Monday, September 01, 2008

O bem by Denis Lerrer Rosenfield




Você quer que o Estado determine o que você deve fazer? Você pensa que o Estado sabe melhor do que você o que é o seu próprio bem? Você acha que o Estado sabe escolher melhor do que você o que são os seus valores morais e pessoais? Assim colocadas, essas perguntas remetem a questões centrais de filosofia moral, que acarretam conseqüências políticas das mais relevantes. No entanto, poderia também aflorar uma outra questão, relativa à sua atualidade, como se fosse um mero problema teórico, sem importância para a vida de cada um. Engana-se quem pensa assim.

Gradativamente, o Estado brasileiro, em suas várias esferas, está-se impondo cada vez mais em detrimento das escolhas individuais e, sobretudo, de considerações morais, que deveriam nortear a subjetividade de cada um. Trata-se da autonomia que cada um tem de decidir por si mesmo, exercendo uma discriminação racional daquilo que é melhor para si. Tem ocorrido freqüentemente uma suposta coincidência entre o que o indivíduo considera para si o bem e o que o Estado lhe apresenta enquanto tal, como se o politicamente correto fosse o caminho que permitiria essa identificação. Há aqui uma armadilha.

O Poder Executivo, em particular, interfere progressivamente na vida de cada um, seja por atos administrativos como decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos mais diferentes tipos, seja por medidas provisórias, seja ainda por projetos de lei que vão na mesma direção. Por exemplo, uma alteração, via administrativa, de uma alíquota do Imposto de Renda tem incidência direta nos rendimentos individuais e familiares, como se o Estado soubesse fazer melhor uso dos bens particulares. Ocorre uma transferência de bens materiais, de propriedades, que surge travestida de uma justificativa de ordem moral, ancorada na concepção de que o Estado sabe moralmente melhor do que qualquer um o que é o seu bem próprio.

O Incra, por sua vez, determina, em lugar dos assentados, o que é melhor para eles, interferindo diretamente no seu cultivo e, em última instância, em sua capacidade individual de escolha, como se um assentado fosse um tolo que deveria apenas seguir as diretrizes desse órgão estatal e dos movimentos ditos sociais. Assim, o cultivo de eucaliptos é proibido pelo Incra porque contraria as suas orientações, independentemente de que ofereça melhor rendimento aos assentados do que outros cultivos ou lavouras. Por que não poderia um assentado escolher o cultivo que lhe dê maior renda e usufruir seus resultados?

Tal "normalidade" não surge como um tsunami, mas em volumes crescentes, que vão ganhando consistência e poder. O caso da saúde é particularmente revelador. Em nome dela, há propostas de aumentos de contribuições, restrições ao fumo, mesmo em recintos que afetam somente os que usufruem o ato de fumar, à ingestão de bebidas alcoólicas ou à publicidade de medicamentos. O Estado apresenta-se como o grande patrocinador da saúde, quando está patrocinando somente a si mesmo. E o faz em nome do bem de cada um. Quem lhe confere esse poder?

Observe-se que, em nome da saúde, há projeto em curso para ressuscitar a CPMF, fortemente rechaçada por toda a população brasileira. Como os brasileiros são, hoje, contrários ao aumento de impostos, este aparece disfarçado de figura moral do bem de todos. A moral surge como justificativa de um simples acréscimo da arrecadação tributária! Da mesma maneira, por que deveria uma autoridade governamental banir o fumo em locais especialmente destinados a isso, sem afetar os não-fumantes? Não sabe cada um discernir o que é melhor para si, sem o auxílio da bengala estatal? Por que deveria o Estado determinar a "lei seca", graças a uma nova regulamentação apresentada com estardalhaço, como se fosse a salvação da saúde nacional? Por que o Estado deveria regulamentar a publicidade de medicamentos de livre compra em farmácias? Se a compra pode ser feita sem receita, onde estaria o seu dano para a saúde? Amanhã, vai o Estado legislar ainda mais no lar de cada um, como já começa a fazer? Onde reside o limite, se o solar da casa já foi transgredido? Cabe ao Estado informar sobre os efeitos nocivos de determinados hábitos para a saúde pessoal. Não lhe cabe tomar o lugar da escolha individual.

Levemos esse argumento ao seu extremo. Consideremos que a ingestão de colesterol e de gorduras saturadas fazem mal à saúde. Pesquisas científicas referendariam essa avaliação. Seguir-se-ia daí que seria função do Estado decidir o que cada pessoa deveria, por dia, tomar de sorvete ou comer de carne? Os indivíduos não poderiam tomar sorvete ou comer carne além de uma determinada quantia? Haveria punição para os transgressores? Assim apresentada, a questão parece absurda, porém ela é, em seus efeitos, terrivelmente verdadeira.

Não faltam, inclusive, pseudopesquisas que procuram justificar "cientificamente" essas medidas. Na verdade, a sua justificação reside numa determinada noção do bem de natureza propriamente política, estatal, que se reveste de científica. Séries estatísticas, por definição, podem ser feitas de quaisquer coisas, bastando relacioná-las, sem que daí siga necessariamente uma relação causal. Tomemos o caso da proibição de ingestão de bebidas alcoólicas por condutores de veículos. A redução da mortalidade nas ruas e estradas tem sido atribuída a essa lei. A correlação estabelecida se faz entre a nova lei e a redução da mortalidade. Por que não uma outra correlação, entre a fiscalização rigorosa da aplicação da lei, que poderia ser perfeitamente a anterior, e a redução da mortalidade? Se afrouxar a fiscalização, haverá provavelmente um aumento de acidentes automobilísticos, apesar da lei seca. No entanto, quando isso vier a ser comprovado, o efeito midiático buscado já terá sido atingido: o Estado sempre sabe o que é melhor para o indivíduo!

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS.
E-mail: denisrosenfield@terra.com.b

Saturday, August 30, 2008

Skibunda ,Fortaleza Ceara- BR

Gustavo Quattrone at Governor's Speech in Chetumal, Quintana Roo-MX

Entrevista na Veja de James Roberts -Por uma economia livre



Pesquisador da Heritage Foundation, dos Estados Unidos,
diz que o "capitalismo de comparsas" cresce na América Latina


Duda Teixeira
Divulgação
"Muitos governantes usam os impostos e a burocracia para massacrar os empreendedores, que vêem como uma ameaça"

O economista americano James Roberts, de 58 anos, é coordenador do índice de liberdade econômica da Heritage Foundation, entidade de promoção de políticas liberais com sede em Washington, nos Estados Unidos. A lista elaborada por Roberts compara a facilidade com que cidadãos de diferentes países conseguem começar um negócio, escolher um emprego, tomar dinheiro emprestado ou usar o cartão de crédito. Publicado anualmente desde 1995, o ranking tornou-se um termômetro da saúde e da eficiência das economias nacionais. Antes de assumir essa função, Roberts trabalhou no Departamento de Estado durante 25 anos. Como diplomata, coordenou programas destinados a assessorar a transição para o capitalismo em vários países do Leste Europeu. Roberts concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
"Os dois fatores que fizeram o Brasil cair no ranking da liberdade econômica foram a corrupção e a falta de abertura financeira. As leis brasileiras são pouco receptivas aos investimentos estrangeiros"

A liberdade econômica é capaz de diminuir a desigualdade social de um país? Em primeiro lugar, é preciso definir o que vem a ser igualdade social. Esse conceito pressupõe que todos sejam forçados a viver em casas idênticas, ganhar os mesmos salários, comer as mesmas comidas e acreditar nos mesmos valores? Essa abordagem totalitária já foi tentada na União Soviética e está em pleno vigor em Cuba. Os resultados foram e são desastrosos, para não dizer trágicos. Como os fundadores dos Estados Unidos sabiam muito bem, é impossível para um governo arcar com a missão de assegurar igualdade para todos os cidadãos. As pessoas não nascem iguais. Elas possuem habilidades e talentos próprios. Cada uma deve decidir sozinha o que quer fazer da vida: se prefere trabalhar duro ou levar uma existência mansa e tranqüila. O principal papel de um governo não é ir contra essa realidade e forçar algo que não existe nem existirá. O bom governante é aquele que oferece oportunidades iguais para todos buscarem a própria felicidade. O capitalismo promove níveis desiguais de prosperidade. Como diria o estadista Winston Churchill, isso é muito melhor do que produzir miséria igual para todos, como faz o socialismo.

A pobreza diminui nos países com liberdade econômica? Ao dar oportunidades para que a população mais pobre prospere, a liberdade econômica é boa para todos. Quando esse conceito é implementado, a elite política fica impossibilitada de usar a máquina estatal para ganhar vantagens econômicas, o que sempre ocorre em prejuízo dos mais fracos. Essa situação terrível é o que chamamos de "capitalismo de comparsas". Nos países onde essa prática é institucionalizada, os governantes e seus amigos sobrecarregam a população com burocracia e pesados impostos com o objetivo de massacrar os empreendedores, que vêem como uma ameaça. Quando, por outro lado, existe liberdade, o poder econômico não está sujeito a forças políticas e sociais. Pequenas e médias companhias privadas, que são a espinha dorsal de uma economia e produzem a maior parcela dos impostos, têm melhores chances de crescer. A liberdade econômica é uma doutrina revolucionária que desafia o status quo e os que querem usar o poder em proveito próprio. No longo prazo, sua aplicação produz mais prosperidade, mais igualdade de renda, mais emprego e reduz os níveis de pobreza.

É possível medir esses benefícios? Se dividimos os países do mundo em cinco grupos, usando o grau de liberdade econômica como parâmetro, vemos que o grupo de países mais livres tem uma renda per capita cinco vezes maior que a do grupo de nações que consideramos repressoras. O desemprego nos países livres é de 6%, enquanto nos economicamente repressores é de 19%. As nações mais livres também possuem menor inflação, que sabidamente corrói o salário dos mais pobres.

Como está o Brasil no ranking de liberdade econômica? Em 2003, o primeiro ano do governo do presidente Lula, o país alcançou a sua melhor posição no ranking. Ficou em 58º lugar. No ranking deste ano caiu para a 101ª posição. Hoje o Brasil está ao lado de países como Zâmbia, Argélia, Camboja e Burkina Faso. Com isso, o Brasil mudou de categoria. Saiu do que chamamos de "moderadamente livre" para uma economia "majoritariamente não livre".
"O capitalismo promove níveis desiguais de prosperidade.
Como diria o estadista inglês Winston Churchill, isso é muito melhor do que produzir miséria igual para todos, como faz o socialismo"

O que fez o Brasil cair tanto no ranking? Os dois fatores que empurram o país para baixo são a corrupção e a falta de liberdade financeira. No último ranking da Transparência Internacional, que mede o grau de corrupção dos países, o Brasil aparece em 72º lugar numa lista de 179 nações. Apesar de o uso da internet nas concorrências públicas estar crescendo no Brasil, o que é positivo, muitas das empresas participantes desses leilões afirmam ter encontrado corrupção em alguma parte do processo. As leis brasileiras são pouco receptivas aos investimentos estrangeiros. O país precisa melhorar as leis de investimento, reduzir as restrições à moeda estrangeira e facilitar a vida dos empresários estrangeiros que queiram operar no país.

