Friday, June 05, 2009

Trabalhe pesado! by João Mellão Neto



Trabalhe pesado!


João Mellão Neto

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No início dos anos 1700, quando a revolução comercial já era um fator determinante do progresso e do desenvolvimento das nações, um pensador espanhol teria escrito um ensaio defendendo a tese de que o seu país não deveria entrar naquela competição, porque seria um esforço desnecessário. A Espanha, na época, possuía reservas em metais preciosos suficientes para comprar tudo o que seu povo necessitava. Esse mesmo argumento poderia ser válido, um século depois, nos anos 1800, para não embarcar na aventura industrial.

O resultado é que o império espanhol ruiu, as suas decantadas reservas se dissiparam e a outrora pujante nação ibérica amargou mais de dois séculos de decadência. Está voltando ao proscênio agora, quando nem o seu governo nem o seu povo se pautam mais por aquela enganosa opulência do passado.

De certa forma, é esse mesmo problema que inviabiliza o progresso e o desenvolvimento de muitos países que vivem, atualmente, da riqueza fácil gerada pela extração de petróleo. Para que, afinal, arregaçar as mangas? O ouro negro supre todas as carências...

Não é à toa que entre os países mais pobres da África figuram - em aparente paradoxo - os que possuem as maiores reservas mundiais de diamantes e pedras preciosas. A posse de recursos naturais abundantes e de fácil extração já causou a desgraça de muitas nações, através dos tempos.

O que dizer, então, quando a falsa abundância não provém de riquezas reais, mas de programas assistenciais promovidos pelos governos locais?

Os analistas isentos e imparciais seriam unânimes em afirmar que, nesse caso, o caminho da perdição seria ainda mais curto.

E se tais políticas paternalistas estivessem sendo promovidas num país pobre e desprovido de maiores recursos? Aí, então, seria suicídio - afirmariam os estudiosos -, uma nação deliberadamente atirando em seus próprios pés.

Pois é esse exatamente o caso do Brasil e do seu programa Bolsa-Família.

Segundo se vangloria o próprio governo, o programa já contempla 11 milhões de famílias, alcançando, assim, entre um quarto e um terço de toda a população brasileira. Trata-se de um exemplo ímpar: em toda a História universal, somos o único povo que logrou escapar da miséria com mesadas.

Argumentos para defender o Bolsa-Família não faltam. O difícil é acreditar que o programa seja viável para sempre.

Pode-se argumentar, a favor dele, que, em termos imediatos é uma forma eficaz de combater os malefícios causados pela miséria. Sem dúvida. Mas trata-se de um paliativo - um remédio que cuida dos efeitos, e não das causas da moléstia. Assim sendo, o seu efeito não é duradouro e tampouco definitivo.

Há pelo menos três aspectos cruciais que estão eivando a iniciativa:

Não se está exigindo, na prática, nenhuma contrapartida dos beneficiários;

não se está fixando um prazo máximo para a concessão do benefício;

o valor do benefício pago está-se revelando muito elevado.

Benefício concedido sem reciprocidade é esmola. E esmola não cria cidadãos ativos. Cria, isso sim, mendigos.

Benefício concedido para sempre não é uma ajuda, mas sim um privilégio. E privilégios não geram indivíduos independentes. Geram, quando muito, um massa disforme de parasitas.

Benefício com valor elevado não complementa o trabalho, mas o substitui. Não gera trabalhadores, mas desocupados. Em vez de pessoas ativas, uma multidão apática de ociosos. Um exército de pensionistas totalmente dependentes da boa vontade dos governantes.

Se o objetivo final de Lula e do PT é criar um gigantesco curral eleitoral, eles estão sendo muito bem-sucedidos. Os "bolsistas" do famigerado programa estarão sempre dispostos a sufragar os candidatos que o governo recomendar.

Mas se o que se pretende é emancipar as pessoas, então o Bolsa-Família está se revelando uma grande excrescência.

Como está escrito na porta do Inferno de Dante: "Abandonai todas as esperanças, vós que entrais"... Aqueles que se inscrevem no "Bolsa-Família" hão de saber que dele jamais sairão. As suas virtudes ativas, a sua independência, a sua cidadania, tudo isso, enfim, é impiedosamente moído tão logo se ingressa no programa. A ética do trabalho e do esforço como a única forma legítima de prosperar na vida deixa de existir já na soleira da porta.

Como reza o ditado, montar num tigre é fácil, o difícil é desmontar dele depois.

O Bolsa-Família é um programa que, uma vez implantado, não há mais como descartá-lo. Os milhões de beneficiários já estão acostumados com o aporte mensal do dinheiro fácil. Como dizer a eles que dali em diante deveriam suar o rosto para obtê-lo?

Tanto para o governo como para a oposição, propor o fim do Bolsa-Família seria eleitoralmente desastroso. E o programa, assim, se impõe como algo definitivo.

Aqueles que trabalham hão de votar na oposição, já aqueles que não trabalham votarão sempre no governo. Como estes últimos se estão tornando maioria, o continuísmo parece ser um prognóstico evidente.

Como é economicamente impossível pôr a totalidade dos brasileiros sob o guarda-chuva do Bolsa-Família - alguém tem de pagar a conta -, teremos no País, doravante, duas classes de cidadãos: a dos que sustentam e a dos que são sustentados pelo Bolsa-Família.

Quanto a você, que está lendo este artigo, a recomendação do governo é a seguinte: "Trate de trabalhar duro! Além da sua família, há mais 11 milhões de famílias que dependem de você!"

João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi
deputado federal, secretário e ministro de Estado
E-mail: j.mellao@uol.com.br
Blog: www.blogdomellao.com.br

Thursday, May 07, 2009

“Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação”

"Deus nos fez perfeitos e não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo, só depende de nossa vontade e perseverança."

(Albert Einstein)

Wednesday, May 06, 2009

By Hayek

“Many of the greatest things man has achieved are the result not of consciously directed thought, and still less the product of a deliberately coordinated effort of many individuals, but of a process in which the individual plays a part which he can never fully understand. They are greater than any individual precisely because they result from the combination of knowledge more extensive than a single mind can master”.

Thursday, April 30, 2009

The Reverse Black Swan, Part II Posted by: Michael Mandel



The Reverse Black Swan, Part II

Posted by: Michael Mandel on April 17

In the Reverse Black Swan Part I, I drew three conclusions from Taleb’s work.

1) Unexpected technological breakthroughs are possible. That’s good

2) The timing and nature of the breakthroughs cannot be controlled. That’s bad

3) Unexpected large bad events are possible as well. That’s bad. In fact, we can get bad events which have as big an impact, in the negative direction, as the technological innovations.

These principles help frame a very important policy question: How can we design our economy and financial system to decrease the odds of the negative Black Swans wiping us out, while doing the most to maximize the positive Black Swans of technological change? Or to put it another way, what kind of regulation do we need?

Reading and thinking about Taleb leads me a different answer than I would have given 6 months ago. Yes, we need more regulation—but it should be ‘regulation by simplification’ rather than ‘regulation by supervision’.


Why? As a technological optimist, I believe in innovation as the major force for growth over the long run. So one important part of policy is setting up the conditions under which technological innovation can occur. That means supporting R&D and education, encouraging venture capital and entrepreneurship, and making sure that government regulation does not get in the way of 'good' innovation.

But here's the kicker: Innovation is fundamentally unpredictable, both in timing and scale. That means no matter how much we spend on R&D and education, we cannot guarantee big economy-moving innovations--the reverse Black Swans--will arrive on any timetable. The best example: For all the money lavished on biotech and healthcare science over the past decade, turning scientific advances into economically viable and clinically useful products has been very difficult. Eventually it will come--but eventually could be tomorrow or it could be ten years from now.

That means innovation policy needs a second focus: While we are working hard on finding "The Next Big Thing," we also need to avoid or minimize the odds of negative Black Swans wiping us out in the mean time. The right way: 'Regulation by simplification', which means forcefully simplifying enough of the financial system and economy so that we actually understand what's going on, and can see problems occurring before they get too big.

This is the way that Taleb put it in a recent Financial Times piece:

Counter-balance complexity with simplicity. Complexity from globalisation and highly networked economic life needs to be countered by simplicity in financial products. The complex economy is already a form of leverage: the leverage of efficiency. Such systems survive thanks to slack and redundancy; adding debt produces wild and dangerous gyrations and leaves no room for error.

What does this mean in practice? In his book, The Black Swan, Taleb lays out the idea of a "barbell" strategy:

taking maximum exposure to the positive Black Swans while remaining paranoid about the negative ones.

For an investor, Taleb explains the barbell strategy this way:

you need to put a portion, say 85 to 90 percent, in extremely safe instruments, like Treasury bills...the remaining 10 to 15 percent you can put into extremely speculative bets.

The implication, as Taleb says, is that "you are 'clipping your incomputable risk, the one that is harmful to you." At the same time, you are maintaining your exposure to the upside, and putting yourself in situations "where favorable consequences are much larger than unfavorable ones." Some examples of businesses with big upside include:

some segments of publishing, scientific research, and venture capital. In these businesses, you lose small to make big.

The principle of the barbell strategy extends from the investor level to the economy level. That is, we should put ourselves in a position to enjoy the benefits of reverse Black Swans, while reducing the odds of out-of-control crises sneaking up on us.

The first step: Simplify big portions of the financial system so that we actually understand what is going on. Why is that important? It's becoming clear in retrospect that no one--literally no one--understood all the interactions between the new financial instruments, the massive flows of money sloshing around the globe, the huge trade deficits and the world housing boom, not to mention fifteen other factors. When the regulators let Lehman go bust, they had no idea it was going to lead to a run on European banks.

In other words, the global financial markets made up a complex system, defined as a system that produces results outside the bounds of what anybody could reasonably foresee. That's not a good thing. To the degree possible, we need to turn the financial markets into a simpler system, which is easier to understand.

