que grupos organizados solapem as bases do sistema que supõe a convivência entre as diferenças. Não posso corrigir o mal do terrorismo com mais liberdade ao terror, por exemplo: afinal, ele não pretende dialogar com o “outro”, mas eliminá-lo. Então, do ponto de vista da democracia, trata-se de um mal essencial.
Tenho horror a isso que chamo espírito de manada — ainda que uma manada pequena, minoritária. Faço uma brincadeira com Fernando Pessoa, assim: “Como sou Rei(naldo) absoluto da minha simpatia, basta que ela exista para que tenha razão de ser”. Não é uma apologia da incoerência, mas do individualismo.
Sou, por exemplo, católico e compreendo que os católicos considerem pecanimosa a prática homossexual. Na sua Igreja, têm todo o direito de criar obstáculos à admissão de homossexuais na hierarquia — embora a tarefa, convenham, ande um tanto difícil, não é mesmo? Mas eles existem na sociedade — constituem, desde sempre, uma parcela da humanidade —, e são seres de direito. Têm de estar abrigados pelas leis como qualquer um de nós. Sou contra o tal projeto que pune a homofobia porque o considero autoritário e contraproducente, já disse as razões, não porque, como asseguram alguns apocalípticos, os gays estão tomando conta do mundo. Isso é de uma tolice sem tamanho. Daqui a pouco vai ter gente dizendo que os sodomitas são culpados pelos terremotos. Qual é...
Aí um católico bravo comigo — ele até decidiu me excomungar; será que já virou papa? — afirma estar muito decepcionado; segundo ele, Deus ama o homossexual desde que este não pratique o ato nefando. Não vou entrar no mérito religioso da consideração, que daria pano pra manga, e prefiro me ater à questão, digamos, puramente civil: acho absurda a proposição que condene alguém à solidão Ela me parece muito pouco amorosa. E isso nada tem a ver com a pletora de tolices que se dizem por aí sobre as virtudes do “fim da família tradicional” e outras bobagens para alimentar publicações ligeiras, de entretenimento.
O que eu não quero é o estado vigiando e determinando o que posso dizer ou não, o que posso pensar ou não, o que posso fazer ou não. Precisamos, sim, de uma Constituição que garanta a todos a igualdade perante as leis e que assegure, vejam só, o direito às desigualdades — porque somos desiguais. Se e quando grupos organizados ameaçarem o direito à igualdade legal, então é correto e desejável que o estado se faça presente, por meio da Justiça, para restaurar esse direito agravado.
Mas calma lá. É preciso tomar muito cuidado com o “estado sábio”, dotado de suposta neutralidade moral, que venha nos dizer o que é e o que não é saudável PENSAR.
ESSE MUNDO CHAMADO JOÃO by Daniel Piza

O ano de 1956 foi marcante para o Brasil. Foi o ano em que Juscelino Kubitschek tomou posse e Oscar Niemeyer fez seu primeiro prédio em Brasília; em que o movimento concretista despontou em São Paulo, cinco anos depois da exposição do escultor suíço Max Bill na Bienal de Arte; em que João Cabral de Melo Neto publicou Duas Águas, volume que continha os inéditos Uma Faca só Lâmina e Morte e Vida Severina, e Clarice Lispector terminou seu romance A Maçã no Escuro; em que Tom Jobim começou a compor as canções de Orfeu da Conceição com o poeta, crítico e diplomata Vinicius de Moraes; em que Pelé, com apenas 15 anos, iniciou sua carreira no Santos; e em que muitos mais eventos ajudariam a dissipar a modorra pessimista cujo maior sintoma tinha sido o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Porém, 1956 seria, acima de tudo, o “annus mirabilis” de João Guimarães Rosa, com a publicação em janeiro de Corpo de Baile e em maio de Grande Sertão: Veredas, este sua obra-prima, a obra-prima da literatura brasileira no século XX.
Guimarães Rosa, que nasceu em 27 de junho de 1908, cerca de três meses antes da morte de Machado de Assis, e morreria em 19 de novembro de 1967, havia dez anos não publicava livro nenhum. Mas isso nada queria dizer. Ou melhor, queria dizer que ele estava trabalhando muito, nas sete novelas que compõem Corpo de Baile e no monumental romance de mais de 600 páginas Grande Sertão: Veredas. Afinal, em Sagarana (1946) havia conscientemente atingido a voz que desejava para sua literatura, uma dicção de fábula crítica que mescla o regional e o universal. Devemos, portanto, comemorar também os 60 anos de Sagarana, livro aclamado que Rosa também levara dez anos para publicar desde que escreveu seus primeiros contos. Antes dele, lançara apenas Magma, em 1936, coletânea premiada de poemas que, no entanto, lida hoje, revela apenas o quanto sua prosa é que liberou sua poesia.