O senhor falou em capitalismo de comparsas. Em que países esse fenômeno é mais forte? Muitos países são vítimas desse mal, embora em diferentes graus. Os Estados Unidos já tiveram, em sua história, políticos corruptos que recebiam favores de empresários. Hoje, os americanos não vivem uma situação em que o capitalismo de comparsas possa ser considerado institucionalizado. Isso acontece mais claramente no México, na Argentina e na Venezuela. A economia mexicana é dominada por grandes empresas estatais e privadas, que exercem monopólios ou duopólios. Entre as estatais estão a Pemex, de petróleo, e a CFE, de eletricidade. O resultado é a falta de competição, que prejudica os consumidores mexicanos. Na Argentina, o governo populista dos Kirchner mostra claro favoritismo a setores dominados por colegas peronistas. Nas áreas em que há amigos, o governo não é tão severo ao exigir que as companhias obedeçam às regras ambientais, por exemplo. Já no regime do venezuelano Hugo Chávez, o capitalismo de comparsas domina inteiramente o país. A tal ponto de alguns economistas preferirem não chamar o sistema venezuelano de capitalismo. O governo Chávez é mais parecido com o fascismo ou com a ditadura da KGB, sob o comando de Vladimir Putin, na Rússia. Lá, ter sido um espião é essencial para se tornar um empresário de sucesso.

Quais são as nações que mais melhoraram em termos de liberdade econômica nos últimos anos?
Qual foi o impacto disso? Eu destacaria Botsuana, Estônia, Irlanda e Mongólia. O padrão de vida nesses países melhorou muito na última década. Desde 1995, todos tiveram um aumento médio anual do PIB superior a 5%. Ao reforçar o estado de direito e a transparência no governo, todos ganharam estabilidade política e econômica. A Irlanda hoje é um grande exportador de software da União Européia. A Estônia tem seguido o mesmo caminho e investe bastante em tecnologia e informática.

Por que as antigas colônias inglesas da Ásia estão entre os países com maior liberdade econômica?
Parte da resposta está na cultura anglo-saxã. Dos dez países no topo do ranking, sete foram colônias inglesas. A Inglaterra é o décimo na lista. É uma tradição inglesa e do norte da Europa ter governos limpos, transparentes e responsáveis. Servidores públicos não tentam roubar, os tribunais de Justiça procuram ser honestos e não aceitam suborno. Outro fator é a relevância dada aos direitos de propriedade em países com influência anglo-saxã, como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Botsuana e Irlanda. Outros países protestantes dividem o mesmo legado. Em 1215, a Constituição inglesa já criava um sistema de pesos e contrapesos para o poder governamental, que evoluiu bastante desde então. Graças a isso, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não interferem uns nos outros e formam um sistema transparente, que previne abusos do poder. Uma das bandeiras da reforma protestante no século XVI foi a rejeição total da corrupção que permeava a Igreja Católica na época.

Como está a América Latina no ranking? Quando analisamos o continente americano como um todo, percebemos que a liberdade econômica está diminuindo. A culpa é claramente da América Latina. A região está dividida. De um lado estão governos baseados em uma democracia mais profunda, que estimula o livre mercado e traz prosperidade para a população. É o caso do Chile, que aparece em oitavo lugar no ranking mundial, à frente da Suíça e da Inglaterra. De outro estão governos populistas que vendem fórmulas desgastadas do passado. A Venezuela está entre os dez países mais repressivos, à frente apenas de notáveis ditaduras como a de Robert Mugabe, no Zimbábue, ou a de Kim Jong Il, na Coréia do Norte. Desde que ganhou as eleições, Chávez promove um intenso ataque ao sistema privado. Muitos empresários pararam a produção porque não conseguem mais obter lucros. Na Argentina, a falta de liberdade econômica tem sido uma tragédia. O país, que em 1933 tinha um PIB equivalente à soma dos de Brasil e México e era uma das dez maiores economias do mundo, tornou-se periférico. Nos últimos 75 anos, seus governantes fizeram com que o país caminhasse para trás, apesar de ser muito rico em recursos naturais. Na Nicarágua, Daniel Ortega ressuscitou seu discurso antiamericano e sua política desestabilizadora, aproximando-se perigosamente de Hugo Chávez e do iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Qual dos dois grupos de países está mais forte na região? Muitos países estão caminhando em direção a modelos falidos do passado. No nosso ranking, isso se refletiu no desempenho dos países. Dezessete caíram de posição, enquanto doze tiveram melhora.

Que país poderia servir de modelo para a América Latina? O Brasil pode ser citado como exemplo no que diz respeito à manutenção de sua política antiinflacionária. Exceto pelo Chile, os demais países da região não mostram a mesma disciplina. A maioria dos governos prefere comprar vantagens políticas no curto prazo, mesmo sabendo que isso está sendo feito à custa do crescimento e da saúde econômica a longo prazo.

As mudanças que Raúl Castro está promovendo em Cuba vão ampliar a liberdade econômica na ilha? Não há nenhuma informação que me leve a concluir que Cuba esteja dando passos verdadeiros em direção à liberdade econômica. Não haverá democracia baseada em livre mercado até que o regime de Fidel Castro se vá definitivamente. A transição representada por Raúl não é para valer. Ele só está tentando fazer parecer que há uma mudança, quando não há nenhuma. Os camaradas do partido dizem que as pessoas agora podem comprar celulares, mas só os que ganham pesos conversíveis podem se conceder esse luxo. Isso exclui grande parcela da população de Cuba. O governo é quem decide quem pode ou não comprar computadores e aparelhos de DVD. Ninguém tem vontade de trabalhar na ilha, porque sabe que isso não compensa. O Exército controla 60% da economia e Raúl está no comando dos militares. Certamente não tomará nenhum passo em direção a uma liberdade econômica verdadeira, porque isso ameaçaria seu próprio poder. Tudo não passa de um grande teatro.

De maneira geral, a liberdade econômica tem diminuído ou aumentado no mundo? Quando se somam todos os países, é possível ver que a liberdade econômica tem aumentado, embora muito lentamente. Quem mais puxa a curva para cima são os países europeus. Dos vinte países mais livres, metade está na Europa. Outro destaque são as antigas colônias inglesas. Hong Kong é o campeão, seguido de Cingapura.

Thursday, August 28, 2008

The Devils in His Details By George Will

DENVER -- When Barack Obama feeds rhetorical fishes and loaves to the multitudes in the football stadium Thursday night, he should deliver a message of sufficient particularity that it seems particularly suited to Americans. One more inspirational oration, one general enough to please Berliners or even his fellow "citizens of the world," will confirm Pascal's point that "continuous eloquence wearies." That is so because it is not really eloquent. If it is continuous, it is necessarily formulaic and abstract, vague enough for any time and place, hence truly apposite for none.

If Socrates had engaged in an interminable presidential campaign in a media-drenched age, perhaps he, too, would have come to seem banal. But the fact that Obama lost nine of the final 14 primaries might have something to do with the fact that when he descends from the ether to practicalities, he reprises liberalism's most shopworn nostrums.

Russia, a third-world nation with first-world missiles, is rampant; Iran is developing a missile inventory capable of delivering nuclear weapons the development of which will not be halted by Obama's promised "aggressive personal diplomacy." Yet Obama has vowed to "cut investments in unproven missile defense systems." Steamboats, railroads, airplanes and vaccines were "unproven" until farsighted people made investments. Furthermore, as Reuel Marc Gerecht of the American Enterprise Institute notes, Democrats will eventually embrace missile defense in Europe because they "will have nowhere else to go short of pre-emptive strikes against Iran's nuclear facilities."

Obama, who might be the last person to learn that schools' cognitive outputs are not simply functions of financial inputs, promises more money for teachers, who, as usual, are about 10 percent of the Democrats' convention delegates and alternates. He waxes indignant about approximately 150,000 jobs sent overseas each year -- less than 1 percent of the number of jobs normally lost and gained in the creative destruction of America's dynamic economy. U.S. exports are fending off a recession while he complains about free trade. He deplores NAFTA, although since it was implemented in 1994 the U.S., Mexican and Canadian economies have grown 50 percent, 46 percent and 54 percent, respectively.

Recycling George McGovern's 1972 "Demogrant" notion, Obama promises a $1,000 check for every family, financed by a "windfall profits" tax on oil companies. Obama is unintimidated by the rule against legislating about subjects one cannot define.

Obama thinks government is not getting a "reasonable share" of oil companies' profits, which in 2007 were, as a percentage of revenues (8.3 percent), below those of U.S. manufacturing generally (8.9 percent). Exxon Mobil pays almost as much in corporate taxes to various governments as the bottom 50 percent of American earners pay in income taxes. Exxon Mobil does make $1,400 a second in profits -- hear the sharp intakes of breath from liberals with pursed lips -- but pays $4,000 a second in taxes and $15,000 a second in operating costs.

Obama's rhetorical extravagances are inversely proportional to his details, as when he promises "nothing less than a complete transformation of our economy" in order to "end the age of oil." The diminished enthusiasm of some voters hitherto receptive to his appeals might have something to do with the seepage of reality from his rhetoric. Voters understand that neither the "transformation" nor the "end" will or should occur. His dreamy certitude that "alternative" fuels will quickly become real alternatives is an energy policy akin to an old vaudeville joke: "If we had some eggs, we could have ham and eggs, if we had some ham."

When he speaks Thursday night in a venue consecrated to the faux combat of football, the NATO alliance, which was 12 years old when he was born, may be collapsing because of its unwillingness to help enough in Afghanistan and its inability to respond seriously to Russia's combat in Georgia. It is unfair to neither NATO nor Obama to note that the alliance is practicing what he preaches: It is preaching to Vladimir Putin, who is unimpressed. NATO, said Lord Ismay, speaking of Europe in 1949, was created to "keep the Americans in, the Germans down and the Russians out." That Germany's appeasement reflex is part of NATO's weakness is perhaps progress, of sorts.

Journalism often must be preoccupied with matters barely remembered a week later. But decades hence, historians will write about today's response to Russia by the West, perhaps in obituaries for the idea of "the West." If Obama does not speak to this crisis Thursday night, that will speak volumes

Wednesday, August 27, 2008

My good friend the great Michael Maness

Memória de Caymmi by João Ubaldo Ribeiro

Infelizmente, a linguagem é linear e as coisas têm que ser contadas em sucessão. Que fazer, a gente vive no tempo - há sempre um "antes", um "durante" e um "depois". Mas eu gostaria que fosse possível fotografar uma amizade de mais de quatro décadas, como a de Dorival Caymmi comigo. Não filmar, cujo resultado, por mais que inventem truques engenhosos, tampouco escapa da linearidade, mas fotografar mesmo. É como se tudo pudesse ter sido simultâneo, do jeito em que agora está na minha cabeça. Não me ocorre uma sucessão ou conjunto de fatos, me vem somente uma espécie de claridade alegre, risonha, festeira. E não há como transmitir isso a ninguém.