That may mean partitioning the financial system and going back to something like a Glass Steagall world. There would be one part which consists of simple banks that only take deposits and make simple loans, and which are heavily insured by the government. The other part would do the more complicated and harder to understand financial deals, with explicitly no guarantee from the government and measures put in to restrict leverage.

Taleb is not alone here. Paul Krugman recently wrote a NYT piece called "Making Banking Boring," which was heading in the same direction.

Reducing leverage and debt is an essential part of the simplification process. The reason? Excess use of leverage can turn almost any system 'complex', in the sense of making it hard to predict. If I take on a lot of debt, I've become vulnerable to relatively small negative events. If my trading partners have taken on lots of debt as well, we've set up a situation where there's the potential for chain reactions.

In the broadest sense, taking on big debt forces you to make an assumption about future growth--but as we saw before, growth depends on technological innovation, which is itself unpredictable. In other words, too much debt amplifies the fundamental unpredictability of innovation. Indeed, Taleb would like to go the other way and delink most of the economy from the financial system, arguing that "economic life should be definancialised."

Now, that goes against prevailing wisdom. The Free Exchange blog at the Economist magazine objected to Taleb's FT article, saying:

While limits on leverage are necessary and tax policy which encourages firms to issue debt rather than equity is misguided, the villain here is not complexity. Perhaps Mr Taleb and lawyers hired as regulators do not understand complex derivatives, but many people do. Should we outlaw innovation for the benefit of people who lack quantitative skills? These products do indeed provide a means to hedge risk. The crisis may have been much worse without some of the financial products that did pay off.

Further, the crisis was not caused by complex products. It was the result of a terrible assumption—that housing prices would continue to rise....Wishing away complexity does not change that or prevent future incompetence.

But Taleb is making a different point. He would argue that as complexity rises, you have to make more and more assumptions, with less and less understanding of the underlying system. As a result, the chance of making a 'terrible assumption' rises. This time it was the future path of housing prices. Next time it will be something different. As Taleb writes in his book. "Remember that infinite vigilance is just not possible."

Whew...sorry this took so long. The next piece in the reverse Black Swan series will look at innovation at the corporate level.

The Reverse Black Swan, Part I Posted by: Michael Mande




The Reverse Black Swan, Part I

Posted by: Michael Mandel on April 01

I recently reread The Black Swan and came to a surprising conclusion: Once I looked beneath the snarkiness, Nassim Nicholas Taleb’s book is brilliant—and I don’t use that term lightly. Yes, it is still true that Taleb is a confirmed pessimist and I am a confirmed technological optimist. But he’s gotten hold of fundamental truths which have changed some of my views about innovation and growth.

In particular, Taleb has a persuasive argument for why the economy, the financial markets and technology are fundamentally unpredictable in both directions—up and down—and why we should care.

Let’s start with the small reasons to like Taleb. First, he does a great job of nailing the bankers. He writes that the bankers:

are not conservative; just phenomenally skilled at self-deception by burying the possibility of a large, devastating loss under the rug.

(Remember that the book was published in 2007, before the crisis really took hold). In the same vein, Taleb writes that

people are often ashamed of losses, so they engage in strategies that produce very little volatility but contain the risk of a large loss—like collecting nickels in front of steamrollers.

Bingo—that’s exactly what the banks did.

But prescience about the crisis is not the only or even the most important reason to take Taleb seriously. His big innovation is that he has the best approach that I’ve seen for thinking about “fundamental unpredictability.”

The question of economic and technological unpredictability has been a top concern of mine for many years. In my 1996 book, The High Risk Society, I argued that “economic growth is disruptive and unpredictable”. In my 2000 book, The Coming Internet Depression, I stressed the increasingly violent nature of the lurches in the economy:

…the process of technological and business innovation amplifies the normal rhythms of the overall economy….The result is that the Old Economy business cycle has been replaced by the New Economy tech cycle: longer expansions, followed by deeper and harsher recessions.

Since then, I’ve repeatedly made the point that technological progress is fundamentally unpredictable (see here and here)

But Taleb has gone far beyond anything that I did—I’m envious and appreciative. His main point is that the world is consistently capable of generating “Black Swans”—outlier events which have an extreme impact, and “retrospective (though not prospective) predictability.” Obviously the current financial crisis is a Black Swan from the perspective of many people.

There are several important implications. First, Black Swans don’t have to be purely negative events—we can have positive or what I would call ‘reverse’ Black Swans as well. The invention of the Internet was a reverse Black Swan—unexpected, extreme impact, and inevitable in retrospect. More generally, the positive Black Swans are the technological innovations which could not have been anticipated ahead of time, and which work so well that we have experienced 200 years of rising living standards, despite the downward Malthusian pressure.

Taleb acknowledges the possibility of positive or reverse Black Swans, though he doesn’t spend much time on them. On the subject of technology, Taleb writes:

Prediction requires knowing about technologies that will be discovered in the future. But that very knowledge would almost automatically allow us to start developing those technologies right away. Ergo, we do not know what we will know.

As a result, going forward, we can view the world as able to produce unexpected positive technological innovations. There is no potential ceiling for growth. In addition, we could easily see a reverse Black Swan—a technological breakthrough that helps pull us out of the downturn.

However—and this is an enormous however—a Taleb-type analysis tells us something else. Because technological innovation really is fundamentally unpredictable, increasing the amount spent on R&D and innovation does not lead to diversification and a reduction of uncertainty. Taleb writes:

In spite of our progress and the growth in knowledge, or perhaps because of such progress and growth, the future will be increasingly less predictable.

This is especially true in the U.S. The way that the global economy developed in recent years, the U.S. has outsourced production to other countries, and kept the high-end task of design and innovation. As Taleb puts it:

The American economy has leveraged itself heavily on the idea generation.

This is precisely the point that I missed in my 2004 book, Rational Exuberance. In that book, I argued that a “hot” financial system—one with lots of highly mobile capital —would boost growth by seeking out and funding the development of the most promising innovations. I also argued that this growth-enhancing effect was worth the added possibility of financial crises. This is what I wrote then:

During boom times, the U.S. is able to fund innovative and growing new businesses with financial instruments--venture capital and junk bonds--that barely exist anywhere else. And then when the inevitable bust comes, the U.S. financial system is highly liquid and far more diversified than elsewhere, able to cope with sharp plunges without freezing up.

Har de har har. How stupid could I have been...

In my (weak) defense, I acknowledged in that book the possibility that the pace of innovation would slow, leading to lower real wages for college-educated workers. What's more, I pointed out that in the absence of innovation:

...it will become a lot harder to service all the debt that companies and people took on during the 1990s. Housing prices will slump and perhaps even plummet.

But despite this nod to the potential Black Swan of the financial crisis, I didn't really wrap my mind around the possibility that all this money out there might not get results. The fundamental unpredictability of technology means exactly that--we could summon up all this capital, and not get the big innovation. The big potential innovations such as biotech didn't take off in the post-2000 era, as was expected. As a result, that big pot of hungry money had no outlet except for housing. The innovations didn't happen.

What did happen was a big negative Black Swan--the financial crisis. And a Taleb-type analysis tells us that such negative unexpected events--a sudden acceleration of global warming, global war, a breakdown of the Internet, you name it--are almost guaranteed over a long enough time span.

So here's the thing. What reading Taleb tells me is that as a technological optimist, I need to accept three statements.

1) Unexpected technological breakthroughs are possible. That's good

2) The timing and nature of the breakthroughs cannot be controlled. That's bad

3) Unexpected large bad events are possible as well. That's bad. In fact, we can get bad events which have as big an impact, in the negative direction, as the technological innovations.

Whew. That's it for this post. In my next post on Taleb, I will talk about the implications of these three statements for financial and innovation policy.

Sunday, April 26, 2009

Chitchen Itza, Mexico

 
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Mount Everest- Animal kingdon, Orlando, USA

 
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Blood Ties

 
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Thursday, April 16, 2009

O LIVRE MERCADO INVENTOU O CARÁTER by Reinaldo Azevedo


A convite do site Ordem Livre, escrevi um texto respondendo a uma questão proposta pela Templeton Foundation: será que o livre mercado corrompe o caráter? O Ordem Livre traduziu a resposta dada por alguns especialistas mundo afora e convidou personalidades de países de língua portuguesa para escrever sobre a mesma questão.
Abaixo, reproduzo o texto. Aqui, um pouco mais do Ordem Livre segundo ele mesmo: “OrdemLivre.org é um projeto da Atlas Global Initiative em cooperação com o Cato Institute. Como parte de uma organização independente, sem vínculos partidários, não aceitamos qualquer financiamento estatal. Todo o nosso suporte vem de contribuições voluntárias e da venda de publicações.”