Naquele decênio a vida de Rosa foi agitada. Diplomata, foi nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura em 1946 e enviado a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz, que decidiria o mapa geopolítico depois da Segunda Guerra. Em 1948, foi enviado à Conferência Panamericana em Bogotá, a qual traria importantes avanços na legislação sobre direitos humanos e políticos. Em seguida voltaria a Paris como primeiro secretário e conselheiro da embaixada, ficando lá até 1951, quando novamente se estabeleceu no gabinete de Fontoura no Rio de Janeiro. Mas a preocupação principal de Rosa era com a literatura. Ainda quando estudante de Medicina em Belo Horizonte, na segunda metade dos anos 20, passava boa parte do tempo escrevendo contos, alguns dos quais enviou à revista O Cruzeiro e foram premiados. Depois, soldado na Revolução Constitucionalista de 1932 e oficial-médico da infantaria em Barbacena, também não desperdiçava tempo livre e escrevia seus contos e poemas. Além disso, aprender línguas era seu maior prazer.
A decisão de concorrer ao Itamarati em 1934, portanto, fazia sentido. Rosa, que passou em segundo lugar, falava fluentemente inglês, francês, espanhol, italiano e alemão, além de ler em latim e grego. (Mais tarde, aprendeu a ler também em russo, para ler Dostoievski; em chinês, para ler Confúcio; em árabe, para ler As Mil e Uma Noites; em dinamarquês, para ler Kierkegaard; e outras.) O conhecimento da língua e da literatura alemãs – de Goethe, Thomas Mann, Robert Musil, Kafka, Rilke, Freud – teria a chance de aprimorar em Hamburgo, seu primeiro posto no exterior, como cônsul-adjunto, a partir de 1938. Em 1942, quando Getúlio Vargas se bandeou para o outro lado e o Brasil rompeu com a Alemanha, Rosa, que ajudou a fuga de alguns judeus, chegou a ficar um período internado em Baden-Baden, ao lado do pintor Cícero Dias. No mesmo ano voltou ao Brasil e foi enviado a Bogotá como secretário da embaixada. Lá seguiria até a nomeação por Fontoura.
Numa conversa com o crítico Günter Lorenz, em 1965, Rosa chamaria essa sucessão de carreiras como um paradoxo: “Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte”. Quanto ao diplomata, definiu como “sonhador” que tenta consertar o que os políticos estragaram. Rosa disse mais: disse que esses valores constituem a espinha dorsal de Grande Sertão. Foram as experiências que formaram seu “mundo interior”. Mas acrescentou: “Também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas”. Diante dos comentários de Lorenz sobre seu dom para os idiomas, Rosa preferiu a ênfase nos cavalos e nas vacas. “Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros.” E contou que, quando ouvia alguém narrar uma tragédia, dizia: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo”. A erudição de Rosa ia dos clássicos do português arcaico ou da literatura persa aos cavalos e às vacas – e de tudo ele aprendia alguma coisa.
Um momento marcante na vida de Rosa, que dizia que um homem não deve separar biografia e obra, foi uma viagem de dez dias pelo norte mineiro em 1952, acompanhando uma vaquejada nas imediações do rio São Francisco, onde anotou cantos, anedotas, prosódias, nomes da fauna e da flora e verificou de novo que o “homem do sertão” – expressão que preferia a “sertanejo” – é um “fabulista por natureza”. Rosa se dizia um homem do sertão, “meio vaqueiro”, pelo mesmo motivo. Sua maior ambição era conjugar poesia e realidade, e foi nas sagas e lendas – poemas escritos pela vida, não por técnicas ortodoxas – que encontrou seu material criativo. Pelo mesmo motivo dizia não ser um romancista, mas um autor de contos, de histórias morais, de aventuras com implicações metafísicas. Mesmo Grande Sertão, afirmava, é um conto, ou uma fusão deles. Com isso, estava querendo dizer que não era um ficcionista preocupado em descrever costumes e cotidianos, preso como um Zola ao que é contingente, efêmero, superficial.
Na sua definição de homem do sertão, assim, cabem muitos exemplos: Goethe, Dostoievski, Tolstoi, Balzac e Flaubert “nasceram no sertão”. E por quê? Porque conhecem os vazios da alma, os descampados do mundo, e são, no fundo, solitários. “O sertão é o terreno da eternidade, da solidão”, diz ele. “O sertão é dentro da gente.” Em outra passagem: “Este pequeno mundo do sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, o modelo de meu universo.” É no sertão que se depara abertamente com os paradoxos desse universo, com seus mistérios traduzidos em realidade. E isso se manifesta no uso da língua: “O idioma é a única porta para o infinito”; “Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço do infinito”; “Tudo é a ponta de um mistério”; “Ah, a dualidade das palavras!”. A própria existência da palavra – signo e coisa ao mesmo tempo – é paradoxal. E por isso cada uma delas, como recomendava nas cartas a seus tradutores Curt Meyer-Clason e Edoardo Bizzarri, deve trazer “algo de meditação ou aventura”. Tal como no homem do sertão, ação e especulação se mesclam, se confundem, se enriquecem mutuamente.