Mas, se não posso livrar-me da cronologia, posso pelo menos embaralhá-la à vontade. E agora estamos ele e eu sentados na casa dele na Bahia, há não sei quantos anos. Ele em sua poltrona favorita, perto da porta de entrada. Sem camisa, de bermuda e chinela, peito tomado por colares de contas e guias de todos os tipos, cabeça repousada sobre o telefone em que falava, recusando à sua maneira um convite para festa ou almoço, não lembro bem. Quem nunca viu Caymmi recusar alguma coisa perdeu um espetáculo único. Aliás, quem nunca conviveu com Caymmi um pouco assim meio que perdeu muito, como às vezes se diz lá na ilha.

Ele nunca recusava convites explicitamente, pelo menos que eu tenha testemunhado - e testemunhei diversos. Conversava com o convidador sobre assuntos variados, filosofava um pouco, concordava enfaticamente com algumas afirmações do outro, contava histórias, fazia observações, comentava o tempo, elogiava profusamente quem quer que fosse mencionado na conversa e ria com freqüência. Enfim, montavam-se verdadeiras prosas, em que o sujeito acabava se despedindo e desligando, provavelmente sem entender nada e não tendo nem certeza sobre se o convite fora mesmo recusado. Uma vez comentei isso com ele e ele respondeu muito sério, embora com aquela expressão marota que não o deixava nem quando ele se aborrecia: "É uma técnica que eu desenvolvi e só não patenteei porque só quem sabe usar sou eu".

Acabado o telefonema, passou-se à verdadeira prosa, a que se dava entre nós. Pode ser que meus amigos pessoais não acreditem, mas eu ouvia muito mais do que falava. Logo aprendi que havia algo que denominei, por falta de inventividade, de "a história de Caymmi". A história não era a da vida dele, embora sua biografia aparecesse muito, mas era simplesmente a história. Um dos melhores conversadores que conheci, expressivo, eloqüente, histriônico, ele pegava a palavra e ninguém queria mais que ela lhe fosse tomada. A história começava por algum acontecimento mencionado e ia seguindo, desenrolando-se como uma serpentina ou uma espiral, e não acabava nunca. E ninguém que a ouvia queria que acabasse. E ainda não acabou mesmo, só que não mais está conosco seu grande contador.

Corte para outro encontro na casa dele, onde eu não tinha aparecido nem dado notícias havia semanas. Que tinha acontecido? Respondi que andava me virando. Mercado sempre difícil para jornalistas, escritores e afins, dureza mesmo. Mas que ele não se preocupasse, eu me virava. E ele, apesar de algumas palavras encorajadoras, pareceu não se preocupar mesmo.

Dias mais tarde, me procura, num dos bicos em que eu batalhava contra a penúria, o representante de uma agência de propaganda. Um banco, cliente dessa agência, ia inaugurar sua primeira filial em Belo Horizonte e haviam escolhido Caymmi para estrelar um comercial dirigido aos mineiros. Ele só tinha que aparecer vestido de Dorival Caymmi mesmo e dizer uma frase de duas linhas. Tudo acertado, foram a ele e mostraram a frase. Não precisava nem decorá-la, podia ler de um cartaz posto à sua frente, fora de cena. Ele a examinou com gravidade, fez a beiçola de dúvida que era também marca sua e perguntou quem tinha escrito aquele negócio.

- Um redator lá da agência, é só isso mesmo que o cliente quer que o senhor diga, é só dizer essas palavrinhas.

- Não digo. Só digo textos de alta qualidade literária.

- Mas qualidade literária aqui, o senhor...

- Não adianta. Procurem João Ubaldo Ribeiro. Só leio se ele escrever. E vocês paguem a ele decentemente, para eu não passar vergonha.

Pronto. Ali estava o compreensivelmente indignado representante da agência para que eu escrevesse a frase que Caymmi leria. O cheque era régio, dava de sobra para me safar do que na época se chamava pindaíba total. Mas escrever o quê? Pois é, disse o emissário, não tem nada o que escrever, é só "eu sou Dorival Caymmi e estou aqui em Belo Horizonte etc.", só isso. Vi que era verdade e, morto de vergonha, pedi pelo menos para copiar as palavras na minha máquina, para Caymmi realmente receber um papel saído de minhas mãos. Voltaram lá, ele nem olhou o texto, só perguntou se era meu mesmo.

- Então eu leio - disse ele. - Se é do João Ubaldo, eu leio.

E leu. Dias mais tarde, apareci de novo na casa dele, trocamos umas abobrinhas e ele, antes de recomeçar a história como sempre, me perguntou se as coisas tinham melhorado, eu disse que sim, ele bloqueou meu agradecimento, voltou logo à história e nunca me falou no assunto.

É desse Caymmi que estou lembrando agora, com o coração apertado. Que ele foi uma dos maiores artistas da nossa História, que falas suas se incorporaram à linguagem popular mais do que as de qualquer outro, que ele foi um grande, incomparável e insubstituível criador de beleza, isso e muito mais eu não preciso repetir, porque todos sabemos, Deus seja louvado.

Ainda há uma esperança para a Venezuela by Mário Vargas Llosa

Fiz uma visita relâmpago a Caracas para ver a montagem teatral de Héctor Manrique de uma obra minha, Al pie del Támesis ("Às margens do Tâmisa"). Apesar de minha breve permanência, pelo que vi, ouvi, li e conversei com amigos nessas poucas hora, saí da Venezuela convencido de que o projeto autoritário que o comandante Chávez chama de "Revolução Bolivariana" e "socialismo do século 21" tem agora menos possibilidade de se concretizar do que há alguns anos. O tempo e a resistência dos venezuelanos vão enfraquecendo, aos poucos, o risco de que a pátria de Bolívar torne-se uma segunda Cuba.

De onde se origina meu otimismo? Da liberdade com que os venezuelanos criticam o governo nas ruas, praças, cafés e onde quer que seja, sem se deixarem intimidar pelas represálias, que vão desde demissões sumárias de cargos públicos, multas, cancelamento de contratos e licenças para empresários, estatizações e confiscos, até o fechamento de rádios, televisões e teatros públicos a artistas, diretores, roteiristas e produtores que relutam em tornar-se instrumentos submissos do poder.

As pesquisas realizadas sobre as eleições do próximo dia 23 de novembro, quando serão escolhidos 22 governadores e 335 prefeitos em todo o país, mostram que a oposição, unida, poderá obter uma porcentagem muito elevada de vitórias em toda a Venezuela.

Chávez sabe disso e tomou precauções. Mandando o Controlador da República, em flagrante violação da Constituição, "inabilitar" quase 300 candidatos, em sua grande maioria da oposição. Entre eles, estavam quatro oposicionistas que tinham grandes chances de vitória e ficaram fora da disputa.

O Supremo Tribunal de Justiça, agora a serviço do regime, validou o legicídio. Mesmo assim, e conscientes de que, alertado pela derrota sofrida no dia 2 de dezembro de 2007, Chávez usará de todos os recursos a seu alcance para impedir um novo revés, os venezuelanos alimentam um certo otimismo.

O regime poderá orquestrar uma fraude generalizada? Não é fácil, porque já existe o voto eletrônico, sempre e quando, é claro, haja uma fiscalização nas mesas de votação, como a que exerceram os estudantes no referendo sobre o projeto de reforma constitucional de dezembro. E é evidente que, desta vez, haverá nova mobilização para impedir, ou pelo menos reduzir, o risco de alteração indevida dos resultados.

Pergunto a meus amigos, enquanto saboreio um café da manhã com arepas e queijo branco, por que o regime chavista não conseguiu instaurar na Venezuela instrumentos de coerção e intimidação - como os comitês de bairro e de distrito da Revolução Cubana, por exemplo -, que em todas as sociedades autoritárias paralisam a sociedade civil e a amordaçam, permitindo que o regime feche todos os espaços de liberdade e crítica ao poder.

Quem me dá uma explicação convincente é Teodoro Petkoff, fundador do MAS (Movimento Para o Socialismo), do qual se retirou no mesmo dia em que o grupo decidiu apoiar Chávez. Petkoff é ex-guerrilheiro, ex-prisioneiro político - com duas fugas fabulosas da prisão -, diretor de jornal e um dos mais lúcidos analistas políticos da Venezuela.

Segundo Petkoff, desde a queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, em janeiro de 1958, até a ascensão ao poder do comandante Hugo Chávez, em 1999, ou seja, durante cerca de 40 anos, os venezuelanos tiveram governos que, independentemente de seus fracassos no campo econômico e social, garantiram as liberdades públicas, realizaram eleições livres e respeitaram o direito de expressão e de crítica de seus cidadãos.

Essas práticas democráticas calaram profundamente na sociedade venezuelana. Embora a corrupção e as políticas equivocadas tenham causado uma decepção de um vasto setor do povo com os partidos tradicionais e tenham criado um clima favorável à pregação populista, revolucionária e à figura do caudilho, o hábito do exercício da liberdade não desapareceu.

EXEMPLO

Por isso, Chávez não pôde seguir o exemplo cubano, ou mesmo o soviético, o chinês, o islâmico ou o de outros déspotas militares do continente, que emascularam por meio do medo toda uma sociedade, antes de subjugá-la.

Mais ainda, esse espírito independente e livre, aclimatado ao longo de quatro décadas de vida democrática, manifesta-se até mesmo no interior do próprio partido de Hugo Chávez, onde as divisões e as insubordinações contra o caudilho fazem com que, nas próximas eleições de novembro, em alguns Estados (como o seu), os candidatos governistas representem opções críticas e rebeldes em relação à política do próprio presidente.

Quantos cubanos há na Venezuela? Esse é o segredo mais bem guardado do regime chavista. Ninguém sabe ao certo. Os cálculos variam entre 10 mil e 30 mil. Muitos deles são médicos e dentistas e vivem espalhados pelo território nacional, nas "missões" ou postos de saúde que prestam serviço nos "ranchitos", bairros pobres na periferia das grandes cidades, e no campo.

Um número considerável de cubanos estabelecidos na Venezuela trabalha em funções de segurança e inteligência. Aparentemente, eles têm a responsabilidade de zelar pela segurança de Chávez. Muitos utilizaram a Venezuela como trampolim para fugir para os EUA, para a Colômbia e para a América Central, embora não existam estatísticas a respeito.

AUTORITARISMO

Em todo o caso, o certo é que a presença dessa ampla comunidade cubana na Venezuela não parece, de modo algum, constituir uma força de doutrinação e propaganda em favor do marxismo-leninismo e da utopia comunista, mas uma amostra de ceticismo e de saturação da "revolução".

A esse respeito, não resisto à tentação de reproduzir um episódio contado por Petkoff. Ao tomar um táxi no centro de Caracas, ele foi reconhecido pelo motorista, que era um médico cubano. Em suas horas de folga, o taxista trabalhava como chofer para melhorar sua renda. Vivia já há algum tempo na Venezuela e, certamente, estava muito satisfeito.