Os princípios declarados do Ordem Livre são estes: liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado. Também são os meus. Responderam a mesma pergunta, entre outros, Jagdish Bhagwati, John Gray, Michael Novak e Kay S. Hymowitz. Segue o meu artigo.
*
O LIVRE MERCADO INVENTOU O CARÁTER
O mercado não poderia responder pela corrosão do caráter porque o caráter, como o entendemos, é uma construção do próprio mercado.
Todas as línguas de cultura devem a origem dessa palavra, primeiro, ao grego e, depois, ao latim. “Caráter”, no idioma de Cícero, significava, originalmente, o ferro em brasa com que se marcavam os animais. Por metonímia, passou a indicar a marca que esse instrumento deixava. O tempo e a metáfora se encarregaram de fazer com que a palavra designasse o conjunto de valores cultivados por um indivíduo. Esse conjunto se torna a sua marca particular, aquilo que o distingue, uma moral privada estampada a fogo na consciência. Só pode haver “caráter” se há indivíduo.
Por que sustento que a sociedade de mercado inventou o caráter? Porque ela é uma condição necessária, embora não suficiente, da liberdade. E não pode haver individuação onde não há escolha. Não é por acaso que as mais eloquentes fábulas antiutópicas — como Nós (Ievguêni Zamiátin), Admirável mundo novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), O Processo (Kafka) e O zero e O Infinito (de Arthur Koestler, a melhor de todas elas) — flagrem justamente o indivíduo contra o “ser coletivo”, que é uma invenção do Estado. Trata-se do contraste entre o homem de caráter e aqueles que se fazem meros funcionários de uma ordem cuja única preocupação é garantir a própria sobrevivência.
Os dias que correm, depois da crise financeira que varreu o mundo, são especialmente propícios à hostilização do mercado, que propiciaria a ganância. Ambições desmedidas, típicas das sociedades capitalistas, teriam conduzido o mundo à beira do abismo. Não fosse a vontade de lucrar, não fosse a vã cobiça, dizem os sacerdotes das catacumbas do estatismo, tudo seria diferente.
Bem, nem vou me ocupar — quer porque óbvio, quer porque outros já o fizeram — de demonstrar que o ciclo de prosperidade econômica que antecedeu a crise tirou milhões de pessoas da miséria e forneceu o capital necessário para a revolução tecnológica, que não ficou restrita ao setor financeiro. Os inimigos do capitalismo detestam constatar que o dinheiro de um “maldito especulador” financia o desenvolvimento de vacinas e de máquinas agrícolas, que salvam a vida de milhões. Na sua fantasia, isso tudo é obra da benemerência e do humanismo abstrato. Seria igualmente ocioso lembrar aqui como andou o caráter nas sociedades que decidiram abolir o mercado ou que houveram por bem submetê-lo a um rígido controle do Estado. Os vários fascismos e as várias faces do socialismo real — e só houve o real, não é? — deixaram um rastro de mortes, de desolação, de desastres.
O que corrói o caráter — na verdade, o destrói — é a tirania. Chamo de “tirania” a impossibilidade de se organizar qualquer forma de resistência à vontade oficial, quando os próprios indivíduos já não podem mais exibir seus traços distintivos, suas marcas particulares, porque perderam a vontade da autonomia. Quem chegou mais perto da plena caracterização dessa sociedade foi o teórico comunista Italiano Antonio Gramsci. Para ele, o lugar que Maquiavel reservara ao “Príncipe” seria ocupado por um partido político — no caso, o Partido Comunista —, que ele chamava “Moderno Príncipe”.
Nenhum daqueles antiutopistas que citei acima chegou aos pés de Gramsci quando ele relata o papel que o “o partido” deveria ocupar na sociedade: “O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.
Nos países campeões da corrupção, o que se tem é mercado de menos, não mercado demais. Em alguns casos, e o Brasil tem larga experiência no assunto, gangues se apropriam de estruturas estatais para impor a sua vontade e cuidar dos seus interesses particulares. O regime é só uma derivação pervertida da economia de mercado. A fraude numa licitação ou o sobrepreço numa obra pública, por exemplo, têm origem na corrupção do caráter do agente público, que pode fraudar as regras sob o abrigo da lei.
Rotineiramente, o Estado, sob o pretexto de moralizar a sociedade de mercado, inventa o pecado para, depois, definir a penitência dos agentes privados que ele se encarregou de perverter. E o faz oferecendo ainda mais controle estatal e, pois, mais chances e instâncias de mediação para o exercício da corrupção. Entendo que a tarefa dos homens livres é lutar para conter os apetites deste ente pantagruélico. É fato que pagamos um preço por viver em sociedade. Mas tem de ser um preço justo. O melhor instrumento para manter a détente entre indivíduo e estado é a sociedade da regulação: agências independentes do governo e do mercado — e vigiadas por ambos — devem se encarregar de fazer valer a lei... de mercado!
A idéia de que o mercado corrompe o caráter nasce da suposição de que possa haver um sistema perfeito, capaz de livrar os homens de suas paixões, levando-os, então, à plena liberdade. A história demonstra ser essa uma fantasia liberticida. “Liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome”, exclamou certa mocinha a caminho da guilhotina, para satisfazer a sede de sangue do justiceiro Robespierre. Ademais, lembremo-nos de uma frase de Goethe, que parece sintetizar à perfeição o totalitarismo: “Ninguém é tão desesperadamente escravizado como os que acreditam que são livres”. Os regimes totalitários, como aquele imaginado por Gramsci, querem dar essa impressão de liberdade.
Livre mesmo é só o homem que sabe que tem de lutar para conter todos os apetites que querem escravizá-lo. E essa é uma tarefa da consciência individual, não do Estado.
E encerro com uma constatação e um enigma. A primeira medida de um regime de força é suspender o habeas corpus; a segunda é tabelar preços. Tenho a certeza de que isso quer nos dizer alguma coisa. O que será?

Saturday, April 11, 2009

Quem foi que disse? by ROBERTO DAMATTA -

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Achei pungente algumas reações estrangeiras à observação de cunho racista do presidente Lula sobre a causa da crise. Quando se diz que Lula não queria ser racista, mas apenas lembrar que a responsabilidade da convulsão cabia mesmo a uma maioria branca, loura e de olhos azuis, os louros de olhos azuis, que assim assimilaram a observação, revelam como o humano é mesmo arbitrário, contextual e dependente de muita coisa, como diz a nossa vã sabedoria. Mas os panos quentes são sempre colocados em função de quem falou.
Quem foi que disse? Se um professor de sociologia diz numa aula que "os crioulos e os mulatos pernósticos são os causadores do atraso do Brasil", ele toma um processo e pode ser interditado social e politicamente.
Expresso pelas pessoas comuns, o racismo é um crime. Mas se uma alta autoridade do mais alto escalão salienta o aspecto físico como sendo o elemento responsável por nada mais nada menos que a crise que envolve o mundo nada ocorre. Pelo contrário, alguns aceitam a pecha (ou trolha) e, com gosto penitencial, assumem o ônus da produção de uma boa desculpa, dizendo que o presidente-operário não tinha a intenção de ser racista e que, neste caso específico, o racismo (ou que passa por ele) seria justificado.
Não faço nenhum cavalo de batalha.
Afinal, como afirmou o presidente dos Estados Unidos, Lula é o homem.
Ele é o líder mais popular do mundo. Ademais, Lula saiu na foto não só ao lado da rainha da Inglaterra, realizando o sonho de toda a nossa elite política que continua se pensando e repensando como — vejam vocês — nobre, mas do lado esquerdo da soberana, posição apropriada para um Lula que, naquele momento, esquecia sua acusação de direita aos "brancos de olhos azuis" e, orgulhosamente sentado à sinistra ao lado de uma mulher de sangue azul, mudava de posição.
Sei que a ocasião faz o ladrão. Mas sei também que os ladrões fazem ocasiões. Como conciliar princípios com circunstâncias? Como calibrar a visão de longe que revela grandes monumentos e formidáveis iniquidades, como a escravidão e o racismo, com a visão de perto que nos torna mais (ou menos) humanos e nos dissolve num oceano de pequenos gestos sem sentido? A saída pelo humor é a mais tranquila. Na sua ambiguidade, o riso permite abrir (e fechar) com todos os lados.
Voltemos ao quem disse. A declaração de um presidente faz desabar a bolsa de valores.
Uma conversa entre pai e filho desmancha um casório. Um ditador com total apoio do seu povo pode liquidar uma etnia, acusandoa de ser impura ou iníqua, como ocorreu com os ciganos e os judeus na velha e civilizadíssima Alemanha. Na América Ibérica, bispos e padres liquidaram milhões de índios em nome da catequese e do cristianismo. Hoje, eles correm o risco de serem calados por teimarem em permanecer na "Idade da Pedra" e terem muita terra.
Por que os negros, que, muitas vezes, eram maioria, revoltaram-se tão pouco? Perguntou-me, um dia, um intrigado aluno americano, branco como um cigarro, louro como a Marilyn Monroe e com olhos mais azuis do que um céu de primavera. Porque, respondi sem hesitar, tratava-se de uma indiscutível visão de mundo.
Como toda visão de mundo, seu trabalho era o de legitimar-se a si mesma, como dizia o velho Durkheim. Os negros eram inferiores porque eram escravos e eram escravos porque eram inferiores. Isso não era dito somente por pessoas simples e do povo, mas todo mundo: padres, juristas, comerciantes ricos, sábios da mais alta estirpe e aristocratas de sangue azul. Enfim, toda a torcida do Flamengo era favorável ao sistema que estava instituído e produzia efeitos e efetividades. Tinha um lado intelectual e um lado emocional e prático.
Era uma instituição abrangente, totalizada que permeava todas as dimensões da vida e da morte, como diria o grande Mauss. Nesse sistema, a inferioridade do negro era indiscutível.
Aliás, discutir sua possível igualdade era algo novo e revolucionário.
Quem poderia defendê-los em tal sistema e contexto?
Agora, pergunto eu, entre o curioso e o assustado: quem vai defender os branquelas louros de olhos azuis contra o cara, contra o maior líder mundial? Aí deve entrar em cena não o presidente dos Estados Unidos, mas Gordon Brown, primeiro-ministro britânico que cumprindo o mais perfeito papel de leva e traz, tão nosso conhecido, candongou Lula a Obama tornando pública toda uma filosofia de governo: "Quando eu era sindicalista, eu culpava o governo; quando era da oposição, culpava o governo; quando virei governo, culpei a Europa e os EUA." Ou seja, Lula é mesmo o cara. O sujeito que pode falar tudo, fazer tudo, dizer que não sabia e, melhor ainda, culpar os outros. Trata-se do curinga, essa carta básica de um mundo em plena liquidez (como diz Bauman) ou em plena liquidação? Vocês, que são safos, decidam.
ROBERTO DaMATTA é antropólogo

Sunday, April 05, 2009

O Impacto do Clima na Cultura by Rodrigo Constantino



A pátria do capital não é o clima tropical com sua vegetação exuberante, mas a zona temperada.” (Karl Marx)

Não acredito em determinismo de nenhum tipo, seja genético, social, climático ou histórico. Nenhuma força exógena ao homem determina seu destino. Como disse Viktor Frankl, “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”. É a crença no livre-arbítrio humano, da qual compartilho. Mas isso não quer dizer, naturalmente, que o homem não sofra influências que podem contribuir muito para suas escolhas e, portanto, trajetória. Nesse contexto, o clima sempre foi bastante citado como fator relevante para a formação de diferentes culturas. A natureza contribui – para o bem ou para o mal – na moldagem da mentalidade predominante de um povo.