É importante notar que Rosa também diz que Riobaldo não pode ser confundido com Fausto e Raskolnikov, embora Goethe e Dostoievski sejam sertanistas. “Riobaldo é mundano demais para ser místico, místico demais para ser Fausto.” Sobre Raskolnikov, disse que Riobaldo não é culpado como ele, embora tenha uma culpa a expiar. Assim, o sertão é universal entre grandes escritores, mas cada um tem sua expressão. O sertão de Rosa – o sertão dos “gerais”, dos buritis e vaqueiros, do rio São Francisco, na fronteira entre cerrado e semi-árido – é peculiar. Nele o escritor vê outro modelo de universo, não fundado sobre a oposição entre misticismo e mundanidade, tampouco entregue ao sentimento de culpa. É um sertão que, como o jacaré ou o pai do conto A Terceira Margem do Rio, navega “de meio a meio”, entre duas margens, para tentar encontrar a felicidade na solidão.
Rosa chamou Corpo de Baile de um “ciclo de novelas”. Por isso elas ganharam um volume só quando do seu lançamento em janeiro de 1956. A partir da terceira edição, em 1964, ele foi desdobrado em três títulos: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão. O que os harmoniza é um tom mais lírico e afetivo do que se encontrara em Sagarana (especialmente em A Hora e Vez de Augusto Matraga, seu conto mais importante) e se encontraria em Grande Sertão. Manuelzão e Miguilim, por exemplo, tem Campo Geral, chamado de “poema” pelo autor: a história da infância “triste-contente” de Miguilim, a qual tem óbvios elementos autobiográficos como a famosa cena em que o menino, míope, põe os óculos e passa a descobrir um mundo bem mais nítido, a exemplo do ocorrido com João na Cordisburgo (palavra que, roseamente, contém “coração” e “cidade”, a simbolizar os paradoxos de sua literatura) onde viveu até os dez anos.
Em Noites do Sertão há cantos de amor e de natureza que ainda são subvalorizados pela crítica. Veja como Rosa descreve o vôo de um picapau em Buriti, uma das duas histórias (a outra é Dão-Lalalão): “passava um picapau-da-cabeça-vermelha, em seu vôo de arranco: que tatala, dando impulso ao corpo, com abas asas, ganha velocidade e altura, e plana, e perde-as, de novo, e se dá novo ímpeto, se recobra, bate e solta, bate e solta, parece uma diástole e uma sístole – um coração na mão –; já atravessou o mundo”. Não é à toa que o título do volume original nos faz pensar numa dança de palavras.
Já O Recado do Morro, em No Urubuquaquá, no Pinhém, tem um enredo simples e forte, sobre um homem, Pedro Orósio, o Pê-Boi, que durante a expedição de um naturalista alemão pelo sertão profundo é avisado de que será vítima de uma emboscada de traidores. Mas são curiosas as maneiras pelas quais lhe chega o alerta. Um velho eremita, Gorgulho, diz ter recebido do Morro da Garça (nomes que sugerem uma associação entre solidão, fala, orgulho e graça) o recado que transmite a mensageiros como o menino Joãozezim e o louco Nominedômine. Ele também passa por uma cantiga de rua e pela balada do poeta Laudelim, a qual Pê-Boi, alegre e bêbado, começa a cantar na festa que seria a da reconciliação. O recado de Rosa é claro: é pelo espectro da arte, da intuição e da natureza que vem a preservação da vida. Como ele disse a Lorenz: “O amor é sempre ilógico, mas cada crime é cometido segundo as leis da lógica”. Isso não significa, porém, que Rosa defendesse o irracionalismo. Como sugere a novela, ele queria uma parceria entre lógica e música, para que o homem não fizesse do raciocínio uma arma de desumanidade.
É por aí também que se deve ler Grande Sertão: Veredas, publicado em maio de 1956. Muitas pessoas têm dificuldade com o livro, pelo tamanho e pela linguagem. O melhor a fazer é, primeiro, passar por Sagarana e por pelo menos algumas histórias de Corpo de Baile, como as citadas. Depois, ao chegar a Grande Sertão, é persistir. Como toda poesia, a vontade de ler em voz alta é grande; tente com um sotaque levemente amineirado e um ritmo mais acelerado que o normal, e assim você achará a prosódia. A preocupação de Rosa com a oralidade é enorme, embora o uso de alguns sinais gráficos, com destaque para os dois pontos, possa às vezes não parecer. Não se preocupe, nessa leitura inicial, em entender toda expressão que desconhece. Com isso, verá que o texto flui e muito – com uma inesgotável oferenda de cenas, personagens, sons, imagens e pensamentos.
A narrativa toda é uma fala, as reminiscências de Riobaldo contadas por ele como uma série de causos a um interlocutor não identificado. Ele conta como pertenceu a bandos de jagunços e chegou a ser chefe, conhecido pelos outros como “Lagarta de Fogo” por sua pontaria certeira. Aí conhecemos personagens como Zé Bebelo, que o apadrinha, Hermógenes, que encarna o diabo, e Joca Ramiro, homem “de três alturas”. E ouvimos sua história com Reinaldo, filho de Ramiro, que deseja vingar o pai. Naquele mundo em que os homens se dividem entre ser jagunços e padres, e em que é preciso ter “dura nuca e mão quadrada” para sobreviver, Riobaldo narra sua atração física por Reinaldo, sem saber que na verdade se trata de uma moça, Diadorim. Este é o núcleo dramático da história.