O que mais o alegrava era a abundância que via em todas as partes, nas lojas, armazéns e mercados, em grande contraste com os modestos e míseros postos de venda de produtos nacionais onde os cubanos mais pobres costumam se abastecem na ilha.

RESISTÊNCIA

No meio da conversa, o médico-taxista confessou a Petkoff esta fraqueza: "Quando cheguei à Venezuela e vi pela primeira vez uma garrafa de Coca-Cola, meus olhos se encheram de lágrimas."

Se, depois de meio século de revolução, o símbolo por excelência do capitalismo desperta semelhantes emoções em um cubano nascido e educado sob a pregação ideológica de Fidel Castro, alguém duvida que o socialismo em sua versão cubana está com os dias contados?

Quando as sociedades vivem períodos traumáticos, geralmente a vida artística e cultural experimenta um apogeu. E a Venezuela não é uma exceção à regra.

As carências e limitações, que podem ser percebidas em outros campos, não empobreceram o trabalho literário, intelectual e artístico, que mantém elevados níveis de criatividade no país.

BOLIVARIANISMO

O governo não quis ou não soube cooptar a classe intelectual e artística e colocá-la a seu serviço. Escritores, professores, músicos, pintores, atores mantiveram uma grande independência em relação ao regime e, com escassas exceções, não aceitaram servir como propagandistas.

Um bom número deles milita hoje na resistência. As universidades também não foram subjugadas pelo regime chavista. Quase todas, tanto públicas quanto privadas, conservaram sua independência e são, em alguns casos, um contrapeso salutar de defesa da cultura e da liberdade contra a demagogia revolucionária governamental.

É notório que o presidente Chávez promove seu "socialismo bolivariano" a golpes de talão de cheques, ou melhor, de barris de petróleo, que presenteia aqui e ali ou vende a preços preferenciais aos países que pretende incorporar à sua órbita de influência.

Desse modo, uma grande porcentagem dos recursos do país vai para o exterior para beneficiar outros povos, em vez do povo venezuelano. Durante minha rápida visita, ouvi muitas críticas e de toda a ordem contra o regime, mas não ouvi uma única vez um venezuelano se queixando desses gastos chavistas em favor dos bolivianos, dos nicaragüenses, dos argentinos e, agora, dos paraguaios. Por quê?

SOLIDARIEDADE

Sem dúvida, porque aquele espírito solidário, sacrificado e generoso que levou tantos milhares de venezuelanos a sair desse pequeno e pobre país que era a Venezuela, para derramar seu sangue pela liberdade da América Latina, no início do século 19, continua incendiando os corações de seus descendentes.

Saturday, August 23, 2008

Mahahual - Hurricane Dean

Hurricane Dean - Costa Maya- Mexico

Guga at Brazilian Tropical Cafe Newport beach-CA

Brazilian Tropical Cafe - Newport Beach - CA

Campeonato Brasileiro de Karate

Campeonato carioca de Karate- Guga vs Birimbau

Mae tobi geri

A China na frente? by CARLOS ALBERTO SARDENBERG

A China na frente? CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Parece que os planos chineses estão funcionando. A Olimpíada vai muito bem no terreno esportivo, a infra-estrutura técnica é de primeiro mundo, recordes são quebrados, surgem os heróis.
Mais importante ainda para o governo chinês, seus atletas ganham mais medalhas de ouro do que os americanos.
Tudo somando, a China apresenta-se ao mundo como potência.
Os americanos sentiram o baque. Tanto que, por alguns dias, a imprensa americana apresentava a classificação utilizando apenas o critério do total de medalhas, no qual os EUA levavam vantagem.
Mais ainda, a imprensa americana dedicou algum esforço tentando demonstrar que há muitos atletas americanos concorrendo por outros países.
Exemplo? O nosso César Cielo — que vive, treina nos EUA e disputa os campeonatos locais. É um produto da natação americana, tal a tese, que relaciona outros vários nadadores, nomes do atletismo e mesmo jogadores de esporte coletivo, como a legião de atletas de vários nacionalidades que atuam na liga profissional dos EUA, aí incluído um dos maiores ídolos da China. O que se pretende provar? A superioridade do esporte praticado nos EUA, de qualidade e penetração global.
Esportes sempre tiveram um viés político, no bom e no mau sentido. No lado bom, pode-se colocar o patriotismo, o sentimento de bem-estar de que todos participam quando “um dos nossos” levanta uma medalha. No lado negativo, a pretensão dos governos de, via medalhas, demonstrar a superioridade nacional, com objetivos externos — exibir-se como potência — e internos, ganhar o apoio do povo.
O exemplo que vem logo é o da Olimpíada de Berlim promovida por Hitler. Mas, guardadas as proporções históricas, a China está claramente no lado negativo. Seu objetivo não é apenas mostrar-se como potência, mas como potência no modelo chinês político e econômico.
Esse modelo ora é apresentado como caminho chinês para o socialismo, para fins internos, de modo a justificar a história comunista, ora como economia socialista de mercado, para dizer aos investidores estrangeiros que o socialismo é político, mas a economia, de mercado.
Os chineses são mestres na simulação de linguagem. Já chamaram privatização de “devolver as empresas ao povo”. Descontado isso, de que se trata? Uma ditadura política com capitalismo na fase da acumulação que se diria selvagem. Vai aqui uma combinação de salários baixos com pesado investimento em infra-estrutura e bens de capital, isso obtido com uma rigorosa poupança, em boa parte forçada pela falta de uma rede de proteção social.
Por exemplo: quase não há aposentadoria pública e o sistema de ensino é pago nas fases média e superior.
Em 1995, o salário médio na indústria chinesa era de um dólar a hora. No ano passado, alcançou pouco mais de três dólares, o triplo, mas ainda menos da metade do salário médio das regiões metropolitanas brasileiras. Nos EUA, o salário hora era de 17 dólares em 2007.
Além disso, trata-se do crescimento a qualquer custo social e ambiental.
Cidades inteiras são deslocadas para a instalação de usinas ou de aeroportos.
Desenha-se uma estrada pela sua conveniência econômica, não importa por onde passe.
Como é possível manter as coisas assim? Com a polícia política, a imprensa controlada, a censura, a eliminação das eleições livres.
E bem vistas as coisas, todos esses elementos estiveram presentes na preparação e realização da festa olímpica.
Por pressão do Comitê Olímpico, os jornalistas estrangeiros tiveram acesso ampliado à internet, mas só nos centros de imprensa dos Jogos e com claros limites.
Digita-se Tibet e, nada.
Mesmo incidentes menores, como um acrobata que se machucou, foi escondido pelas autoridades. Manifestantes foram presos e o governo chegou ao ridículo de designar praças para protestos, desde que solicitados com antecedência, revelando-se o tema da reclamação.
Também bem vistas as coisas, as medalhas chinesas vêm do mesmo processo.
O modo de formação dos atletas, como uma política de Estado, só é possível numa ditadura. Os jovens selecionados pelo seu potencial entram em regime militar, internados em casas de treinamento como se fossem quartéis.
Dependem de autorização dos chefes para tudo. Quem quiser parar ou cometer falta política, é punido como se fosse um criminoso, tanto quanto um dissidente político.
São medalhas manchadas.

Thursday, August 21, 2008

Pequenos monstros by João Pereira Coutinho

Confesso: tenho assistido aos Jogos Olímpicos. A culpa não é minha. A culpa é da diferença horária: quando vou para a cama, Pequim está acordado. Deitado no leito, com a tv ligada, acompanho os exercícios. E a insônia vem a seguir.

Insônia por que? Por causa dos atletas chineses. Nada tenho contra chineses. Mas é difícil resistir ao rosto dessa gente. Americanos, russos, europeus, brasileiros - tudo gente normal, com as alegrias e tristezas de gente normal. Mas os chineses são outra história: o rosto exibe uma tensão e uma infelicidade que não se encontram nos outros. E quando falham, isso não representa uma derrota para os atletas. Representa uma tragédia de contornos apocalípticos. Como explicar o fenômeno?

Infelizmente, com política. Os Jogos não são mero desporto para a China; são uma forma do regime mostrar superioridade perante o mundo (tradução: perante os EUA), vencendo mais medalhas e apresentando uma organização imaculada, onde o fogo de artifício é gerado por computador e crianças inestéticas são dubladas por rostos mais fotogênicos. Um atleta chinês, quando entra em cena, está em guerra diplomática. Perder é morrer.

Mas existe uma razão adicional e pessoal: há trinta anos que a China persiste na sua política do filho único como forma de limitar a explosão demográfica. E essa política tem um preço: quando os casais têm um único filho, a pressão e as expectativas de sucesso aumentam, esmagando os desgraçados. A China criou uma juventude admirável: pequenos monstros que jogam a existência, sua e dos progenitores, em cada prova desportiva ou académica.

A revista "Psychology Today" relembrou recentemente alguns números a respeito. Números que arrepiam. Anualmente, as universidades chinesas produzem 4 milhões de diplomados. Mas a China, apesar do boom económico, apenas consegue absorver menos de metade. O desemprego é o caminho para a maioria, isso numa cultura que nunca tolerou pacificamente o fracasso.

Moral da história? Para começar, o suicídio é a primeira causa de morte entre os chineses mais jovens (entre os 20-35 anos); e só entre os universitários, 25% têm recorrentes pensamentos suicidas (nos EUA, por exemplo, só 6%). Conta a revista que a China lidera os problemas psiquiátricos entre crianças e adolescentes, com 30 milhões a necessitar de acompanhamento psicológico, que aliás não existe: uma das heranças perversas da tirania de Mao foi percepcionar os problemas psicológicos como "anti-socialistas", enviando os "reacionários" problemáticos para campos de trabalho.

Sim, o Brasil pode lamentar as medalhas perdidas. Mas existe um prémio de consolação: os jovens brasileiros entram e saem da China com a cabeça intacta. A sanidade vale ouro.

Wednesday, August 20, 2008

Memories!!

Wednesday, August 13, 2008

A nova estatal do petróleo: paixão pelo Estado by Mailson da Nóbrega

A crença na capacidade do Estado de resolver todos os problemas tem raízes profundas na sociedade brasileira. A maioria ainda se guia por um conjunto de hábitos, idéias, suposições e padrões institucionais típicos da cultura ibérica nutrida em séculos de centralismo.

Não é assim nos países anglo-saxônicos, nos quais se praticam outros valores, que atribuem papel mais relevante ao setor privado. Ao Estado cabe prover as instituições que alinham incentivos para que os indivíduos busquem o progresso. São fundamentais a estabilidade de regras, a previsibilidade, a concorrência, a preservação dos direitos de propriedade e o respeito aos contratos.

Por isso, a Inglaterra e suas colônias no Novo Mundo chegaram mais cedo ao capitalismo contemporâneo e enriqueceram. Espanha e Portugal declinaram do apogeu das grandes descobertas e entraram no século 20 como nações pobres. Suas colônias nas Américas ficaram para trás em relação aos EUA.

Na América Latina, o Estado liderou o desenvolvimento, particularmente a partir do pós-guerra. Outros países também recorreram à ação estatal para atingir a industrialização, como Alemanha, França e Bélgica no século 19 e Coréia do Sul, Cingapura e outros países asiáticos a partir dos anos 1950.