O filósofo Bentham, por exemplo, disse que “entre as circunstâncias externas pelas quais a influência da educação é modificada, as principais são aquelas agrupadas sob a rubrica do clima”. Ele acrescentou: “Nos climas quentes, a saúde do homem tende a ser mais precária que nos frios; sua força e rijeza, menor; seu vigor, firmeza e constância mental, menor; e portanto, indiretamente, sua quantidade de conhecimento é também menor. O pendor de suas inclinações é diferente, e isso de modo mais notável no tocante à sua maior propensão para os prazeres do sexo e à precocidade da etapa da vida em que essa propensão começa a se manifestar: suas sensibilidades de todos os tipos são mais intensas; suas ocupações habituais mais para a lassidão que para a atividade; a constituição básica de seu corpo é, provavelmente, menos forte e menos rija; a constituição básica de sua mente é menos vigorosa, menos firme e menos constante”.

Vários outros pensadores depositaram no clima uma importância elevada na formação cultural de um povo. Montesquieu, por exemplo, disse que “nos países frios há menor sensibilidade aos prazeres; nos temperados, ela é um pouco maior, e, nos países quentes, ela é extrema”. Ele disse ainda: “O calor do clima pode ser tão excessivo que o corpo perde todo o vigor. A prostração alcança, dessa maneira, até mesmo o espírito: nenhuma curiosidade ou nobreza de propósito, nenhum sentimento generoso. Todas as inclinações se tornam passivas, e a preguiça se confunde com a felicidade”. Kant foi bastante direto também: “A excelência das criaturas pensantes, sua rapidez de apreensão, a clareza e a vivacidade dos seus conceitos, os quais chegam a elas pelas impressões do mundo externo, a capacidade de combinar esses conceitos e, em suma, toda a extensão da sua perfeição tornam-se mais altas e mais completas na proporção direta da distância do seu lugar de moradia até o Sol”.

David Hume também responsabilizou o clima pela situação nos trópicos: “Por que razão as pessoas que vivem entre os trópicos ainda não conseguiram desenvolver nenhuma arte ou civilidade, nem aprimorar política alguma em seu governo, nem disciplina militar alguma, enquanto poucas nações nos climas temperados se viram privadas desses benefícios? É provável que uma causa desse fenômeno seja o calor e a constância do clima na zona tórrida, que tornam menos necessárias para os seus habitantes as roupas e as casas, e assim eliminam, em parte, aquela necessidade que é sempre o maior estímulo ao trabalho e à invenção”.

John Stuart Mill, ao constatar que as nações detentoras do melhor clima e do melhor solo não têm sido as mais ricas ou as mais poderosas, também apelou ao clima como justificativa: “A vida humana nessas nações pode ser mantida com tão pouco que os pobres raramente sofrem de ansiedade, e, nos climas onde o mero existir é um prazer, o luxo que eles preferem é o do repouso. Energia, sob o apelo da paixão, eles a possuem em abundância, mas não aquela que se manifesta no trabalho contínuo e perseverante. E, como eles raramente se preocupam o bastante com objetivos remotos para estabelecer boas instituições políticas, os incentivos à industriosidade são ainda mais enfraquecidos pela proteção imperfeita dos seus frutos”.

Malthus acreditava que “o selvagem dormiria para sempre sob sua árvore se não fosse arrancado do seu torpor pelo ardume da fome ou pelo incômodo do frio”. Ele escreveu: “Naqueles países onde a natureza é mais redundante na produção espontânea, não encontramos habitantes que se notabilizem pela agudez de intelecto. A necessidade foi chamada, com muita verdade, de a mãe da invenção”. Thomas de Quincey disse: “Ao cooperar, por meio das tentações que oferece, com o langor luxuriante dos nativos, o clima se torna uma maldição desabilitadora dos melhores instintos da população”. Emerson também aderiu a esta explicação: “O solo difícil e os quatro meses de neve tornam o habitante da zona temperada do norte mais sábio e mais capaz que o seu par abençoado pelo perpétuo sorriso dos trópicos”. Alfred Marshall foi mais um nessa linha: “Um clima quente prejudica o vigor. Ele não é de todo hostil ao trabalho intelectual e artístico superior, mas impede as pessoas de se tornarem aptas a suportar um esforço muito intenso de qualquer tipo por maior tempo”.

Em resumo, vários pensadores depositaram no clima certa responsabilidade pela maior indolência, preguiça ou passividade observada nos trópicos. A necessidade de conviver num ambiente natural mais hostil pode ter colaborado para que os povos do norte desenvolvessem maiores aptidões para a produção. No Brasil, um pobre com poucos recursos consegue não apenas sobreviver, como pode também desfrutar de um lazer gratuito como a praia. Nos países escandinavos, a probabilidade desse mesmo pobre morrer de frio é bem maior. Fora isso, o clima tropical sem dúvida é mais propenso a manter uma população sem grandes ambições, numa condição de quase completo dolce far niente. É uma espécie de convite tentador ao hedonismo, ao carpe diem.

Mas nada disso é uma imposição inexorável. A Austrália é um bom exemplo para provar que é possível um povo prosperar num clima tropical. O clima tropical pode ser uma barreira ao progresso capitalista, mas não é um obstáculo intransponível de forma alguma. Roberto Campos afirmou: “Os que crêem que a culpa de nossos males está em nossas estrelas e não em nós mesmos ficam perdidos quando as nuvens encobrem o céu”. Ele estava certo. A responsabilidade pelo atraso cultural brasileiro, pelo nosso “jeitinho”, pela mentalidade que enaltece a “Lei de Gérson”, não pode ser jogada nos ombros dos “loiros de olhos azuis”. Ela é somente dos próprios brasileiros. Afinal, podemos mudar para melhor, independente do clima. A receita foi dada pelo colega de Campos, Eugênio Gudin: “Os países da América Latina não precisam criar uma civilização. Ela já foi criada pela Europa nos últimos quatro séculos. Cabe-nos assimilar essa civilização”.

Portanto o presidente do Brasil é doloso, um criminal. Sobre o fato com muita proficiência by Roberto da Matt

“Escrevo constrangido, pois não tenho nenhum prazer em comentar mais
uma das tais "metáforas" de mau gosto do presidente Lula. Gafes com
implicações morais e políticas tão profundas e desagradáveis que, nem
mesmo os políticos mais autocondescendentes, cabotinos e engordados
pela mamadeira de um Estado que os trata como realeza, devem repetir.
Que eles jurem que não sabiam, que não conheciam o sócio canalha ou a
origem do dinheiro, eu amargamente engulo, mas o caso em pauta não pode
passar em branco e visto com olhos azuis”

Quem tem raça é cachorro by JOÃO UBALDO


No domingo passado, citei aqui a frase de meu amigo e conterrâneo Zecamunista que hoje uso como título.

Ele de fato diz isso, como eu também digo, nas conversas intermináveis havidas com amigos desde a juventude, quando nos ocorre a felicidade de revê-los. Coroas meio ou bastante chatos, compreendemos quando os mais novos nos cumprimentam com a possível afabilidade, depois mantendo prudente distância.

Portanto, a maior parte de nossas conversas não passa mesmo do papo de dois velhotes irresignados e rezinguentos, que não sai, e geralmente não deve ou não precisa sair dali, pois costuma ser algo sem o qual ou com o qual tudo permanece tal e qual, como sentenciava minha avó Pequena Osório, a respeito de meus livros.

Mas, no caso, quando estamos ameaçados de ver consagrada nas leis do país a divisão do povo brasileiro entre raças, acho que devemos fazer o nosso papo transcender os limites do Largo da Quitanda, a ágora da Denodada Vila de Itaparica, onde hoje vultos menores, como Zeca e eu, ocupam com bem pouco brilho o lugar de tribunos da plebe legendários, como Piroca (Piroca é um apelido para Pedro, no Recôncavo Baiano; não tem nada demais, é um fenômeno que atinge o nome “Pedro” de forma curiosa; quer ver, pergunte a um amigo americano o que quer dizer peter, com P minúsculo) e Zé de Honorina, este negro pouco misturado com branco, aquele mulato.

Zé, aliás, um dos homens mais inteligentes, argutos e eloquentes que já conheci — e cito o que se segue como um dado interessante — não tinha muita noção de que era negro e uma vez me pediu explicações sobre “negritude” e “irmandade” entre negros, conceitos que lhe eram pelo menos parcialmente estranhos.

Mas vou deixar de nariz de cera e de vaselina, porque creio que o assunto merece ser tratado na grossura mesmo, como vem sendo por muita gente, em todas as faixas de opinião.

Quem tem raça é cachorro (em inglês, breed, não race), gente não tem raça. Não vou repetir, porque qualquer um com acesso ao Google pode se encher de dados sobre isto, os argumentos científicos que desmoralizam a raça como um conceito antropologicamente irrelevante e equivocado, sem apoio algum entre os que estudam a genética humana. Entretanto, o atraso da espécie (ou raça) humana leva a que continuemos a lhe emprestar importância desmedida e irracional, odiando por causa dele, matando por causa dele e até ameaçando o planeta por causa dele. De qualquer forma, incorporando o conceito de raça a seu sistema jurídico, o Brasil estará dando um ridículo (mas de consequências possivelmente temíveis, ou no mínimo indesejadas) passo atrás, mais ou menos como se o Ministério da Saúde consagrasse a geração espontânea de micro-organismos como fonte de infecções.