Essa história já foi analisada por críticos de todas as vertentes em paralelo com outras de vários autores, como Goethe e Joyce (de quem Rosa não gostava, por ser “cerebral” demais), mas há uma aproximação subestimada com as tragédias gregas. Afinal, Riobaldo é como Édipo, ignorante em seu desejo, e só verá a verdade depois de uma catástrofe – a morte de Diadorim em luta com Hermógenes. E ela é como uma Electra, obrigada por dever filial a cumprir um código social (o pai anunciou seu nascimento como de um filho varão, portanto destinado a sucedê-lo no comando) e a esconder seu sentimento amoroso. Outros elementos – como o episódio do menino que é confundido com macaco e comido pelos jagunços no Suçuarão, o deserto que embaça a visão e se parece com o Tártaro, o inferno dos gregos – remetem diretamente ao drama clássico e a suas peripécias.
Riobaldo, ao mesmo tempo, é um protagonista moderno, em cujo fluxo de consciência somos mergulhados. Seu nome já indica a contradição do sertão, entre rio e vazio, assim como Diadorim ressoa a dilema, dicotomia, e a nome de pássaro, sempre prestes a voar. “Vaqueiro pode laçar o lugar do ar?”, pergunta Riobaldo. Sem conseguir capturar a natureza do que sente, ele é “o homem feito sertão”, na expressão de Rosa a Lorenz. E nesse sertão o diabo está “na rua, no meio do redemunho”, e não num plano superior ou inferior. Em Rosa tudo se mistura: infinito e circunstancial, cheio e vazio, interior e exterior, deus e diabo, erudito e popular, poesia e prosa, universal e local, cerebral e cordial, meditação e aventura. É interessante, por isso mesmo, notar que ele recusou o rótulo de “realismo mágico” ou “fantástico”, aplicado nos anos 60 a outros grandes autores latino-americanos como Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez ou Mario Vargas Llosa. Não há em sua literatura a intervenção de espíritos reencarnados. Ele é místico, não esotérico, e místico de um tipo especial, de uma “metafísica particular”.
Essa metafísica particular, para ele, se cria a partir de uma única coisa: a língua. Não se confunda com linguagem, à maneira de seus leitores concretistas e formalistas. Rosa quer a língua viva, rica, em transformação contínua, não um conjunto de regras; um processo, não um procedimento. E, ao mesmo tempo que diz que a língua brasileira (a língua portuguesa como praticada no Brasil) lhe interessa por não ser saturada e que a quer purificar, incorpora recursos dos diversos outros idiomas que dominava. Para ele, à maneira de um Heidegger (mas sem as conseqüências doutrinárias de sua filosofia), cada idioma tem uma verdade interior, que só ele mesmo pode alcançar, e portanto é intraduzível. Para ajudar o idioma brasileiro a revelar sua verdade interior, sua “brasilidade” – indefinível, porém inconfundível –, Rosa pegou emprestados recursos dos outros, principalmente do alemão e do grego (palavras compostas, substantivação), para melhor uso das riquezas etimológicas de sua própria língua. É como se o português fosse maleável ao máximo.
Daí a mescla de sons maviosos com sons estranhos em sua prosa; sua capacidade de ir dos diminutivos mais afetivos (passarim) aos polissílabos mais sofisticados (alumbramento); seu gosto por adjetivos em que o som remete ao sentido (resvaloso) e por substantivos que derivam de verbo (rinchar); seu uso de advérbios, sem medo da extensão (pertencidamente), ao lado de expressões populares (“arre, o senhor mire e veja”) e proverbiais (“Tudo foi um ão e um cão”); seu emprego recorrente de palavras que afirmam pela negativa e vice-versa (deslembra); suas definições metafóricas, extraídas de exemplos da natureza, para sentimentos como o amor (“o sol entrado”); o índice maior de consoantes (pralaprá) e conectivos (“Quê que quer, ele era mais forte!”) em seu texto; a alternância de períodos longos e curtos. Ele explora todas as possibilidades da língua, ou melhor, ele as expande, com uma determinação que se pode dizer fundadora, embora – num paradoxo que ele mesmo apreciaria – calcada em suas origens mais antigas. O arcaico e o moderno, eis mais uma mistura roseana. “Acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos.”
É importante notar que essa determinação de Rosa pode, sim, ser associada à sua visão de Brasil. Para ele, Riobaldo era um símbolo do país, de sua eterna indefinição entre pólos, e no entanto dessa mesma indefinição é que poderia nascer a felicidade. Uma vez expiada sua culpa – a suposta culpa de ter feito pacto com um diabo que não existe –, ele goza de uma tranqüilidade, como diz ao interlocutor, e nisso está a diferença para com as tragédias gregas. O fato é que, para entender isso, precisou passar por provações e frustrações como as que passou. Só haveria felicidade na solidão, na prudência que nasce do coração e impede que o homem perca a sinceridade e a paz. Por isso mesmo Rosa não gostava que o chamassem de barroco, pois o sentido de sua aspiração não é para cima, não vai na direção de uma redenção. “O diabo não existe, por isso ele é tão forte” era seu provérbio sertanejo favorito. Riobaldo, diz ele, está além do bem e do mal no momento em que narra sua história.