Na Europa e na Ásia, o ativismo estatal desapareceu ou diminuiu muito quando o desenvolvimento decolou e o setor privado se mostrou capaz de assumir a liderança. Isso aconteceu até na França, onde ainda é forte a cultura estatista: todos os bancos do governo foram privatizados.

Acontece que na América Latina o Estado desenvolvimentista conviveu com uma cultura avessa ao lucro e à iniciativa privada. Pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros apóia o controle estatal nos bancos, no petróleo, na energia elétrica e em outras áreas.

Por isso, o Estado se manteve forte na atividade econômica latino-americana. Houve privatizações nos anos 1980 e 1990, mas a idéia ainda é muito mal vista. No Brasil, apesar das evidências em contrário, ainda há quem ache que a Cia. Vale do Rio Doce, a Embraer e outras empresas não deveriam ter sido privatizadas.

Na Argentina, na Venezuela e na Bolívia, empresas estatais voltaram a ser criadas. O gás boliviano foi reestatizado. Ações semelhantes continuam a ocorrer na Venezuela, como no caso recente da estatização da filial de um banco espanhol.

É nesse contexto que se deve ver a idéia do ministro de Minas e Energia de criar uma empresa 100% estatal para explorar as reservas do Pré-Sal. Pensando em fazer o melhor para o país, s.exa. se move por esse tipo de padrão mental.

Pouco importa, ao que parece, que as novas jazidas tenham sido descobertas pela combinação vitoriosa do trabalho da Petrobrás com a das empresas estrangeiras, que foram atraídas pelo fim do monopólio estatal da exploração de petróleo (Lei 9.478, de 1997).

O modelo adotado na abertura da exploração de petróleo foi sem dúvida um êxito. Em vez de comemorá-lo e de fortalecê-lo, agora que a exploração do Pré-Sal exigirá vultosos investimentos e avançada tecnologia, o ministro e outros membros do governo querem modificá-lo. Além da criação da estatal, as normas seriam mudadas para adoção do modelo de partilha.

Em vez da estabilidade das regras, o governo prega a ruptura, de modo a reservar ao Estado - e apenas para ele - os resultados da exploração das novas jazidas. A idéia, devemos reconhecer, soa esperta para quem vê com desconfiança a atividade empresarial privada. Mas não é.

Na verdade, essas ações podem gerar insegurança em quem investiu acreditando na seriedade do novo modelo e nos criar problemas no futuro. Prejudicarão os que adquiriram ações da Petrobrás, inclusive os trabalhadores que usaram seu FGTS para comprar os papéis da empresa estimulados pelo governo. Rezemos para que o bom senso prevaleça e a nova estatal morra no nascedouro.

As novas gerações provavelmente se livrarão do cacoete estatista. Afinal, isso aconteceu na Espanha e em Portugal destes últimos anos. As pesquisas também mostram que a educação altera o modo como a sociedade brasileira vê o Estado, mas enquanto a mudança não vem continuaremos a ver a resistência à privatização e o apoio a propostas como a do ministro. A paixão pelo Estado, como se vê, não é privilégio da esquerda.

*Mailson da Nóbrega é ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria Integrada (e-mail: mnobrega@tendencias.com.br)

POR QUE NÃO ME UFANO by Daniel Pizza

Li as pesquisas sobre o aumento da classe média (de R$ 1.000 a R$ 4.500), que passou a ser maioria no Brasil (51%), mesmo pagando um terço do seu ganho em impostos e um terço em serviços que o Estado não lhe provê com o dinheiro desses impostos. Só não entendo por que se faz tanta festa. Recuperou-se a renda de dez anos atrás, e está claro que por obra do desenvolvimento da sociedade, não de programas assistencialistas. Além disso, muita gente desceu de patamar também, pois os empregos gerados são de qualificação baixa. E um terço da população continua a viver com menos de um salário mínimo. Enquanto isso, a China cresce 10% ao ano, investe pesado em educação e tecnologia e se prepara. O Brasil precisa parar de achar que o futuro já chegou toda vez que há uma boa notícia.

Monday, August 11, 2008

Por uma sociedade justa e eficiente by Stephen Kanitz

Por uma sociedade
justa e eficiente

Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas
intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados?
Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas

Ilustração Atômica Studio


No primeiro ano de faculdade aprendi um truque que muito me auxiliou na hora de obter notas melhores. Descobri que, numa prova na qual cai um tema que você não estudou, que o pegou de surpresa, sobre um assunto de que você não sabe absolutamente nada, o melhor é não entregá-la em branco, que seria a coisa mais lógica e correta a fazer. Nessas horas, escreva sempre alguma coisa, preencha o papel com abobrinhas, pois, quanto maior o número de páginas, melhor. Isso porque existem dois tipos de professor no Brasil: um deles é formado pelos que corrigem de acordo com o que é certo e errado. São geralmente professores de engenharia, produção, direito, matemática, recursos humanos e administração. Escrever que dois mais dois podem ser três ou doze, dependendo "da interpretação lógica do seu contexto histórico desconstruído das forças inerentes", não comove esse tipo de professor. Ele dá nota dependendo do resultado, e fim de papo.

Mas, para a minha alegria, e agora também para a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado. Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5. O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.

Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha. Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.

Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada. O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?

Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço? Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?

Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma "renda mínima"? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o "sistema"? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou por uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?

Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores "carrascos" pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época. Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.

Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.

Nessun Dorma

DEEP PURPLE & PAVAROTTI - NESSUN DORMA

[via FoxyTunes / Deep Purple]

Tuesday, August 05, 2008

Vamos ser tolerantes? by João Pereira Coutinho

Vamos ser tolerantes?


Questão bicuda: a Alemanha tem 163 mesquitas para seus 3 milhões de muçulmanos. Mas 163 mesquitas não chegam. Informa a revista "Der Spiegel" que mais 184 mesquitas vêm a caminho, uma realidade que não agrada à maioria dos alemães. Os alemães não desejam a "islamização" do seu espaço público. E temem que as mesquitas sejam centros de propagação fanática ou de recrutamento terrorista.

Os confrontos já começaram. Em Lavingen, por exemplo, cocktails Molotov são recorrentemente jogados na mesquita da cidade. Em Hanover, opta-se pelo insulto verbal, com o dito "Terra christiana est", qualquer coisa como "Essa é terra cristã", escrito nas paredes do edifício.

Mas notável é a projetada mesquita de Colónia, que será a maior de toda a Europa, com seus 22 mil metros quadrados, 55 minaretes, uma altura comparável a 18 andares e, imagino eu, o inevitável chamamento para a oração que cobrirá toda a cidade com os dizeres do Corão. Como responder ao problema social que as mais de três centenas de mesquitas começam a representar para os alemães?

Um liberal clássico, para quem o Estado deve ser sempre neutro perante diferentes concepções do bem, dirá consequentemente que o Estado é também neutro em matéria religiosa. Se não existe uma religião oficial, então não existe nada que impeça os muçulmanos europeus de construírem as mesquitas que entenderem (desde que, obviamente, respeitem as leis do Estado). Sim, seria improvável que uma comunidade cristã, ou judaica, pudesse construir uma mega-igreja, ou uma mega-sinagoga, no centro de Teerã. Isso seria um pecado de morte, punível com a terapia conhecida. Mas a diferença entre as democracias liberais do Ocidente e as teocracias corruptas do Oriente Médio reside precisamente aqui: a tolerância é um dos mais preciosos frutos da separação entre o Estado e a Igreja, inexistente no Islã. Uma mesquita, uma sinagoga, uma igreja: tudo é igual perante um Estado confessionalmente neutro.

Eu simpatizo com os liberais clássicos. E não pretendo repudiar o dogma da neutralidade do Estado perante diferentes concepções do bem. Pelo contrário: gostaria de o ver reforçado. E a melhor forma de reforçar as virtudes liberais seria permitir a construção de uma mesquita, integrando-a plenamente na natureza diversa das cidades ocidentais. Nada de guetos. Nada de áreas especificamente islamizadas. Nada de tratamento especial. A permissão seria concedida se as autoridades islâmicas aceitassem que as suas mesquitas teriam como vizinhos imediatos uma sinagoga, uma sex shop, um café (para ambos os sexos), salas de cinema, livrarias, açougues (com todo o tipo de carnes), lojas de vinhos (bem fornecidas) e, uma vez por ano, a parada gay a desfilar à porta.

A tolerância é um valor crucial. Mas a tolerância termina perante a intolerância dos outros. Aceitar mais uma mesquita? Nada contra. Desde que a mesquita aceite tudo o resto.

João Pereira Coutinho

Tuesday, July 08, 2008

De oprimidos e opressores by Reinaldo Azevedo

De oprimidos e opressores
Fiz ontem, vejam lá, algumas considerações sobre a situação africana. E recebi um comentário interessante. Na sua crueza, não é muito diferente do que pensa de seus adversários uma Marilena Chaui, por exemplo, embora ela busque colocar um pouco mais de recheio filosófico em seu rocambole filototalitário. Lá vai a questão: “Reinaldo, por que [ele acentuou esse “que”, e eu já dei essa aula...] você fica sempre do lado dos opressores e não dos oprimidos? Isso é ser de direita, ou você quer ser do contra? Explica pra nós vai.”

Se eu tivesse de escolher uma dessas duas opções ou ir para a forca, eu diria que é porque “quero ser do contra” — de fato, tem mais a ver com meu temperamento. Mas depois me ocorre que só se é “do contra”, nesta acepção que designa o sujeito que sempre reclama, quando estão plasmados consensos. Como esses consensos, especialmente na esfera dos valores morais e culturais, são de esquerda, então esse meu gosto pelo “contra” acaba assumindo, na geografia dada, uma característica que dizem ser “de direita”. Não sei se confundo o pobre leitor que fez a pergunta, mas o fato é que comecei o parágrafo para lhe dizer que sou do contra e concluo afirmando que, dados os consensos (e só nessa circunstância), sou tambem de direita.

Alguns tontinhos, especialmente alguns desafetos da mesma profissão, acreditam que, sei lá, aderi a uma moda que acho divertida. Moda? Somos quantos mesmo? Quatro? Cinco? Seis no máximo. A nossa multidão não lota uma Kombi. Mas volto à indagação do meu amigo. Não é verdade que eu esteja sempre do lado dos opressores — em causas recentes ou passadas. Nunca defendi os fascistas, mas os meus “oprimidos” não eram os comunistas. Se leio sobre Roma Antiga, por exemplo, não é que eu hostilize os povos dominados — é que acredito firmemente que a expansão da cultura latina foi um bem para a humanidade.

Se eu pudesse ter escolhido, caro leitor, talvez tivesse impedido a expansão mercantil e as grandes navegações dos séculos 15 e 16. Os europeus teriam ficado quietinhos lá no canto deles; os nossos nativos passariam a eternidade batendo o pé no chão para acordar os mortos; os africanos continuariam lá tocando a sua vidinha buliçosa, cheia de cultos animistas — sobre a expansão do Islã, ainda não decidi se teria interferido ou não: conhecendo-me um pouco, acho que sim. E os chineses? Bem, chineses, indianos, japoneses protegeriam de olhares curiosos sua sabedoria milenar, cheia de significados para... chineses, indianos e japoneses. Mas o mundo não se fez assim, entende? Não se fez.