Mais ridículo e até grotesco é que os defensores do reconhecimento das “raças” que compõem a povo brasileiro façam isso depender de uma declaração ou opção da pessoa racialmente classificada, até mesmo em circunstâncias nas quais essa opção pode não ser honesta, mas apenas de conveniência, como nos casos, já acontecidos, de gente que se considerava branca declarar-se negra para obter a vaga destinada a um “negro”. Ao se verem num mato sem cachorro para definir a raça de alguém, exceto copiando manuais nazistas e tornando Gobineau e Gumplovicz autores básicos para a formação de nossos cientistas sociais, médicos, dentistas, músicos, atletas e profissionais de outras áreas onde as diferenças de aptidão ou fisiologia são “visíveis”, assim como era visível a superioridade dos atletas de Hitler que o negro Jesse Owen botou num chinelo, os defensores de cotas raciais se valeram desse recurso atrasado, burro, grotesco e patético em sua hipocrisia básica. Não há como defender critério tão estapafúrdio e destituído de qualquer fundamento.

Outra coisa chata, enquanto vemos o Brasil querer botar na letra da lei, o que outros países onde houve e há até mesmo apartheid, como nos Estados Unidos, não só de ontem como ainda de hoje, apesar do presidente Obama, fazem força para retirar, é a persistência do que eu poderia chamar de síndrome de Mama África, contra a qual quem eu mais vejo protestar são escritores amigos meus de países africanos, que não aguentam mais ser embolados num mesmo pacote como “africanos”, transformando em folclore disneyano a enorme complexidade cultural de um continente como a África. Burrice falar em “cultura africana”, “comida africana” e similares, em vez de pluralizar essas entidades, porque são plurais. Além disso, nada mais racista e simplório do que achar que os negros são “irmãos”. Os negros são tão irmãos entre si quanto os europeus entre si, ou seja, irmãos em Cristo, tudo bem. Mas o racismo contra si mesmos de muitos que se acham negros insiste em que há essa irmandade. Documentos escravagistas do Segundo Império, no Brasil, recomendavam que se mantivessem escravos de nacionalidades diversas na mesma senzala, porque muitos se odiavam ou desprezavam entre si mais do que ao opressor. Quem já viu um alemão racista olhar um polonês (eslavo, que curiosamente tem a mesma origem que “escravo”) sabe o que estou dizendo. Desumaniza-se o negro, tornando-o imune à baixeza de seus companheiros de humanidade (mas não de raça). Isto, claro, é outra asnice desmentida pelos fatos ontem e hoje. Ontem, quando mercadores negros de escravos vendiam outros negros por eles mesmos escravizados; hoje, quando negros continuam a escravizar negros e a guerrear entre si, exatamente como os homens de outras raças, o que lá seja isso, desgraça de atraso de vida na cabeça das pessoas, triste exemplo de um país misturado pela graça de Deus querer jogar no lixo esse dom inestimável e irreproduzível, “modernizandose” pela condenação por vontade própria ao que a História não o condenou.

Sunday, February 15, 2009

Montaigne sobre a retórica


A retórica “é uma ferramenta inventada para manipular e agitar uma multidão e um povo sem ordem, e é ferramenta que só se emprega em Estados doentes”; uma maquiagem feita para “abastardar os julgamentos”, comovendo em vez de convencendo.By Montaigne

Monday, February 02, 2009

Saturday, January 03, 2009

Keynes offers us the best way to think about the financial crisis By Martin Wolf


Keynes offers us the best way to think about the financial crisis

By Martin Wolf

Published: December 23 2008 18:06 | Last updated: December 23 2008 18:06

We are all Keynesians now. When Barack Obama takes office he will propose a gigantic fiscal stimulus package. Such packages are being offered by many other governments. Even Germany is being dragged, kicking and screaming, into this race.

The ghost of John Maynard Keynes, the father of macroeconomics, has returned to haunt us. With it has come that of his most interesting disciple, Hyman Minsky. We all now know of the “Minsky moment” – the point at which a financial mania turns into panic.
EDITOR’S CHOICE
Economists’ forum - Oct-01

Every week, 50 of the world’s most influential economists discuss Martin Wolf’s articles on FT.com

Like all prophets, Keynes offered ambiguous lessons to his followers. Few still believe in the fiscal fine-tuning that his disciples propounded in the decades after the second world war. But nobody believes in the monetary targeting proposed by his celebrated intellectual adversary, Milton Friedman, either. Now, 62 years after Keynes’ death, in another era of financial crisis and threatened economic slump, it is easier for us to understand what remains relevant in his teaching.

I see three broad lessons.

The first, which was taken forward by Minsky, is that we should not take the pretensions of financiers seriously. “A sound banker, alas, is not one who foresees danger and avoids it, but one who, when he is ruined, is ruined in a conventional way along with his fellows, so that no one can really blame him.” Not for him, then, was the notion of “efficient markets”.

The second lesson is that the economy cannot be analysed in the same way as an individual business. For an individual company, it makes sense to cut costs. If the world tries to do so, it will merely shrink demand. An individual may not spend all his income. But the world must do so.

The third and most important lesson is that one should not treat the economy as a morality tale. In the 1930s, two opposing ideological visions were on offer: the Austrian; and the socialist. The Austrians – Ludwig von Mises and Friedrich von Hayek – argued that a purging of the excesses of the 1920s was required. Socialists argued that socialism needed to replace failed capitalism, outright. These views were grounded in alternative secular religions: the former in the view that individual self-seeking behaviour guaranteed a stable economic order; the latter in the idea that the identical motivation could lead only to exploitation, instability and crisis.

Keynes’s genius – a very English one – was to insist we should approach an economic system not as a morality play but as a technical challenge. He wished to preserve as much liberty as possible, while recognising that the minimum state was unacceptable to a democratic society with an urbanised economy. He wished to preserve a market economy, without believing that laisser faire makes everything for the best in the best of all possible worlds.

This same moralistic debate is with us, once again. Contemporary “liquidationists” insist that a collapse would lead to rebirth of a purified economy. Their leftwing opponents argue that the era of markets is over. And even I wish to see the punishment of financial alchemists who claimed that ever more debt turns economic lead into gold.

Yet Keynes would have insisted that such approaches are foolish. Markets are neither infallible nor dispensable. They are indeed the underpinnings of a productive economy and individual freedom. But they can also go seriously awry and so must be managed with care. The election of Mr Obama surely reflects a desire for just such pragmatism. Neither Ron Paul, the libertarian, nor Ralph Nader, on the left, got anywhere. So the task for this new administration is to lead the US and the world towards a pragmatic resolution of the global economic crisis we all now confront.

The urgent task is to return the world economy to health.

The shorter-term challenge is to sustain aggregate demand, as Keynes would have recommended. Also important will be direct central-bank finance of borrowers. It is evident that much of the load will fall on the US, largely because the Europeans, Japanese and even the Chinese are too inert, too complacent, or too weak. Given the correction of household spending under way in the deficit countries, this period of high government spending is, alas, likely to last for years. At the same time, a big effort must be made to purge the balance sheets of households and the financial system. A debt-for-equity swap is surely going to be necessary.

The longer-term challenge is to force a rebalancing of global demand. Deficit countries cannot be expected to spend their way into bankruptcy, while surplus countries condemn as profligacy the spending from which their exporters benefit so much. In the necessary attempt to reconstruct the global economic order, on which the new administration must focus, this will be a central issue. It is one Keynes himself had in mind when he put forward his ideas for the postwar monetary system at the Bretton Woods conference in 1944.

No less pragmatic must be the attempt to construct a new system of global financial regulation and an approach to monetary policy that curbs credit booms and asset bubbles. As Minsky made clear, no permanent answer exists. But recognition of the systemic frailty of a complex financial system would be a good start.

As was the case in the 1930s, we also have a choice: it is to deal with these challenges co-operatively and pragmatically or let ideological blinkers and selfishness obstruct us. The objective is also clear: to preserve an open and at least reasonably stable world economy that offers opportunity to as much of humanity as possible. We have done a disturbingly poor job of this in recent years. We must do better. We can do so, provided we approach the task in a spirit of humility and pragmatism, shorn of ideological blinkers

As Oscar Wilde might have said, in economics, the truth is rarely pure and never simple. That is, for me, the biggest lesson of this crisis. It is also the one Keynes himself still teaches.

Capitalists On The Way Up; Socialists on Way Down. During Crises, Balance Always Tilts Toward Gov't. from CARPE DIEM by Mark J. Perry

Many are finding it hard to make merry in the aftermath of this year’s financial crisis. Collateral damage from the crisis is extensive—unemployment is rising in the US, exporters are hurting in emerging markets, global stock markets are depressed, and each day seemingly brings new cries for government help from struggling industries.

Some see these effects as proof of capitalism’s failure. After all, this year saw the crumbling of a financial nucleus under its own weight, necessitating the US government to rescue the few straggling survivors. Capitalism, it’s argued, encourages greed and self-interests above the public good (Madoff is a “shining” example), and the solution is government and regulation.

But will larger government and more regulation help? History shows regulation does little to curb excesses. This is because excesses exist not because of the capitalist system, but because they are perpetuated by the participants. No amount of tinkering can regulate innate human characteristics.

There’s an old saying: “Everyone’s a capitalist on the way up and a socialist on the way down.” People want it all—to reap the benefits of free markets, but be protected against any downside. Capitalism won’t abide. And that’s a good thing. It’s a system of inherent checks and balances, which can be swift and brutal during the pruning process. In rough times, we seem willing to sacrifice free markets’ benefits for perceived security from this process (investors accepting 0% return on Treasuries is a recent example). Still, if free markets were restricted, what would happen to those checks? Subprime problems (or Madoff’s) were not revealed by regulators, but by markets. Note, politicians are human, too.

Capitalism and free markets are not ever-stable. They work precisely because they compel folks to take risks and seek to create excess value out of existing capital, in whatever form that might be. They’re examples of constant change and innovation. Change isn’t always comfortable—and much of it will fail—but when it moves society in a more efficient direction, society certainly becomes more profitable.