Essa noção do que seria o Brasil para Rosa, a propósito, andou causando polêmica nos meios acadêmicos, simbolizada pela diferença entre os estudos recentes de Willi Bolle (grandesertão.Br) e Luiz Roncari (O Brasil de Rosa). Para uns, Rosa bebeu na fonte de Euclides da Cunha (Os Sertões) e descreveu um mundo atrasado, subjugado ao troca-troca entre oligarquias por meio da violência e da pobreza; para outros, ele defendeu a sentimentalidade desse mundo em face de uma civilização técnica, bélica, em que o afeto é reprimido. Rosa fez as duas coisas. Nesse sentido, tinha uma visão parecida com a de Machado de Assis – e não por acaso ambos escreveram um conto com o mesmo nome, O Espelho, onde fato e fantasia se confundem –, só que num registro otimista, diferente do que tinha o autor de Brás Cubas. O jogo de espelhos entre contrários, a percepção de que a realidade não pode ser reduzida a polarizações como corpo versus alma, é comum a ambos; mas em Rosa, num estado de espírito característico daquele 1956, dessa condição ambígua do brasileiro é que poderia vir um futuro grandioso. O estado atual do Brasil, 50 anos depois, parece sugerir que Machado estava mais perto da verdade ao mostrar que o preço dessa eterna indefinição é a sucessão de esperanças mal fundamentadas.
Aí está, porém, o grande legado estético de Rosa. Suas idéias místicas sobre o cosmos e sua crença no Brasil país-do-futuro jamais aprisionaram sua arte, assim como o dito pessimismo de Machado não o impediu de liberar humor e informalidade característicos em seus textos. Isso porque Rosa, como Machado, não via na literatura uma função ideológica. Seu antimodelo eram autores como Jorge Amado ou Zola. “A política é desumana”, disse ele a Lorenz, “porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta.” E sobre o naturalista francês: “A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de sua consciência”. Daí se seguiu um recado bem atual: “Hoje em dia (...) a maldição dos costumes é notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente”.
A literatura de João Guimarães Rosa olha por baixo da linguagem corrente, da superfície dos costumes, para encontrar, como nos “rios profundos”, as idéias e os sofrimentos eternos dos homens. O que faz de sua metafísica uma arte duradoura é que seja particular, solitária, intransferível. Cinqüenta anos são poucos para dar conta de tal eternidade.
O PAÍS DE IDIOTAS E ESTADO-DEPENDENTES DE LULA E TEMPORÃO by Reinaldo Azevedo
PAÍS DE IDIOTAS E ESTADO-DEPENDENTES DE LULA E TEMPORÃO
José Gomes Temporão, o ministro da dengue, é um desastre. A instalação de máquinas de camisinha em 400 escolas é uma estupidez. Alguns cretinos inferem que escrevo isso porque me sinto moralmente ofendido. Tolice. Escrevo porque, reitero, o aporte teórico que sustenta a medida está obviamente errado.
Recuemos um pouco no tempo, a 7 de março do ano passado, aqui neste blog (em azul):
Lula lançou um plano para conter a disseminação da Aids entre as mulheres. E pediu o fim da “hipocrisia no país”. Mandou ver:
- "Vamos fazer o combate à hipocrisia no País. Preservativo tem que ser doado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer, somente assim teremos um País livre da aids";
-"Não tem como carimbar na testa de um adolescente quando é momento de começar a fazer sexo. Sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta, é uma necessidade orgânica do ser humano, portanto o que nós precisamos fazer é ensinar";
-"É preciso melhorar a massa encefálica dentro do cérebro para as pessoas compreenderem que as mulheres devem ser respeitadas".
As considerações de Lula sobre moral sexual e escolhas individuais não devem nada a seu conhecimento sobre anatomia. “Massa encefálica dentro do cérebro” é o mesmo que dizer “massa cerebral dentro do cérebro”. Lula é uma ignorância redundante.
As escolas do país de Lula não conseguem ensinar português e matemática. Mas ele tem a ambição de que o governo ensine as pessoas a fazer sexo, “uma necessidade fisiológica do ser humano”. A que ponto chegamos...
Fazer um discurso ligeiro como esse num país em que a gravidez na adolescência é um grave problema é coisa de gente irresponsável. As meninas não engravidam porque seus parceiros, ou elas próprias, não usam camisinha. Engravidam porque estão fazendo a escolha errada. E continuarão a engravidar enquanto estiverem escolhendo mal. Porque também será uma má escolha não usar a camisinha ainda que possam usá-la.