O que é estar sempre “do lado do opressor”? É não olhar com os olhos da moral contemporânea a expansão mercantil, por exemplo? Se os povos pré-colombianos tivessem dominado uma técnica que lhes permitisse sair ao mar, colonizando outras terras, o mundo seria mais justo? Tenho sólidas razões para duvidar disso. Como rejeito essa conversa mole de “Mãe África”. Os negros escravos dos brancos portugueses e brasileiros não sofreram mais aqui do que teriam sofrido nas mãos de seus senhores. Nego, com isso, os horrores da escravidão? De jeito nenhum! Eu apenas demonstro que as noções contemporâneas que temos de igualdade e de justiça são uma construção deste tempo. E cumpre que façamos o melhor do que fizeram de nós, em vez de tentar fazer a história voltar para trás.

Mas sua pergunta não é de todo descabida. Eu, com efeito, prefiro as reformas às revoluções; prefiro os processos de construção da igualdade, preservando o que tem de ser preservado, às rupturas, que, não raro, degeneram em violência, morte e novos horrores, mas aí com a chancela moral da “libertação”. Poucos regimes foram tão essencialmente autoritários, violentos e homicidas quanto a vigência do Terror jacobino, durante a Revolução Francesa. E poucos discursos foram tão humanistas quanto o daqueles revolucionários. Fascismo e socialismo, no século passado, falavam em nome da libertação.

Talvez eu seja, contra a minha própria inclinação, um otimista e acredite, veja que coisa, no progresso, dadas certas precondições, como democracia representativa, por exemplo. E tenho algumas convicções. Não aposto em iniciativas que contrariem a economia de mercado porque acho que ela está mais bem-adaptada a alguma coisa que chamo de “espírito humano”, à falta de uma definição mais precisa. O cérebro desse macaco sem pêlo, que somos nós, impele-nos, por alguma razão, à competição e à busca do novo. Falharam todas as tentativas de aprisioná-lo. Por que os MSTs da vida e sua pantomima revolucionária me entediam? Porque sei que eles vão continuar a consumir alguns bilhões de recursos públicos para... nada! Ou, sim, para alguma coisa: para continuar a alimentar a própria causa. Acredito na “tal luta dos oprimidos”? Acredito, por exemplo, em quem se organiza para a formalização da mão-de-obra empregada pela agroindústria. O MST quer outra coisa: uma espécie de éden comunista, já testado e rejeitado pela história.

Veja que coisa, leitor: considero que João Pedro Stédile é, ele sim, um opressor daquela gente que ele mobiliza. Até porque o seu modelo não prevê que os “sem-terra” recebam o seu quinhão para, sei lá, cuidar da vida e progredir como seres autônomos: eles passam a pertencer a uma categoria que há de persegui-los até a morte: serão para sempre assentados sem-terra, devendo vassalagem ao seu suserano: o MST. Quem é o opressor dessa história?

E arremato lembrando que o “discurso do oprimido”, como uma visão de mundo, é um contradição dada pelos próprios termos. O oprimido de verdade está esmagado pelo silêncio. Se o sujeito é dotado de uma fala organizada, então já é um ator político. E se, como tal, reivindica, ainda assim, a condição de um oprimido, ele já começou a construir o discurso do opressor — e do pior deles: aquele que busca o direito histórico ao uso legítimo da violência. Não se esqueçam de que na base do fascismo, por exemplo, estava um recalque. Diria mesmo que ele foi a explosão violenta do recalcado.

Ontem, os sem-terra se organizaram em Parauapebas, no Pará, para tentar libertar na marra um dos seus que tinham sido preso. Era seu particular senso de justiça em ação. Foram reprimidos pela Polícia, os pobrezinhos. A poucos ocorre que eles estavam lá para oprimir o estado democrático e de direito, que não se construiu da noite para o dia.
Por Reinaldo Azevedo

Monday, July 07, 2008

Eles não abrem mão do seu oprimido by Reinaldo Azevedo |

Certo! Lembrei que os países ricos não podem ser responsabilizados pelas ditaduras africanas; que elas matam o povo de fome muito mais do que qualquer crise de grãos. Grande revolta nas hostes “africanófilas” da elite esquerdista brasileira, a muitos milhares de distância dos conflitos de negros contra negros daquele continente — no Brasil é que uma parte dos negros acha que os inimigos são os brancos... Na África, ninguém dá bola para a cor da pele.

Também há os que estão nervosos porque afirmei que parte da crise de alimentos — se tem mesmo origem no etanol do milho — deve ser debitada na conta dos escatológicos do aquecimento global. Ué... O mundo não iria derreter? Não se prometeu o apocalipse? Então: tentaram evitar a catástrofe. Não adianta negar: o biocombustível mereceu o selo verde, e essa é uma das raízes do desequilíbrio.

Não seria a primeira vez que as escatologias amigas da humanidade, do bem, do belo e do justo provocariam desastres. Isso tem sido mais ou menos uma constante. Jamais se vai admitir, claro, mas grande parte do desastre africano se deve à forma como se deu a independência dos países subsaarianos: guerras de libertação, a maioria hostilizando os descendentes dos colonizadores. Resultado: junto com a independência, vieram as ditaduras, a hostilidade à produção e uma queda brutal na qualidade de vida.

A despeito das dificuldades que enfrenta, da pobreza, qual é o único país com chances reais de alcançar um padrão civilizado num horizonte que podemos alcançar? A África do Sul. O fim do odioso regime do apartheid, por contraste, deixou como herança a democracia que existia para os brancos: e ela se universalizou. O país está longe de ser um paraíso, mas também está longe do inferno dos seus vizinhos. Uganda é outro que vem saindo do atoleiro — o padrão de comparação é sempre o entorno —, e também tem conseguido tal resultado, vejam só, com a adesão, bastante recente, ao regime democrático. Vai durar? Vamos ver.

Mas ok. Conforta a moral militante a idéia de que os africanos são vítimas de europeus e de americanos desalmados? Regozijem-se. Essa gente quer um oprimido pra chamar de seu.

Sunday, July 06, 2008

Pernil gordo by J.R. Guzzo

"Para cada vez mais gente, e com o incentivo cada vez maior do poder público, empresas como Vale, Alcoa e Cargill são vistas como um pernil gordo, de onde sempre se pode tirar uma fatia – e sempre em nome dos pobres. Não há notícia, até hoje, de nenhum benefício concreto que esse tipo de postura tenha trazido para eles. Em vez de se tornarem cidadãos, são incentivados a se tornar parasitas"

A Vale, a maior empresa mineradora do Brasil, está envolvida em mais um problema no Pará. É apenas o último de uma série que não dá o menor sinal de estar perto do fim – algo perfeitamente natural quando se leva em conta que os "movimentos sociais", sempre com apoio de alguma facção da burocracia oficial, descobriram há tempos que criar caso com empresas de grande porte, dinheiro em caixa e uma reputação internacional a defender é um excelente negócio no Brasil de hoje. O incentivo para quem opera nesse ramo é a idéia geral, cada vez mais aceita, de que empresas como a Vale vivem em situação de pecado; se fazem tanto sucesso é porque estão, de algum jeito, do lado do mal. Sempre há ótimas chances, assim, de sair levando vantagem numa disputa com elas. Como uma companhia que se dedica à extração de minérios, opera na Amazônia e ocupa tanta terra para suas atividades pode ter razão em alguma coisa, seja lá o que for? Se do outro lado do conflito estiverem pessoas pobres, ou descritas como tal, fica tudo mais fácil ainda. No pior dos casos, acaba saindo uma "negociação" e a empresa concorda em ceder isso ou aquilo para livrar-se do problema – até aparecer o próximo.

O episódio mais recente da coleção, segundo relato dos repórteres Eduardo Scolese e João Carlos Magalhães, da Folha de S.Paulo, refere-se a uma possível queixa do Incra, na qual a Vale é citada por ter comprado, entre 2003 e 2007, o direito de ocupar os lotes de 53 assentados num projeto de reforma agrária no interior do Pará – na área onde está investindo cerca de 2 bilhões de dólares para a implantação, já avançada, de uma mina de níquel. A empresa pagou aos assentados até 9.500 reais o alqueire, o triplo do preço de mercado. Na hora de fechar o negócio, não parece ter havido objeções; todos receberam seu dinheiro e deixaram a área. Mas uma parte dos vendedores, agora, diz que foi iludida e se arrepende da transação. Não está claro se pretendem devolver o dinheiro que lhes foi pago. Informa-se, apenas, que estão infelizes e que autoridades do Incra, de quem receberam os lotes, estão mais infelizes ainda – estudam, no momento, que tipo de providências poderiam tomar contra a Vale.

Segundo as normas em vigor, os assentados em projetos de reforma agrária não podem vender os lotes que receberam; na teoria, quem não quer mais a sua área tem de devolvê-la ao Incra, que a entregará, também na teoria, a um novo interessado. Na prática, é claro, vive acontecendo a venda de lotes por assentados que ficam com o dinheiro, vão embora e eventualmente recebem um novo pedaço de terra em outro lugar. É igualmente claro que fica tudo por isso mesmo – a menos que o comprador seja alguém como a Vale. Aí aparece uma oportunidade de ganho, em dinheiro ou em ideologia, e a coisa fica complicada. Complicada só para o comprador, naturalmente, pois o vendedor é pobre, e em sua condição de pobre nunca pode estar errado, segundo a melhor doutrina em vigor na máquina pública brasileira.

A Vale sustenta que não fez nada de ilegal: diz que o Incra acompanhou as transações diretamente, desde o começo, e que não pagou aos assentados pela propriedade da terra, mas sim a título de indenização pelas benfeitorias existentes nos lotes. O episódio, de uma forma ou de outra, acabará tendo o seu desfecho no devido tempo. A questão que fica, mais uma vez, é a crescente insegurança que tantas empresas enfrentam para tocar o seu negócio no Brasil atual, sobretudo em lugares como o Pará, onde os sinais da existência de leis na vida real vão se tornando a cada dia menos visíveis. Também ali, recentemente, outra empresa de mineração, a Alcoa, comprou uma área de mata nativa, vizinha ao local onde está instalando uma operação de beneficiamento de bauxita, para preservar o verde – e mostrar que a atividade industrial pode conviver com a defesa do ambiente. Má idéia. A mata foi invadida por sem-terra que derrubaram quase todas as árvores, na certeza de que destruir a propriedade de empresas como a Alcoa é hoje em dia um procedimento aceito como normal pela autoridade pública; faz parte da "dinâmica social". E a Alcoa? Se tiver sorte, não será multada pelo Ibama.