During crises, the balance always tilts toward government and away from capitalism. This doesn’t mean capitalism is done. But such things are always said in times like these. For months now we’ve applauded coordinated government efforts to provide monetary and fiscal liquidity and stimulus to the shocked financial system and to provide much-needed confidence. We tend to draw the line, however, at government “ownership” of assets and/or direction of those funds. Government “solutions” can only carry the economy so far—it’s up to capitalism to drive real, sustained growth. That is, it’s up to the people who make an economy, not its turgid overseers.

Monday, November 17, 2008

The Road Not Taken by Robert Frost



Robert Frost (1874–1963). Mountain Interval. 1920.

1. The Road Not Taken


TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth; 5

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same, 10

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back. 15

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference. 20

Sunday, November 16, 2008

The unknowns


'There are known knowns. There are things we know that we know. There are known unknowns. That is to say, there are things that we now know we don't know. But there are also unknown unknowns. There are things we do not know we don't know.'

The story of the turkey and the butcher




As previously described by Bertrand Russell, a turkey may get used to the idea of being fed but when, the day before Christmas, it is slaughtered, it will incur 'a revision of belief

Quotes of Yogi Berra.




" It ain't over 'til it's over "

"Never answer an anonymous letter"

" I usually take a two hour nap from one to four"

" It's deja vu all over again"


" When you come to a fork in the road....Take it "

" I didn't really say everything I said "

Yogi on the 1969 NY Mets....." overwhelming underdogs "

When asked what time is was......" you mean now?"

" I want to thank you for making this day necessary"
......... Yogi Berra day in St Louis 1947

On why NY lost the 1960 series to Pittsburgh " We made too many wrong mistakes"


" You can observe a lot by watching "

" The future ain't what it used to be "

" It gets late early out here"

" If the world were perfect, it wouldn't be "

" If the people don't want to come out to the ballpark, nobody's going to stop them "

Quem come quem byNELSON MOTTA


Em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão ou japonês não existe uma expressão equivalente a “comer”, significando relação sexual.

Só em português, mais especificamente em brasileiro.

Aqui, o macho predador não faz amor ou apenas sexo: devora a sua presa. Mas depois do feminismo as brasileiras modernas também adotaram a expressão para suas conquistas.

Surpresos e intimidados, os homens ouviram a temida e desejada ameaça: vou te comer! Certamente essa expressão tão brasileira está em sintonia com o conceito de “antropofagia cultural”, lançado por Oswald de Andrade em 1928 e retomado no transe de 1968.

Na época, acreditamos fervorosamente que o nosso destino e vocação— desde 1556, quando o bispo Sardinha foi comido pelos caetés — era devorar a cultura colonizadora, digeri-la e transformála em brasileira e revolucionária.

Em 2008, no mundo globalizado e interligado, com as culturas nacionais interagindo e se misturando, com a fusão de linguagens e gêneros, com os samplers, a computação gráfica e todas as maravilhas da era da informação e das comunicações, não há nada mais anacrônico do que a idéia de antropofagia cultural. Porque hoje qualquer cultura nacional come e é comida, querendo ou não: a “antropofagia” é inevitável e óbvia.

Quanto tempo perdido teorizando sobre Villa-Lobos ou Tom Jobim “comendo” Bach, Debussy ou Cole Porter para produzir uma música brasileira internacional.

Ou Niemeyer degustando Le Corbusier para inventar a arquitetura moderna. Ou Nelson Rodrigues pumamando em Dostoiévski para criar uma dramaturgia tijucana e universal.

A pobre cultura nacional, provinciana e colonizada, ou “antropofágica e antiimperialista”, não tem nada com isso: os méritos são exclusivamente do talento individual desses raros criadores nativos.

Poucos acreditaram tanto nessa bobagem de “antropofagia” como eu. Levamos a sério a piada do velho Oswald, por ela aceitamos muita empulhação. Quantas vezes diverti amigos estrangeiros, embora falasse a sério, exaltando essa esdrúxula teoria como um diferencial da arte brasileira. Como se pode ser tão bobo tanto tempo?

Fim da moral que mata by André Petry


Fim da moral que mata

"Eleitores do Colorado votaram proposta
que previa incluir na Constituição estadual
que um óvulo fertilizado equivalia a uma
pessoa: 73,3% rejeitaram a idéia"

Uma grande notícia ficou escondida debaixo da vitória de Barack Obama – é o começo do fim da moral que mata.

Obama prometeu em campanha, e reafirmou depois da eleição, que vai revogar as restrições impostas por Bush às pesquisas com células-tronco embrionárias, nas quais repousam as melhores esperanças de alívio e até de cura de doenças como diabetes, Alz-heimer e Parkinson. Bush proibiu o uso de dinheiro público para financiar essas pesquisas sob o argumento de que, ao destruir embriões, elas matam seres humanos. Bush é da opinião que óvulo e gente se equivalem.

Nos Estados Unidos, quem melhor representa essa corrente são os radicais da direita cristã. Eles defendem o absolutismo moral, religião infecciosa segundo a qual a moral não comporta exceção. Se eles são contra o aborto, o serão em qualquer situação, mesmo no caso da menina de 13 anos que engravida ao ser estuprada pelo próprio pai. O absolutismo moral é o que leva, como no caso das pesquisas com embriões, à defesa da moral que mata. Mata portadores de doenças incuráveis e fatais. Mata gente para preservar óvulo. Eles chamam essa obtusidade de firmeza.

A eleição de Obama é um sinal de que as coisas podem mudar. Os eleitores do estado do Colorado, além de escolher o presidente, votaram a Proposição 48, que previa incluir na Constituição estadual que um óvulo fertilizado é igual a uma pessoa – o que implicaria enormes restrições ao aborto e às pesquisas com embriões. Resultado: 73,3% rejeitaram a idéia. No estado de Michigan, a Proposição 2 removia restrições às pesquisas com células-tronco de embriões. A proposta passou por 52,6% contra 47,4%, placar mais apertado que a aprovação do uso medicinal da maconha (62,6% a 37,4%).

Conversei por telefone com Amy Comstock Rick. Ela comanda a Parkinson’s Action Net-work, entidade que representa os portadores da doença nos EUA (são 1 milhão; 60 000 novos casos são diagnosticados por ano) e, nessa condição, foi escolhida para presidir a Coalition for the Advancement of Medical Research, guarda-chuva de uma centena de órgãos que defendem o avanço da pesquisa e da tecnologia na medicina. Amy Rick está otimista com os novos tempos. Sobretudo com a saída de Bush.

"A oposição mais forte às pesquisas com células-tronco embrionárias", diz ela, "não vem do governo Bush, vem da pessoa do presidente. Bush é pessoalmente contra." Estaria Bush representando a maioria dos americanos? "Não. Três quartos dos americanos apóiam as pesquisas com embriões."

A normalização da pesquisa nos EUA, meca do dinheiro, do estudo e da tecnologia, será uma grande notícia para todos os cidadãos do mundo, doentes e sadios, incluindo os absolutistas morais que lutam para barrar a ciência e, um dia, vão se beneficiar dos seus avanços. Dos avanços, como se diria no vernáculo deles, da imoralidade que salva.

Tuesday, November 04, 2008

A Sagrada Família by JOÃO PEREIRA COUTINHO


A Sagrada Família
Já tudo foi dito e escrito sobre o último livro de Reinaldo Azevedo, "O País dos Petralhas" (Record, 337 págs.). Uma feroz e divertida denúncia da política brasileira e do "establishment" petista atualmente em cena? Sem dúvida.

Mas existe uma passagem do livro que não é para rir. É para ler, meditar, talvez chorar. Acontece a propósito de nada: Reinaldo Azevedo prepara-se para sair de férias e, em momento de trégua, partilha com os leitores do blog a memória feliz de um livro aparentemente menor, "A Morte de um Apicultor", do sueco Lars Gustafsson.

Quem leu Gustafsson? Curiosamente, eu li. E perguntei-me, durante anos, se seria a única criatura do mundo a lembrar com ternura desse livro imensamente melancólico e belo. É a história de um velho, condenado por doença mortal, que vai anotando, em vários cadernos, os pensamentos, as rotinas e até as dores físicas de uma vida a caminho do fim. "Recomeçamos. Não nos rendemos", escreve o velho, vezes sem conta. E, com essa frase, termina a sua odisséia, momentos antes de a ambulância vir buscá-lo.

Reinaldo Azevedo evoca "A Morte de um Apicultor" para dizer o que de mais profundo alguém pode dizer sobre a função de uma democracia civilizada: ela existe, precisamente, para que possamos tratar das nossas vidas banais. Para que possamos ser como o velho apicultor do livro: simplesmente interessados nas nossas rotinas, nas nossas famílias, nas nossas memórias privadas. E conclui o colunista: o que é imperdoável na política brasileira não é apenas a corrupção, a boçalidade e a ignorância dos próceres. O que é imperdoável é a existência de uma elite política moralmente miserável que impede esse espaço pessoal e intransmissível onde podemos ser "senhores das nossas lendas" e alheios ao ruído do mundo. No Brasil, tudo é ruído. E no resto do mundo?

No resto do mundo, talvez não. A tese pertence a Luc Ferry e ninguém diria que Luc Ferry e Reinaldo Azevedo dariam um bom par. Mas as aparências enganam. Em "Famílias, Amo Vocês", um breve ensaio publicado no Brasil pela Objetiva, Luc Ferry retoma a observação pessoal de Reinaldo e elabora uma questão filosófica fundamental: nos tempos que passam, seremos capazes de nos sacrificar por algo ou por alguém? Ao olharmos para o brilhante século 20 e para o longo cortejo de matanças em que a centúria foi pródiga, encontramos milhões de seres humanos que marcharam e mataram em nome de puras abstrações. A Nação. O Partido. O Progresso. A Raça. O Império. O baile terminou em chamas e, hoje, no meio das cinzas, alguns zelotes ideologicamente nostálgicos lamentam o "recolhimento individualista" das nossas sociedades "burguesas" e clamam pelo inevitável, e tantas vezes sanguinário, regresso da "imaginação ao poder".