Bobagem
Vocês conhecem os adolescentes, não? Todos nos já passamos por essa fase um dia. A tal máquina, em vez de induzir a responsabilidade, tende a virar um pólo de atração e a impor a prática sexual precoce a quem eventualmente não se sinta ainda preparado para tanto, especialmente entre os rapazes. Acho que não preciso explicar por quê. No caso das meninas, as que conseguirem superar o constrangimento correm o risco de ficar marcadas na escola — “foram vistas nas máquina”.
Temporão não se dá conta do tamanho da sua irresponsabilidade. É preciso ter pisado numa sala de aula um dia para que se tenha noção do tamanho da bobagem. Não haverá curso de educação sexual que consiga dar conta dos prejuízos. Se o governo quer distribuir camisinhas — não estou entre os que acham esta uma política correta, mas não trato disso agora —, que o faça de forma eficiente na rede pública de saúde municipal, estadual e federal. Na escola, não. Na escola, é um convite à pratica sexual, uma papel que não cabe à educação.
Trata-se, também, de uma intromissão estatal indevida na educação familiar. Ainda que o filósofo Lula e Temporão, o Comissário do Povo para Assuntos Sexuais, queiram tirar do sexo o seu caráter de opção moral, não conseguirão. Uma coisa é ministrar informações objetivas nas aulas — ainda que eu duvide da eficiência do procedimento —, outra, diferente, é interferir de forma tão invasiva em escolhas privadas.
Temporão não sabe como controlar mosquitos da dengue. Ele conta apenas com o frio para reverter o flagelo da doença. Também não sabe como fazer um sistema de saúde funcionar com R$ 40 bilhões a mais ou a menos. Noto que ele produziu a miséria no setor com a grana da CPMF. Mas ele quer ser o nosso Marquês de Pombal dos costumes. Quer ser um reformador. E certamente acredita estar afrontando o que Marcelo Coelho, da Folha, talvez chame a “extrema direita católica”. Não por acaso, não faz tempo, enquanto os mosquitos infestavam silenciosamente o país, Temporão fazia barulho com a sua proposta de descriminar o aborto, que ele pretendia fosse feito pelo SUS, o mesmo que deixa os pacientes morrendo à mingua pelos corredores.
Os técnicos que endossaram esse programa estão mais interessados em contestar um padrão que consideram “conservador” do que em combater, de fato, a disseminação do vírus da aids.
E há, obviamente, a questão de fundo, que é a cultura dos estado-dependentes que se está criando no país. Como bem escreveu aqui certa feita um leitor:
Vai transar? O governo dá camisinha.
Já transou? O governo dá pílula.
Engravidou? O governo dá o aborto.
Teve filho? O governo dá o Bolsa Família.
Tá desempregado? O governo dá bolsa desemprego.
Vai prestar vestibular? O governo dá o bolsa cota.
Não tem terra? O governo dá o bolsa invasão e ainda aposenta.
É um circulo vicioso manejando a manada.
E é do espírito de manada que trata o texto abaixo.
José Gomes Temporão, o ministro da dengue, é um desastre. A instalação de máquinas de camisinha em 400 escolas é uma estupidez. Alguns cretinos inferem que escrevo isso porque me sinto moralmente ofendido. Tolice. Escrevo porque, reitero, o aporte teórico que sustenta a medida está obviamente errado.
Recuemos um pouco no tempo, a 7 de março do ano passado, aqui neste blog (em azul):
Lula lançou um plano para conter a disseminação da Aids entre as mulheres. E pediu o fim da “hipocrisia no país”. Mandou ver:
- "Vamos fazer o combate à hipocrisia no País. Preservativo tem que ser doado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer, somente assim teremos um País livre da aids";
-"Não tem como carimbar na testa de um adolescente quando é momento de começar a fazer sexo. Sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta, é uma necessidade orgânica do ser humano, portanto o que nós precisamos fazer é ensinar";
-"É preciso melhorar a massa encefálica dentro do cérebro para as pessoas compreenderem que as mulheres devem ser respeitadas".
As considerações de Lula sobre moral sexual e escolhas individuais não devem nada a seu conhecimento sobre anatomia. “Massa encefálica dentro do cérebro” é o mesmo que dizer “massa cerebral dentro do cérebro”. Lula é uma ignorância redundante.
As escolas do país de Lula não conseguem ensinar português e matemática. Mas ele tem a ambição de que o governo ensine as pessoas a fazer sexo, “uma necessidade fisiológica do ser humano”. A que ponto chegamos...
Fazer um discurso ligeiro como esse num país em que a gravidez na adolescência é um grave problema é coisa de gente irresponsável. As meninas não engravidam porque seus parceiros, ou elas próprias, não usam camisinha. Engravidam porque estão fazendo a escolha errada. E continuarão a engravidar enquanto estiverem escolhendo mal. Porque também será uma má escolha não usar a camisinha ainda que possam usá-la.
Bobagem
Vocês conhecem os adolescentes, não? Todos nos já passamos por essa fase um dia. A tal máquina, em vez de induzir a responsabilidade, tende a virar um pólo de atração e a impor a prática sexual precoce a quem eventualmente não se sinta ainda preparado para tanto, especialmente entre os rapazes. Acho que não preciso explicar por quê. No caso das meninas, as que conseguirem superar o constrangimento correm o risco de ficar marcadas na escola — “foram vistas nas máquina”.