Empresas como Vale, Alcoa, Cargill (que há mais de um ano enfrenta todo tipo de dificuldade para operar um porto de exportação de soja em Santarém, também no Pará) e tantas outras não são consideradas como um fator de progresso num ambiente de miséria. Não se leva em conta que produzem renda, impostos, empregos e oportunidades, cumprem a legislação trabalhista e não operam com caixa dois. Para cada vez mais gente, e com o incentivo cada vez maior do poder público, são vistas como um pernil gordo, de onde sempre se pode tirar uma fatia – e sempre em nome dos pobres. Não há notícia, até hoje, de nenhum benefício concreto que esse tipo de postura tenha trazido para eles. Podem, aqui e ali, acabar levando uns trocados, mas sua vida não melhora em nada; em vez de se tornarem cidadãos, são incentivados a se tornar parasitas. Ganhar, mesmo, só ganham os profissionais do mercado da pobreza.

As Farc no papel do otário by Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

A libertação de Ingrid Betancourt coroou o
fim de um resistente mito latino-americano

De Sierra Maestra a San José del Guaviare cumpriu-se um ciclo na história da América Latina. Em Sierra Maestra, no sul da ilha de Cuba, onde, na passagem do ano de 1956 para o de 1957, se juntou o pequeno grupo de seguidores de Fidel Castro para iniciar a luta contra a ditadura de Fulgencio Batista, nasceu o mito do guerrilheiro romântico, destinado a pairar sobre a vida do continente pelo próximo meio século. Em San José del Guaviare, localidade da Colômbia em cujas cercanias foram resgatados, na quarta-feira passada, Ingrid Betancourt e outros catorze reféns das Farc, o mito, já abalado por sucessivas derrotas e desgastado pela velhice e pelo descrédito, conheceu um fim humilhante. As Farc, sua última encarnação, perderam o cacife que lhes restava sem direito a um único tiro para lhes salvar a honra. Foram vencidas, como o caipira que cai no conto-do-vigário, pelo truque de um adversário mais esperto.

A imagem do guerrilheiro que desce da montanha com a promessa de um mundo novo foi muito ajudada pelo clima reinante à época em que surgiu em cena. As barbas de Fidel Castro dialogavam com os cabelos compridos dos Beatles. Na salada geral dos anos 60, não importava que uns tivessem um fuzil na mão e outros pregassem paz e amor, que uns mirassem num regime de força e outros se refestelassem na anarquia; eram todos partes de um sonho em que tudo parecia possível. Em contraste, ao falecer, no início do ano, o líder das Farc, Manuel Marulanda, já não podia ombrear sequer com o antigo ídolo do rock reduzido a cantor de churrascaria. Era pior: o cantor que perdera a voz, e mal dedilhava a guitarra desafinada. A Manuel Marulanda, el Tirofijo, segundo o apelido que tentava insuflar-lhe alguns trocados de prestígio, coube o destino cruel, para um guerreiro, de morrer na cama. Ao contrário de Che Guevara, não conheceu, nem conhecerá, a glória das camisetas e dos pôsteres.

O Muro de Berlim desabou, a Guerra Fria chegou ao fim, o capitalismo mostrou-se dono de muito mais que sete fôlegos. Não repisemos essas histórias. As causas pelas quais as Farc não encontraram o mesmo terreno favorável da guerrilha cubana são conhecidas. Fiquemos com a questão do mito. Na América Latina, tão mais dada à retórica do que à ação, tão mais tentada pela fantasia do que pela realidade, a noção de que um pequeno grupo de jovens, um ideal na cabeça, uma barba no queixo e um fuzil na mão, fosse capaz de reinaugurar o mundo sobreviveu a mais de uma geração. A derrota de Che Guevara na Bolívia não a arrefeceu, muito pelo contrário. Serviu de inspiração para movimentos guerrilheiros (muitas vezes degenerando em terrorismo) que floresceram da Venezuela ao Uruguai, da Nicarágua ao Chile, passando pela Argentina e pelo Brasil.

Um dos últimos, o Sendero Luminoso, do Peru, já exibia os sinais de fadiga que haveriam de culminar nas Farc: a prática do crime pelo crime, o casamento com o narcotráfico. A imagem do líder do Sendero, Abimael Guzmán, exibido numa jaula dentro da qual esperneava como um gorila e rugia como um urso, depois de preso e levado a julgamento, no começo dos anos 90, distanciava-se irremediavelmente do olhar romântico do Che, tal qual capturado na foto de Alberto Corda. Na etapa seguinte, os ativistas das Farc iriam merecer o epíteto infamante de narcoguerrilheiros. E em meses recentes destacaram-se como torturadores dados a manter seus seqüestrados presos a troncos de árvores.

As Farc cumpriram à perfeição o roteiro imaginado pelo cientista político americano Eric Hoffer: "Toda grande causa começa como um movimento, vira um negócio e finalmente degenera numa quadrilha". Ou melhor, até anteciparam a ordem prevista por Hoffer, na medida em que os ramos de negócio que abraçaram, o narcotráfico e o seqüestro, já se confundiam com atividades quadrilheiras. Não há mito que resista. A imagem que hoje comove o mundo não é a do guerrilheiro vencido, como, nos anos 60, a de Guevara morto. É a de Ingrid Betancourt, a vítima da guerrilha.

O arremate veio na forma como foram libertados os reféns, na semana passada. Na aurora do mito, esperta era a guerrilha, e os governos é que eram feitos de bobo. Os tupamaros, nos primeiros tempos, antes de o conflito com a ditadura uruguaia virar um torneio de sangue, eram especialistas em brincar de esconder com os agentes da repressão. Faziam uma manifestação-relâmpago em certo lugar e quando a polícia chegava estavam em outro. Assaltavam um banco e corriam para distribuir o dinheiro entre os pobres. Na operação de resgate da semana passada, agentes do governo colombiano fingiram-se de guerrilheiros e assim obtiveram a pacífica entrega dos reféns. Pode ser que a história não seja bem essa, e tenha envolvido o suborno de algum chefe ou chefete da guerrilha. Em qualquer caso, as Farc entraram de trouxas na história. É difícil, mas vá lá que o mito até possa ter resistido à degenerescência do ideal em negócio, ou do negócio em crime. Não pode resistir à fama de otário.

POR QUE NÃO ME UFANO by Daniel Piza

POR QUE NÃO ME UFANO

Demoraram, mas enfim perceberam que os dados divulgados por institutos atrelados ao governo como o Ipea não são divulgados sem ''recortes'' interpretativos. É como se todos os índices positivos da atualidade fossem produto de fatores surgidos depois de 2003. Mas basta olhar com calma os dados de renda para ver que a média brasileira continua empacada na faixa dos últimos 15 anos. Veja também o caso da formalização de vagas de emprego medida pelo Caged, invariavelmente anunciada como ''criação de empregos''.

Já o índice oficial de inflação, o IPCA, continua muito abaixo de todos os outros, como o IPC e o IGP-M. Que a cesta básica tenha subido 52% em 12 meses é um alerta laranja, no mínimo. Mas o governo diz que não passa de ''alarmismo'', que foi a inflação mundial que subiu um pouco. Então tá: quando as coisas vão bem, o mérito é do governo, não da conjuntura internacional; quando vão mal, a culpa é do mundo. E tome juros altos!

"How Are We Doing?" The answer is "pretty good."




The American economy is in a rough patch. But the long-term trends are good—and there is a price to economic pessimism.

When a presidential election year collides with iffy economic times, the public’s view of the U.S. economy turns gloomy. Perspective shrinks in favor of short-term assessments that focus on such unpleasant realities as falling job counts, sluggish GDP growth, uncertain incomes, rising oil and food prices, subprime mortgage woes, and wobbly financial markets.

Taken together, it’s enough to shake our faith in American progress. The best path to reviving that faith lies in gaining some perspective— getting out of the short-term rut, casting off the blinders that focus us on what will turn out to be mere footnotes in a longer-term march of progress. Once we do that, we see the U.S. economy, a $14 trillion behemoth, is doing quite well, thank you very much.

So many data points add up to steady, continuing progress for average Americans—and there’s no reason not to expect the future will bring further progress (see examples in the charts above). Bad news will pop up from time to time, just as it has in every decade of American history. Some people will take the negatives—the hiccups on the long road to progress—for harbingers of worse times to come.

W. Michael Cox and Richard Alm of the Federal Reserve Bank of Dallas answer the question "How Are We Doing?" The answer is "pretty good."

Sobre lagartixas e dragões by GUSTAVO FRANCO




AS PESSOAS estão exageradamente assustadas com a inflação, a começar pelo ministro da Fazenda, e isso é muito bom.
Felizmente, exatos 14 anos depois do Plano Real, a memória do flagelo da hiperinflação permanece viva, ainda que embaçada. Sabe-se que foi uma tragédia, mas apenas os maiores de 32 anos tiveram a chance de ver, já maiores de idade, a criatura caminhar sobre território brasileiro. Na verdade, aqui esteve durante vários anos, quando foi alimentada por idéias de economistas heterodoxos, como estes que estão aboletados no Ipea, e tratada com banhos frios, feitiços e confiscos, às vezes mais danosos que o mal que a criatura nos causava.
A inflação acumulada em 12 meses até junho de 1994, medida pelo IPCA, atingiu 6.432,7%. Vale refletir sobre a grandeza desse número. Em junho de 1994, a inflação foi de 50% no mês, que equivalem a 12.875% anuais, ou cerca de 2% por dia útil. A meta de inflação para 2007 seria a inflação de um simples fim de semana, naqueles tempos loucos. Um feriadão já seria suficiente para estourar a meta.
Mas a criatura desapareceu em julho de 1994. No ano calendário de 1997, a inflação foi de 5,2%, e em 1998 chegamos a 1,6% para o ano inteiro, nossa melhor marca. Vida se assentou, especialmente depois dos sacolejos de 1999, 2002 e 2004, que abriram várias tumbas, e expuseram diversos esqueletos que, afinal, não saíram andando e devorando as pessoas, como alguns temiam.
Diante da excitação das últimas semanas em torno da aceleração da inflação de 4,5% anuais para 6,0% anuais, a primeira impressão, entre os mais velhos, é a de estamos lidando com lagartixas e não com dinossauros.
A presunção, talvez inocente, é de que esses não são fabricados a partir daquelas, mas os maiores de 50 anos sabem que a exposição prolongada a doses regulares de idéias econômicas radioativas podem metamorfosear animais frágeis em serpentes, que depois viram dragões. Não é muito provável, é claro, e, por isso mesmo, o ministro da Fazenda tem razão em dizer que não há motivo para pânico. Entretanto, esse tipo de desmentido é uma espécie de contradição em termos: se é preciso que o ministro diga algo assim, é por que há motivo para pânico.
E o motivo é muito simples: o ministro, e com ele o governo, não mostra nenhuma convicção de que o problema da inflação tem como causa a política fiscal, o mesmo velho problema. Para não repetir Milton Friedman sobre refeições gratuitas, vale lembrar Machado de Assis, no mesmo espírito: não se pode ir à Glória sem pagar o bonde.