A resposta de Luc Ferry é a oposta: devemos festejar o recuo das grandes causas; e devemos, sobretudo, celebrar as pequenas. Devemos celebrar os nossos familiares, os nossos amigos. A nossa tribo. O nosso "pequeno pelotão", como dizia Burke no século 18. São eles as causas por que vale a pena lutar. São eles que constituem o princípio e o fim das nossas "transcendências".

Nas palavras do filósofo francês, houve uma "divinização do humano" ou, se preferirem, uma "transcendência na imanência" que leva o Homem ocidental a apenas "sair de si mesmo" para participar no destino daqueles que lhe estão mais próximos. As nossas utopias são pessoais, não coletivas; e esse recuo é prova da nossa maturidade política e de uma certa decência moral.

Ao longo da história, as famílias sempre estiveram ao serviço da política e foram, por vezes, estilhaçadas por ela? É hora de virar o disco: uma sociedade política civilizada deve servir as famílias; deve permitir que estas possam cultivar as suas virtudes sem a intervenção e os constantes abusos do Estado.

E o Brasil será essa sociedade política civilizada no dia em que o ruído do mundo der lugar ao silêncio dos lares. No dia em que for possível, como escreve Reinaldo Azevedo, ter uma alma, cultivar intimidades, guardar as pequenas coisas ridículas, sem que a República conspire com suas sujidades e violências. Será esse o dia em que o famoso dilema de Camus deixará de fazer sentido: a justiça ou a minha mãe?
Obviamente, a mãe.

Porque, como diria um velho apicultor sueco, nós nunca nos rendemos perante o que nos é sagrado. Recomeçamos. *

Sunday, October 26, 2008

Ceding the Center By DAVID BROOKS

"There are two major political parties in America, but there are at least three major political tendencies. The first is orthodox liberalism, a belief in using government to maximize equality. The second is free-market conservatism, the belief in limiting government to maximize freedom."

But there is a third tendency, which floats between. It is for using limited but energetic government to enhance social mobility. This tendency began with Alexander Hamilton, who created a vibrant national economy so more people could rise and succeed. It matured with Abraham Lincoln and the Civil War Republicans, who created the Land Grant College Act and the Homestead Act to give people the tools to pursue their ambitions. It continued with Theodore Roosevelt, who busted the trusts to give more Americans a square deal.

Members of this tradition have one foot in the conservatism of Edmund Burke. They understand how little we know or can know and how much we should rely on tradition, prudence and habit. They have an awareness of sin, of the importance of traditional virtues and stable institutions. They understand that we are not free-floating individuals but are embedded in thick social organisms.

But members of this tradition also have a foot in the landscape of America, and share its optimism and its Lincolnian faith in personal transformation. Hamilton didn’t seek wealth for its own sake, but as a way to enhance the country’s greatness and serve the unique cause America represents in the world.

Members of this tradition are Americanized Burkeans, or to put it another way, progressive conservatives.

This tendency thrived in American life for a century and a half, but it went into hibernation during the 20th century because it sat crossways to that era’s great debate — the one between socialism and its enemies. But many of us hoped this Hamilton-to-Bull Moose tradition would be reborn in John McCain’s campaign.

McCain shares the progressive conservative instinct. He has shown his sympathy with the striving immigrant and his disgust with the colluding corporatist. He has an untiring reform impulse and a devotion to national service and American exceptionalism.

His campaign seemed the perfect vehicle to explain how this old approach applied to a new century with new problems — a century with widening inequality, declining human capital, a fraying social contract, rising entitlement debt, corporate authoritarian regimes abroad and soft corporatist collusion at home.

In modernizing this old tradition, some of us hoped McCain would take sides in the debate now dividing the G.O.P. Some Republicans believe the G.O.P. went astray by abandoning its tax-cutting, anti-government principles. They want a return to Reagan (or at least the Reagan of their imaginations). But others want to modernize and widen the party and adapt it to new challenges. Some of us hoped that by reforming his party, which has grown so unpopular, McCain could prove that he could reform the country.

But McCain never took sides in this debate and never articulated a governing philosophy, Hamiltonian or any other. In Sunday’s issue of The Times Magazine, Robert Draper describes the shifts in tactics that consumed the McCain campaign. The tactics varied promiscuously, but they were all about how to present McCain, not about how to describe the state of country or the needs of the voter. It was all biography, which was necessary, but it did not clearly point to a new direction for the party or the country.

The Hamiltonian-Bull Moose tendency is the great, moderate strain in American politics. In some sense this whole campaign was a contest to see which party could reach out from its base and occupy that centrist ground. The Democratic Party did that. Senior Democrats like Robert Rubin, Larry Summers and Jason Furman actually created something called The Hamilton Project to lay out a Hamiltonian approach for our day.

McCain and Republicans stayed within their lines. There was a lot of talk about earmarks. There was a good health care plan that was never fully explained. And there was Sarah Palin, who represents the old resentments and the narrow appeal of conventional Republicanism.

As a result, Democrats now control the middle. Self-declared moderates now favor Obama by 59 to 30, according to the New York Times/CBS News poll. Suburban voters favor Obama 50 to 39. Voters over all give him a 21 point lead when it comes to better handling the economy and a 14 point lead on tax policy, according to the Wall Street Journal/NBC News poll.

McCain would be an outstanding president. In government, he has almost always had an instinct for the right cause. He has become an experienced legislative craftsman. He is stalwart against the country’s foes and cooperative with its friends. But he never escaped the straightjacket of a party that is ailing and a conservatism that is behind the times. And that’s what makes the final weeks of this campaign so unspeakably sad.

Saturday, October 18, 2008

Sistema financeiro: por que salvar; como não regular by Mailson da Nóbrega



"Mesmo que a nova regulação elimine as falhas que
contribuíram para a atual situação, o que é desejável,
dentro de alguns anos haverá uma nova crise. Isso
porque os reguladores não conseguem acompanhar
as inovações e a criatividade do mercado nem
detectar todos os seus riscos"

Três afirmações podem ser feitas em meio à atual crise. Primeira, governos responsáveis não permitem o colapso do sistema financeiro, como se viu na recente ação coordenada dos países ricos para capitalizar seus bancos. Segunda, as hipotecas subprime não serão a causa da próxima crise financeira. Terceira, a regulação será revista e melhorada, mas não parece exeqüível criar uma "autoridade monetária internacional".

A crise mostrou a dificuldade de entender o sistema financeiro. Não é de hoje. Há tempos os banqueiros são vistos com suspeita e antipatia. Na Idade Média, os pensadores escolásticos e a Igreja Católica condenavam os juros. Nas obras de Shakespeare e Émile Zola, os banqueiros ocupam um plano bem inferior ao das prostitutas.

Os bancos não emprestam o seu dinheiro, mas o dos outros. Captam os recursos dos poupadores e os repassam aos que deles precisam. Ganham a diferença entre essas duas operações (o spread) e comissões por outros serviços. São intermediários financeiros. Ao contrário do senso comum, os bancos preferem que o Banco Central possa manter os juros baixos, pois isso reduz o risco de inadimplência. Melhor para eles é um ambiente institucional que diminua os riscos. Isso aumenta a pontualidade e faz cair o spread.

Oito séculos depois que o atual sistema financeiro começou a tomar forma nas cidades-estado italianas, a atividade ainda é vista como parasitária. As operações e os lucros estariam desconectados da economia real. Na crise, essa percepção equivocada se acentuou. Políticos aqui e lá fora conseguiram juntar ignorância e demagogia.

Surpreendeu o grau de desinformação nos Estados Unidos. Os americanos exigiram punição severa para Wall Street. O governo deveria deixar os bancos quebrar. Apenas 30% eram favoráveis à aprovação do pacote de 700 bilhões de dólares, cujo objetivo era evitar o colapso do sistema.

A revolta tinha seus motivos. Muitos perderam as residências hipotecadas. Outros não se conformavam com os polpudos salários e bônus nos bancos que contribuíram para a crise. Na rejeição inicial do pacote, metade dos democratas e republicanos da Califórnia votou contra, com um olho nas urnas. Não era para menos. O preço dos imóveis naquele estado caiu 40% em um ano.

Mesmo diante da impopularidade do pacote, os dois senadores que disputam a Presidência da República compareceram para votar a favor e assim convencer os seus pares da necessidade de aprovação. Nenhum deles gostaria de administrar os escombros da implosão da economia real. Ambos sabem que não há capitalismo nem prosperidade sem sistema financeiro.

O sistema capitalista contemporâneo começou a surgir na Europa Ocidental no século XVII na esteira de dois grandes acontecimentos: (1) os avanços institucionais que aboliram o arbítrio dos reis, asseguraram direitos de propriedade e lançaram as bases das finanças modernas; (2) a derrubada de certos dogmas da Igreja Católica, o que permitiu o desenvolvimento da ciência e deu status moral à atividade de emprestar dinheiro.

Até o advento dessa revolução, a economia européia precisara de quinze séculos para quadruplicar. Em 1820, o capitalismo havia gerado o mesmo desempenho em apenas 320 anos. Daí até o fim do século XX, 180 anos depois, o PIB europeu multiplicou-se por 47. Nesses 500 anos, a economia americana se expandiu 634 vezes. Nos tempos atuais, a economia chinesa tem dobrado a cada seis ou sete anos.

Uma das principais contribuições para esses resultados e para os correspondentes ganhos de bem-estar foi a do sistema financeiro. Dele dependeram a Revolução Industrial iniciada no século XVIII e o novo impulso à economia no fim do século XIX, derivado das inovações que fizeram nascer o crédito ao consumo e ampliaram as fontes de financiamento do investimento e do progresso tecnológico.

Estudos recentes mostram que os países detentores de bons sistemas financeiros tendem a crescer mais rapidamente. O processo se intensifica quando se dispõe de adequados mercados de capitais e de grandes bancos privados. Criam-se incentivos à elevação da taxa de poupança e os recursos são mais bem alocados. A produtividade aumenta, acelerando o ritmo do crescimento.