Temporão não se dá conta do tamanho da sua irresponsabilidade. É preciso ter pisado numa sala de aula um dia para que se tenha noção do tamanho da bobagem. Não haverá curso de educação sexual que consiga dar conta dos prejuízos. Se o governo quer distribuir camisinhas — não estou entre os que acham esta uma política correta, mas não trato disso agora —, que o faça de forma eficiente na rede pública de saúde municipal, estadual e federal. Na escola, não. Na escola, é um convite à pratica sexual, uma papel que não cabe à educação.
Trata-se, também, de uma intromissão estatal indevida na educação familiar. Ainda que o filósofo Lula e Temporão, o Comissário do Povo para Assuntos Sexuais, queiram tirar do sexo o seu caráter de opção moral, não conseguirão. Uma coisa é ministrar informações objetivas nas aulas — ainda que eu duvide da eficiência do procedimento —, outra, diferente, é interferir de forma tão invasiva em escolhas privadas.
Temporão não sabe como controlar mosquitos da dengue. Ele conta apenas com o frio para reverter o flagelo da doença. Também não sabe como fazer um sistema de saúde funcionar com R$ 40 bilhões a mais ou a menos. Noto que ele produziu a miséria no setor com a grana da CPMF. Mas ele quer ser o nosso Marquês de Pombal dos costumes. Quer ser um reformador. E certamente acredita estar afrontando o que Marcelo Coelho, da Folha, talvez chame a “extrema direita católica”. Não por acaso, não faz tempo, enquanto os mosquitos infestavam silenciosamente o país, Temporão fazia barulho com a sua proposta de descriminar o aborto, que ele pretendia fosse feito pelo SUS, o mesmo que deixa os pacientes morrendo à mingua pelos corredores.
Os técnicos que endossaram esse programa estão mais interessados em contestar um padrão que consideram “conservador” do que em combater, de fato, a disseminação do vírus da aids.
E há, obviamente, a questão de fundo, que é a cultura dos estado-dependentes que se está criando no país. Como bem escreveu aqui certa feita um leitor:
Vai transar? O governo dá camisinha.
Já transou? O governo dá pílula.
Engravidou? O governo dá o aborto.
Teve filho? O governo dá o Bolsa Família.
Tá desempregado? O governo dá bolsa desemprego.
Vai prestar vestibular? O governo dá o bolsa cota.
Não tem terra? O governo dá o bolsa invasão e ainda aposenta.
É um circulo vicioso manejando a manada.
E é do espírito de manada que trata o texto abaixo.
Sunday, June 22, 2008
If Politicians Were Honest, Here's What They'd Say
"I voted for this farm bill because farmers are a concentrated, highly organized and well-funded interest group. Of course, I know that the overall benefits of this bill fall far short of its costs. But those benefits are concentrated on a tiny percentage of the population, while the costs are spread out over all 300 million Americans. So those who pay the costs don't feel their burden enough to complain."
~George Mason Economist
~George Mason Economist
POR QUE NÃO ME UFANO by Daniel Piza
Tem coisas que não dá para entender. Agora é moda, por exemplo, desqualificar a pessoa que faz uma acusação ao governo, por mais plausível que seja, com a alegação de que ela tem interesse em se defender. E aí nada é investigado - como as suspeitas interferências de autoridades e ex-autoridades em negociações da Varig. Algo semelhante se pode ver na questão do Exército no Rio. Depois do escândalo da morte de três traficantes que foram entregues a outra facção por um tenente, no Morro da Providência, ainda há pessoas capazes de dizer que o problema não é esse, mas o domínio do Rio pelas gangues. Ora, que novidade! O foco agora é punir a arbitrariedade e criticar mais uma vez essa estratégia publicitária dos governos Lula e Cabral para proteger obras do PAC em vez de combater o tráfico e proteger o cidadão.
Pode ser que ele esteja maluco by João Ubaldo Ribeiro
Sei que, para os lulistas religiosos, a ressalva preliminar que vou fazer não adiantará nada. Pode ser até tida na conta de insulto ou deboche, entre as inúmeras blasfêmias que eles acham que eu cometo, sempre que exponho alguma restrição ao presidente da República. Mas tenho que fazê-la, por ser necessária, além de categoricamente sincera. Ao sugerir, como logo adiante, que ele não está regulando bem do juízo, ajo com todo o respeito. Dizer que alguém está maluco, principalmente alguém tido como sagrado, pode ser visto até como insulto, difamação ou blasfêmia mesmo. Mas não é este o caso aqui. Pelo menos não é minha intenção. É que às vezes me acomete com tal força a percepção de que ele está, como se diz na minha terra, perturbado da idéia que não posso deixar de veiculá-la. É apenas, digamos assim, uma espécie de diagnóstico leigo, a que todo mundo, especialmente pessoas de vida pública, está sujeito.