Friday, July 04, 2008

A ética agora é roubar by João Mellão Neto

A ética agora é roubar

João Mellão Neto

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Quando Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua cátedra de sociólogo emérito, declarou, meses atrás, que a "ética do PT é roubar", não foram poucos os protestos escandalizados que ouviu. Hoje em dia, não haveria mais do que murmúrios envergonhados. Quando a corrupção grassa por toda parte, quando o próprio presidente empresta o seu prestígio para defender notórios larápios, é para começar a acreditar na cruel sentença do ex-presidente.

Para quem, por dever de ofício (sou jornalista), vem acompanhando com acuidade a história desse partido, a declaração de Fernando Henrique não tinha nada de surpreendente.

Os primeiros petistas, lá pelos inícios dos anos 80, nutriam uma interpretação muito particular do que fosse corrupção. Para eles, tratava-se de um problema menor, que seria automaticamente banido, uma vez implantada a sociedade sem classes. "O verdadeiro roubo, na sociedade, se dá entre patrões e proletários: tudo o mais advém disso." Como corolário deste raciocínio, não haveria nada de mais entre burgueses espoliando burgueses (isso é próprio do capitalismo) ou, então, entre pseudo-socialistas extraindo verbas do erário (é um dinheiro expropriado da burguesia para ser usado contra a própria burguesia).

Esse discurso, obviamente, não pegou. Não porque os petistas o considerassem de alguma forma equivocado, mas sim porque, na leitura deles, a sociedade brasileira, em especial a classe média, se arraigava a valores conservadores, tais como honestidade, integridade, austeridade e escrúpulo no trato do dinheiro público.

Após apanharem fragorosamente nas urnas por sucessivas eleições, os petistas decidiram fazer uma releitura de seu discurso. Não daquele básico, de extração marxista, razão de ser do partido, mas sim do discurso voltado para as massas. O PT, ao menos nas palavras,tornou-se um partido pequeno-burguês típico, bradando contra a imoralidade, exigindo cadeia para os corruptos e, paranoicamente, encontrando larápios em potencial até mesmo debaixo dos próprios colchões.

Não havia um pingo de sinceridade nesse discurso. Ele serviu apenas como escada para o PT ganhar as eleições. Tanto isso é verdade que foi abandonado com a maior sem-cerimônia, tão logo Luiz Inácio Lula da Silva galgou as rampas do Palácio do Planalto.

Se não o primeiro, o principal sinal de que as coisas haviam mudado se deu com aquele que ficou conhecido como "o escândalo do mensalão". Como teria agido um governo minimamente ético naquelas circunstâncias, desde que não tivesse nada a temer? Teria agido de forma determinada, de modo que não pairasse a menor suspeita sobre a sua lisura no episódio, a começar pela demissão sumária de seu então chefe da Casa Civil. O presidente Lula não só se manteve omisso durante todo o episódio como também atestou, por escrito, a idoneidade de Roberto Jefferson e, posteriormente, a do próprio José Dirceu.

Sucessivos escândalos foram vindo à luz e Lula, numa recorrência espantosa, foi sempre dando sinais de inequívoca simpatia pela causa dos acusados. Foi assim no caso do ex-presidente da Câmara dos Deputados e foi assim no caso do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula entregou-se ao requinte de ressuscitar até mesmo os mortos, como tem ocorrido várias vezes, sendo o caso mais recente o do ex-presidente do Senado Jader Barbalho.

Simpatia pelos deserdados de Deus? Duvido. O mais provável é que o presidente e o seu staff entendam que todo esse pessoal não tenha cometido ilícito algum. Ao menos dentro daquela ética - abandonada provisoriamente, porém jamais esquecida - do partido desde a sua fundação.

Se for assim, estamos mal. O homem público convencional, quando comete um delito, ao menos tem a exata noção do que fez de errado e por quê. Os petistas, não. Cometem as maiores barbaridades e vão dormir de bem com o travesseiro, porque acreditam que tudo o que fizeram teve uma motivação justa: a "causa". Se, decerto, nos anos 60 vários de seus atuais membros se dispunham a matar, ou até mesmo a morrer, em benefício dessa maldita "causa", que mal podem ver, agora, em surrupiar algum dinheiro do erário?

Nesta Nova República delinqüente, a classe média está emparedada. Tradicional reduto dos bons valores republicanos, desta vez ela não tem voz.

Conscientemente ou não, o PT a pinçou com tenazes de aço. Do lado dos pobres, apaziguou-os com a mesada do Bolsa-Família - mesada, sim, porque se trata de um punhado de dinheiro doado sem contrapartida, erodindo a ética do trabalho. Do lado dos ricos, porque com a política dos juros baixos e o crédito a perder de vista lhes propiciou ganhar mais dinheiro do que em toda a sua vida. A classe média, para variar, ficou bradando no deserto - quando não falando sozinha. Ela, sem dúvida, vai votar na oposição nas próximas eleições. Mas o que importa? O PT já amealhou votos suficientes para vencê-la com folga. E, para os petistas, isso é crucial. Calcula-se que, entre empregos diretos e indiretos, o Partido dos Trabalhadores (santa ironia!) tenha uns 40 mil parasitas vivendo à custa do governo. O que farão eles no caso de uma derrota?

Ora, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. O atual modelo econômico tem pés de barro. Essa fartura geral e irrestrita não é fruto de uma eventual maestria de Lula, mas reflexo da maior onda de prosperidade que o mundo conheceu desde a 2ª Guerra Mundial.

Retirem essa poderosa escada e o resultado é que ficarão todos ali. Desesperados, pendurados no pincel.

João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado

Tuesday, July 01, 2008

''Generosidade'' versus liberdade by Ilan Goldfajn

''Generosidade'' versus liberdade

A preocupação de curto prazo é a inflação, sem dúvida. Mas o risco maior para o crescimento no médio e no longo prazos se situa numa outra esfera. Melhor explicar com frases que ilustram o ponto. O ministro das Minas e Energia afirmou que ''não se cogita absolutamente de mudar os contratos existentes. Estamos sendo absolutamente generosos'' e, ''na medida em que as empresas apenas estejam auferindo lucros em demasia, deveremos rever essa situação, em benefício de todos'' (Valor Econômico, 27/6). Comentava sobre os ''contratos'' de exploração de petróleo e o desejo do governo de criar mais uma estatal para a nossa vasta coleção. Os ''lucros em demasia'' a serem revertidos são no setor de mineração. O ministro reflete um conflito que transcende a sua área de atuação: os contratos assinados viraram um incômodo e o respeito a eles passou a ser visto como uma generosidade dos atuais dirigentes. A construção institucional feita no passado - respeito a contratos, regulação via agências do Estado e menos intervencionismo - mede forças contra o desejo atual de controlar, dirigir, estatizar.

Há vários exemplos de mudança de direção, como o desmonte do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - publicações canceladas, funcionários dispensados - e a discussão dos portos - querem licitar portos, mesmo que, absolutamente, privados e já regulados. O cerne do debate sobre o crescimento futuro vai se concentrar neste ponto: haverá liberdade e facilidade para produzir, investir, arriscar e gerar valor no Brasil?

Na discussão macroeconômica, fala-se em claro e bom som da necessidade de resolver os gargalos da economia (ou seja, desobstruir os impedimentos à elevação da produção no médio prazo), de aumentar a oferta disponível, para não ter de desacelerar a demanda, e de incentivar as exportações. No dia-a-dia, a clareza macroeconômica cede lugar a uma combinação cinzenta de ideologias e interesses.

A discussão dos portos é emblemática. Há um visível esgotamento da capacidade portuária no Brasil com o bem-vindo aumento do comércio exterior. Mas existem limites orçamentários para aumentar os investimentos públicos no setor. Como em outras áreas, o progresso vai depender da capacidade de atrair para o setor capitais privados que estejam dispostos a correr o risco do investimento em troca da expectativa de um retorno futuro. O governo tem de ser capaz apenas de mostrar estabilidade macroeconômica e regulatória (manter as regras que ele mesmo estabeleceu) e reduzir os entraves burocráticos a novos investimentos. Mas não é isso o que acontece.

Há interferência na decisão econômica, que deveria ser dos que atuam no setor. Não me refiro aqui à regulação necessária na economia. Afinal, há bens públicos a defender, como o meio ambiente ou o combate à barreira a entradas de novos concorrentes para evitar a formação de cartéis e monopólios. Isso já existe com as diversas agências reguladoras montadas no passado (e sendo enfraquecidas desde então). Nesse caso dos portos, interfere-se arbitrando que a existência de portos estritamente privados tenha de ser justificada apenas com sua carga própria, mesmo que o porto venha também a ser utilizado por terceiros, o que reduziria os custos operacionais pelos ganhos de escala. Ou seja, coloca-se um entrave, cujo custo é claro (retrai investimentos) e o benefício coletivo, duvidoso (qual é o ganho para o cidadão?). Os portos públicos encontram-se também prejudicados pela arbitrariedade das regras e ineficiência do setor público (há custos altos e monopólios sindicais criados pelo governo). Mas isso não é razão para impedir o progresso dos portos privados, mas sim demandar mudanças nas regras ineficientes do governo.

O irônico é que no momento em que a realidade impera e se sinaliza que se ''aceita'' remover esse obstáculo (afinal, quem não quer mais investimentos?), a ideologia e o desejo de controle imperam, e o governo anuncia que, como contrapartida, pretende requisitar plano de outorgas e licitar todos os novos portos, mesmo os privados. Ou seja, se alguém quer investir em portos, vai caber ao governo decidir se é viável e/ou desejável. Por trás dessa iniciativa está um conflito comum hoje no governo: o desejo da nova Secretaria Especial de Portos (criada para acomodar conflitos políticos) de dirigir e decidir sobre o setor para além da regulação exercida pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Essa nova exigência de planos de outorga e licitação deve atrasar e/ou desestimular os novos investimentos. Enquanto isso, continuaremos a debater em público, em abstrato, sobre os gargalos da economia e por que o Brasil não consegue crescer mais, sem gerar inflação.

O Ipea e o Indec - Se a sociedade não tomar cuidado, o Ipea vai-se converter no nosso Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (Indec)). O Indec, o ''IBGE argentino'', encontra-se num estado de profunda perda de credibilidade, cujas conseqüências vão além do atual governo dos Kirchners. Ao longo dos últimos anos, o governo argentino foi intervindo, censurando suas publicações, demitindo funcionários que se recusaram a seguir as diretrizes governamentais e divulgando estatísticas falsas com o intuito de mostrar uma situação mais favorável ao governo. Por exemplo, a inflação oficial publicada é de ''apenas'' 9,1%, nos últimos 12 meses, enquanto a verdadeira ronda os 30%. A conseqüência é a desconfiança nas instituições e nos números da economia, o que prejudica não só a economia (quem vai investir numa economia baseada em números falsos?), mas a própria democracia. A direção do Ipea, depois de dispensar funcionários competentes por divergências ideológicas, recentemente cancelou a publicação do seu boletim trimestral. Alega que quer concentrar-se nas questões de longo prazo, mas insiste em tecer comentários sobre a taxa de juros de curto prazo no Brasil: comportamento típico do atual Indec.