Além do crédito, os bancos provêem o sistema de pagamentos, pelo qual se asseguram o uso de cartões de crédito, as transferências bancárias, os saques em dinheiro e a miríade de atividades relativas a pagar salários, adquirir matérias-primas, quitar impostos, fazer compras, viajar, cuidar da saúde e por aí afora.

Na Idade Média, os bancos quebravam quando os reis não pagavam os empréstimos para financiar guerras. A atividade econômica sofria pouco. Hoje, uma quebra generalizada de bancos pode vir de uma crise de confiança que os torne insolventes. A ausência de crédito e o colapso do sistema de pagamentos levariam a economia à depressão, com catastróficos efeitos econômicos, sociais e políticos.

Para conter esse risco, os governos usam todos os instrumentos, inclusive a estatização dos bancos ou a injeção de recursos públicos para capitalizá-los, como agora. Ao contrário do que comemora a esquerda, não se está diante de uma guinada ideológica, mas da necessidade de enfrentar uma realidade inescapável. As ações dos bancos reverterão ao setor privado tão logo se domine a crise.

Tem-se atribuído grande parte da crise à desregulação dos mercados. Ocorre que as hipotecas subprime – o seu epicentro – se expandiram depois que o Congresso americano criou regras para induzir as semi-estatais Fannie Mae e Freddie Mac a atuar em favor da população de menor renda. O mercado de subprime explodiu a partir de 2004, quando as duas empresas passaram a comprar montanhas dessas operações.

No outro extremo, faltou regulação para o mercado de derivativos. A falha teria decorrido da resistência de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve. Para ele, a regulação prejudicaria o uso de um bom instrumento para distribuir os riscos do sistema. A auto-regulação resolveria. Assim, os derivativos saltaram de US$ 75 trilhões em 1997 para US$ 600 trilhões em 2007 (de 2,5 para onze vezes o PIB mundial).

É certo que a regulação será revista, incluindo a modernização do confuso aparato regulatório americano e a criação de câmaras de compensação para os derivativos. Uma boa regulação aumentará a transparência, manterá a capacidade de inovação dos bancos e preservará sua contribuição ao aumento da produtividade e ao desenvolvimento. Não se pode regular pensando apenas em controles. Isso tornaria o sistema menos arriscado, mas a economia cresceria menos.

Felizmente, haverá tempo para refletir sobre o assunto. Dificilmente haverá açodamento na feitura da nova regulação. Exageros poderão ser evitados. As autoridades americanas deverão exercer influência decisiva na definição das novas regras. Diferentemente do que se tem dito nestes dias, os Estados Unidos ainda serão hegemônicos por muitas décadas.

O governo brasileiro defende a criação de uma "autoridade monetária internacional". Por aí, burocratas baseados em um determinado país ditariam regras para bancos do mundo inteiro, do Iraque às nações ricas. É uma idéia sem futuro. A União Européia discute o estabelecimento de uma Comissão Bancária regional, que dificilmente teria o status supranacional do Banco Central Europeu. Os bancos centrais dos países-membros seriam mantidos com a tarefa operacional de supervisionar os bancos locais.

Mesmo que a nova regulação elimine as falhas que contribuíram para a atual situação, o que é desejável, dentro de alguns anos haverá uma nova crise. Isso porque os reguladores não conseguem acompanhar as inovações e a criatividade do mercado nem detectar todos os seus riscos. Explicação: os bancos têm maior capacidade de recrutar talentos e de melhor remunerá-los do que os governos.

Como aconteceu em outras oportunidades, o sistema financeiro se fortalecerá. As crises costumam gerar mudanças institucionais que melhoram o seu funcionamento. Esta não é, pois, a crise terminal do capitalismo, que Marx previu (e errou) há mais de um século, nem o ressurgimento do intervencionismo estatal de outros tempos. Nos países em que a re-regulação for bem feita, os bancos aumentarão sua contribuição para a geração de riqueza e bem-estar.

Saturday, October 11, 2008

"The Earth is not going to Last Forever " by Sonny Quattrone

Monetary History of the United States by Milton Friedman and Anna Schwartz

The detailed story of every banking crisis in our history shows how much depends on the presence of one or more outstanding individuals willing to assume responsibility and leadership….Economic collapse often has the characteristics of a cumulative process. Let it go beyond a certain point, and it will tend to gain strength from its own development…. Because no great strength would be required to hold back the rock that starts a landslide, it does not follow that the landslide will not be of major proportions.

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Now playing: Steve Miller Band - The Joker
via FoxyTunes

About panics and manias

Much has been written about panics and manias, much more than with the most outstretched intellect we are able to follow or conceive; but one thing is certain, that at particular times a great deal of stupid people have a great deal of stupid money…. At intervals, from causes which are not to the present purpose, the money of these people – the blind capital, as we call it, of the country – is particularly large and craving; it seeks for someone to devour it, there is a “plethora;” it finds someone, and there is “speculation;” it is devoured, and there is “panic.”

Sunday, October 05, 2008

A vã corrida atrás da história by Roberto Pompeu de Toledo


A vã corrida
atrás da história

"Identificar no crash dos bancos americanos o fim de uma era é avançar sobre o futuro com os mesmos precários instrumentos dos operadores doidivanas de Wall Street"

Uma charge na revista New Yorker de algum tempo atrás mostrava um cidadão da Roma antiga que, ao datar um documento, faz um gesto de desconsolo e se lamenta: "Esqueci de novo! Pus a.C. em vez de d.C.". Explicar a graça de uma piada é a melhor forma de desmoralizá-la, mas, vamos lá, abramos uma exceção. O romano cometia o mesmo erro, hoje tão comum, de ao emitir um cheque, no começo do ano, repetirmos a data do ano que terminou. No seu caso errara de era – em vez de "depois de Cristo", escrevera "antes de Cristo" –, e é desse fato que a charge extrai seus efeitos. Como é que o diabo do romano podia saber que já estava na era do d.C., e não do a.C.? Aliás, como é que podia saber que na remota província da Judéia, por aqueles dias, nascera de uma obscura família um bebê destinado a se tornar a figura central de uma nova religião?

A charge se desdobra de um absurdo a outro. Mesmo que o romano tivesse consciência do nascimento do bebê, dificilmente adivinharia que a religião nele inspirada viria a tornar-se tão importante que dali a três séculos se tornaria a religião oficial do Império. E mesmo que tivesse consciência disso não poderia adivinhar que, passados mais alguns séculos, o domínio da nova religião seria tal que o próprio modo de contar o tempo seria dividido entre antes e depois do nascimento de seu personagem central. O romano da charge é um portento. É capaz de sacar contra o futuro com pontaria precisa e alcance de vários séculos.

Nos últimos dias, ao comentarem o crash do sistema financeiro americano, muitas foram as pessoas – e entre elas reputados especialistas em suas áreas – que anunciaram o fim de uma era. Seria o fim do liberalismo, do neoliberalismo, do capitalismo, de um certo capitalismo, da hegemonia americana, de um modo de vida, de um modo de encarar o mundo, talvez mesmo o fim do mundo – escolha-se o fim do que se quiser, mas que seria o fim muito grave e sério de alguma coisa, seria. Algumas pessoas anunciavam o fim de uma era por ideologia; elas não gostam do neoliberalismo, do capitalismo e da hegemonia americana, e prevêem seus fins por coincidir com seu desejo.

Outras – e estas são mais interessantes – o fazem pelo irresistível impulso de avançar o sinal da história. A sensação é muito boa. Equivale a nada menos do que subjugar o tempo, e tê-lo aos pés como a um gatinho manso. Vive-se a emocionante experiência de ver a história brotar do solo. É como se o turco que invadiu Constantinopla pudesse ter gritado aos companheiros naquele cruel ano de 1453: "Vamos logo, que estamos inaugurando a era moderna!". Ou como se o transeunte que passou pela Rua Saint-Antoine, em Paris, no dia 14 de julho de 1789, e viu a turbamulta atacar a Bastilha, pudesse ter comentado com a mulher, ao voltar para casa: "Sabe o que eu vi hoje, querida? O início da era contemporânea". Antecipar um marco histórico nos faz tão poderosos, no saque contra o futuro, quanto o romano da charge.

A isso se acrescenta o prazer de desafiar a monotonia do tempo. Todo dia é a mesma coisa: amanhece, entardece, anoitece. Vai-se ao trabalho, à noite vê-se televisão, dorme-se. Mas espera que aí vem bomba! Nada mais será como antes! Em sete anos, esta é a segunda vez que assistimos a uma chuva de profecias de uma nova era. A anterior foi no 11 de setembro de 2001. Nada também seria como antes. O que concretamente mudou foi que em Nova York não existem mais dois vistosos prédios. A guerra que se seguiu, contra o Iraque, foi uma prova de que tudo continuou tão igual que os Estados Unidos foram capazes de cometer o mesmo erro do Vietnã, envolvendo-se num conflito sem sentido e sem saída.

O problema é que a história é tão exasperadamente lenta em manifestar-se que só se percebem seus movimentos décadas ou séculos depois. Na vida real, é mais aceitável o transeunte da Rua Saint-Antoine ter comentado com a mulher que aquele dia 14 de julho não teve nada de mais, só um incidentezinho na Bastilha. Querer flagrar a história no próprio instante em que está dando o pinote é vão. Aliás, não existem pinotes. O que existem são convenções futuras em que se fincam os marcos das transições. Profetizar o fim de uma era é avançar sobre o futuro com os mesmos precários instrumentos dos operadores doidivanas de Wall Street.

Capitalism vs. Socialism In a Single Picture


Capitalism vs. Socialism In a Single Picture

North Korea vs. South Korea at night. (HT: OBloodyHell)

According to the CIA World Factbook, 2007 GDP per capita (PPP) was $25,000 in S. Korea vs. $1,700 in N. Korea.

In "Why Socialism Failed," I concluded that "The main difference between capitalism and socialism is this: Capitalism works."