Além disso, creio que não sou o único a pensar assim. É freqüente que ouça a mesma opinião, veiculada nas áreas mais diversas, por pessoas também diversas. O que mais ocorre é ter-se uma certa dúvida sobre a vinculação dele com a realidade. Muitas vezes - quase sempre até -, parece que, quando ele fala “neste país”, está se referindo a outro, que só existe na cabeça dele. Há alguns dias mesmo, se não me engano e, se me engano, peço desculpas, ele insinuou ou disse claramente que o Brasil está, é ou está se tornando um paraíso. Fez também a nunca assaz lembrada observação de que nosso sistema de saúde já atingiu, ou atingirá em breve, a perfeição, até porque está ao alcance de qualquer cidadão, pela primeira vez na História deste país, ter absolutamente o mesmo tratamento médico que o presidente da República.
Tal é a natureza espantosa das declarações dele que sua fama de mentiroso e cínico, corrente entre muitos concidadãos, se revela infundada e maldosa. Ele não seria nem mentiroso nem cínico, pois não é rigorosamente mentiroso quem julga estar dizendo a mais cristalina verdade, nem é cínico quem tem o que outros julgam cara-de-pau, mas só faz agir de acordo com sua boa consciência. Vamos dar-lhe o benefício da dúvida e aceitar piamente que ele acredita estar dizendo a absoluta verdade.
Talvez haja sinais, como dizem ser comum entre malucos, de uma certa insegurança quanto a tal convicção, porque ele parece procurar evitar ocasiões em que ela seria desmentida. Quando houve o tristemente célebre acidente aéreo em Congonhas, a sensação que se teve foi a de que não tínhamos presidente, pois os presidentes e chefes de governo em todo o mundo, diante de catástrofes como aquela, costumam cumprir o seu dever moral e, mesmo correndo o risco de manifestações hostis, procuram pessoalmente as vítimas ou as pessoas ligadas a elas, para mostrar a solidariedade do país. Reis e rainhas fazem isso, presidentes fazem isso, primeiras-damas fazem isso, premiers fazem isso. Ele não. Talvez tenha preferido beliscar-se para ver ser não estava tendo um pesadelo. Mandou um assessor dizer umas palavrinhas de consolo e somente três dias depois se pronunciou a distância sobre o problema. O Nordeste foi flagelado por inundações trágicas, o Sul assolado por seca sem precedentes, o Rio acometido por uma epidemia de dengue, ele também não deu as caras. E recentemente, segundo li nos jornais, confidenciou a alguém que não compareceria a um evento público do qual agora esqueci, por temer receber as mesmas vaias que marcaram sua presença no Maracanã.
Portanto, como disse Polônio, personagem de Shakespeare, a respeito do príncipe Hamlet, há método em sua loucura. Não é daquelas populares, em que o padecente queima dinheiro (somente o nosso, mas aí não vale) e comete outros atos que só um verdadeiro maluco cometeria. Ele construiu (enfatizo que é apenas uma hipótese, não uma afirmação, porque não sou psiquiatra e longe de mim recomendar a ele que procure um) um universo que não pode ser afetado por cutucadas impertinentes da realidade. Notícia ruim não é com ele, que já tornou célebre sua inabalável agnosia (“não sei de nada, não ouvi nada, não tive participação nenhuma”) quanto a fatos negativos. Tudo de bom tem a ver com ele, nada de ruim partilha da mesma condição.
Agora ele anuncia que, antes de deixar o mandato, vai registrar em cartório todas as suas realizações, para que se comprove no futuro que ele foi o maior presidente que já tivemos ou podemos esperar ter. Claro que se elegeu, não revolucionariamente, mas dentro dos limites da ordem (?) jurídica vigente, com base numa série estonteante de promessas mentirosas e bravatas de todos os tipos. Não cumpriu as promessas, virou a casaca, alisou o cabelo, beijou a mão de quem antes julgava merecedor de cadeia e hoje é o presidente favorito dos americanos, chegando mesmo, como já contou, a acordar meio aborrecido e dar um esbregue em Bush. Cadê as famosas reformas, de que ouvimos falar desde que nascemos? Cadê o partido que ia mudar nossos hábitos e práticas políticas para sempre? O que se vê é o que vemos e testemunhamos, não o que ele vê. Mas ele acredita o contrário.
Acredita, inclusive, nas pesquisas que antigamente desdenhava, pois os resultados o desagradavam. Agora não, agora bota fé - e certamente tem razão - depois que comprou, de novo com o nosso dinheiro, uma massa extraordinária de votos. Não creio que ele se julgue Deus ainda, mas já deve ter como inevitável a canonização e possivelmente não se surpreenderá, se lhe contarem que, no interior do Nordeste, há imagens de São Lula Presidente e que, para seguir velha tradição, uma delas já foi vista chorando. Milagre, milagre, principalmente porque ninguém vai ver o crocodilo por trás da imagem.
'É que, às vezes, me acomete a percepção de que ele está, como se diz na minha terra, perturbado da idéia'
'Ao sugerir que o presidente não está regulando bem do juízo, ajo com todo o respeito'
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